Ucrânia: uma nova Cortina de Ferro?

Ucrânia: uma nova Cortina de Ferro?

REDAÇÃO

25 de fevereiro de 2022 | 15h35

Ligia Maura Costa, Professora titular na FGV-EAESP, bacharel em direito e livre-docente em direito internacional pelo largo São Francisco

Depois da queda da Cortina de Ferro, a grave crise nas relações entre a Rússia e os principais países ocidentais representa não só um grande revés, mas indica para um perigoso cenário de conflito geopolítico no continente europeu. Certamente, os ucranianos são, hoje, os mais assustados; mas o momento é assustador para todos nós. Uma agressão violenta, capitaneada por um país com vastos recursos militares contra um país menor e muito mais fraco, no continente europeu, causa medo à humanidade, inclusive por razões históricas.

A desintegração de facto da Ucrânia representa uma grave ameaça geopolítica com consequências que vão muito além da invasão russa, propriamente dita. As consequências financeiras, comerciais e econômicas deste conflito são igualmente graves, não só para a Rússia e a Ucrânia, os atores principais, mas para a frágil recuperação da economia mundial. A vulnerável economia mundial não precisava encontrar quando parece enfim estar conseguindo sair da pandemia da Covid-19, de um conflito que acelerará a inflação, abalará os mercados e trará problemas para todos.  A invasão da Rússia à Ucrânia e as sanções retaliatórias dos países ocidentais são presságio de uma nova recessão global.

As fraturas na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), as reverberações do Brexit, as disputas internas na União Europeia da Polônia, da Hungria e o legado de quatro anos de rixas políticas entre os principiais líderes europeus e o presidente Trump são alguns dos fatores que incentivaram Putin nessa nova aventura na Ucrânia.

A Ucrânia surgiu como um Estado independente a partir do colapso da União Soviética em 1991. Sua independência representou uma época delicada, por deter o terceiro maior estoque de armas nucleares do mundo. Um acordo não vinculativo juridicamente foi firmado em 1994 pela Rússia, Estados Unidos e Reino Unido, assegurando a soberania do Estado recém-independente, em troca da entrega das armas nucleares à Rússia. O acordo foi quebrado pela Rússia em 2014, ao anexar a península da Crimeia e, hoje, com sua segunda incursão no território ucraniano, desta vez feita por mar, terra e ar. A ineficácia do acordo é patente.

Sanções internacionais existem desde o século 19, pelo menos. Elas são uma alternativa ao uso da força militar em casos de litígio entre as nações. Elas podem ser econômicas, financeiras e comerciais. Sanções para deter manobras expansionistas russas impostas pelos países ocidentais estão em vigor já há algum tempo. Inicialmente, as primeiras sanções tinham caráter simbólico e datam da primeira incursão russa na Ucrânia em 2014. O objetivo era interromper a ação e restaurar a soberania ucraniana. Sem sucesso, porém. A espiral de sanções econômicas então aumentou rapidamente, mas não conseguiu impedir a anexação da Crimeia. É possível quantificar os impactos econômicos das sanções. Já sua eficácia na busca de mudanças na política expansionista russa é decepcionante, no mínimo. O desmembramento da península da Crimeia da Rússia é totalmente irreal, nos dias de hoje.

A história demonstra que as sanções raramente são eficazes em atingir os objetivos para os quais foram impostas. Talvez, a única exceção de peso seja o apartheid na África do Sul. Mesmo assim, nenhum líder ocidental defendeu uma intervenção militar direta na Ucrânia, até o momento. Apesar de históricos fracassos (os mais conhecidos são Haiti, Cuba, Venezuela, Irã, Síria e Zimbábue), as sanções, hoje, parecem ser a opção menos ruim, talvez a única opção para se evitar um confronto direto no continente europeu. Ninguém acredita que as sanções impedirão Putin de fazer o que quiser com a Ucrânia neste momento.

Mas, se as sanções forem mantidas por um bom tempo, pode ser que elas abalem a Rússia e seus oligarcas bilionários, no longo prazo. Pelo menos é o que se espera, apesar da história demostrar resultados muito questionáveis quanto ao objetivo de promover mudanças políticas nos governos. Sucesso com a imposição de sanções internacionais é a exceção e não a regra geral. Estes são tempos de terror para o povo ucraniano; tempos terríveis para o continente europeu, que testemunha pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial uma grande potência invadindo um vizinho; e, para resto do mundo são tempos assustadores.

Todos os indícios apontam para o fato de que Putin pretende rever o mapa da Europa, inclusive anexando outras ex-repúblicas soviéticas. Tanto para Putin quanto para os demais líderes ocidentais, a Ucrânia é apenas um meio e não o fim buscado. E, importa saber, qual é o fim buscado por Putin? Será ele uma nova Cortina de Ferro? Até onde ele quer ir ou conseguirá ir de fato? Até quando os líderes ocidentais evitarão uma intervenção direta no continente europeu? Será que esses líderes estão dispostos a deter Putin militarmente? Será que conseguirão fazê-lo? São muitas questões, ainda sem respostas. Mas sob qualquer ângulo que se analise, a situação é inquietante!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.