Trumpcalismo, a nova versão do conservadorismo brasileiro

Trumpcalismo, a nova versão do conservadorismo brasileiro

REDAÇÃO

08 Novembro 2018 | 18h01

Antonia Andreatta, Daniela Mendes, Fábio Bruno Queiroga e Vinicius Franco são alunos de Administração Publica da FGVSP e estão, nesse segundo semestre de 2018, em Washington DC realizando estágio profissional no The Washington Center.

Jair Bolsonaro e Donald Trump são ambos frutos da mesma onda global conservadora que vem ocupando espaço na política e trazendo figuras não tradicionais à atmosfera governamental. Durante as eleições brasileiras, muitas pessoas – inclusive os americanos – questionaram se o candidato à presidência da República, e agora eleito, Jair Bolsonaro seria o “Trump dos Trópicos”. Assim, é importante compreender as semelhanças e diferenças entre as duas figuras, uma vez que identificá-las somente como parte do mesmo espectro político-ideológico impede um entendimento mais aprofundado de ambas nações.

A onda que trouxe os dois políticos foi formada por duas grandes movimentações sociais; a primeira delas o crescente nacionalismo, e a segunda o excesso de desconfiança e de não identificação da população perante seus representantes. O crescente nacionalismo foi uma resposta social às incertezas da globalização e, nesse contexto, ambas figuras se assemelham ao terem criado uma retórica marcada pelo protecionismo e heroísmo, com slogans como “America first” (“América primeiro” – tradução livre) e “Brasil acima de tudo”. Tanto Trump como Bolsonaro tomam para si a responsabilidade de acabar com os maiores temores de suas sociedades. Nos Estados Unidos, esses medos se traduzem sobretudo em relação à imigração e ascensão econômica da China, enquanto que no Brasil à corrupção e crise na segurança pública. As duas figuras políticas trazem soluções simples para problemas complexos, com uma linguagem direta e agressiva, e assemelham-se pelo uso massivo de redes sociais para comunicarem suas idéias. Jair Bolsonaro foi o primeiro presidente a ser eleito por meio de uma campanha baseada sobretudo em redes sociais, assim como Trump que, desde sua campanha eleitoral, até o momento atual, utiliza o Twitter como a sua principal ferramenta de comunicação. O resultado é maior confiança e proximidade para com a população, entretanto a questão que paira é a efetividade das propostas simplistas para o desenvolvimento da sociedade como um todo.

As eleições americanas mostram que o voto não é uma questão filosófica, mas, sim, uma escolha de quem mais se relaciona com o eleitor – alguém capaz de compreender seus problemas. Em um evento realizado aqui em Washington, Midterm Election Politics: What it means for Democrats & Republicans in the Era of President Trump, ouvimos estrategistas políticos comentando algumas das ferramentas de campanha para analisar candidatos, entre elas, a utilização de grupos focais, que ouviram eleitores de diferentes estados, e a pergunta feita a eles foi: Se o candidato Donald Trump fosse um membro da sua família, quem ele seria? E a resposta mais comum foi algum primo bem-sucedido, entre seus apoiadores; ou um tio ranzinza, para os que não votariam nele. No entanto, em relação a candidata Democrata, Hillary Clinton, os eleitores a relacionaram com um parente distante. Seria possível acreditar em um resultado similar entre os candidatos Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, em que Bolsonaro teria os mesmos resultados de Trump. Ademais, tal debate se concentra no campo eleitoral, o questionamento após a eleição é se Trump e Bolsonaro, que foram efetivos na sua estratégia de comunicação é se também serão lideranças efetivas para os seus respectivos países.

Dois anos após a eleição de Donald Trump, podemos trazer alguns elementos de sua gestão que podem servir de lição para o Brasil. O clima de ódio e raiva nos Estados Unidos, o mesmo que presente em nosso país, não foi pacificado como se espera após uma eleição presidencial. Só neste último mês, tivemos envio de pacotes suspeitos a líderes do partido democrata e seus apoiadores, um massacre que ceifou 11 vidas em uma sinagoga em Pittsburgh e uma caravana de migrantes da América Central que estão querendo adentrar a fronteira americana. A nomeação de um juiz da Suprema Corte acusado de abuso sexual gerou um debate popular enorme até o dia que sua indicação foi aprovada pelo Senado americano, ampliando o sentimento de polarização entre os cidadãos. Além disso, essa semana Trump iniciou um debate sobre fim da cidadania a quem nasce no país, o que é um direito constitucional. A retórica populista do presidente, oferecendo soluções simples a problemas complexos foi para além dos discursos de campanha. O mesmo problema que o Brasil pode sofrer, fruto da continuidade da violência e ódio de um país polarizado.

No entanto, no âmbito econômico há divergências significativas nas estratégias adotadas pelas duas lideranças, mostrando que apesar das aparentes semelhanças, há diferenças dado os diferentes contextos nacionais. Enquanto Trump é protecionista, Bolsonaro defende a abertura do mercado. A estratégia protecionista do presidente norte-americano teve como consequência uma agenda de comércio internacional muito turbulenta e confusa aos mercados, o que gerou instabilidade nas bolsas pelo mundo e principalmente nas economias emergentes. A guerra comercial com a China, por exemplo,  virou uma preocupação global. Os impactos de tais medidas no desenvolvimento do país ainda não é claro e, portanto, seria prematuro tirar conclusões sobre a efetividade das medidas econômicas adotadas pelo presidente norte-americano. Porém, o cenário econômico se mostra favorável para novos acordos comerciais, o que pode ser a união perfeita aos dois países.

Talvez a maior divergência entre Donald Trump e Jair Bolsonaro esteja nos diferentes contextos institucionais em que se inserem. O presidente americano ascende como um fenômeno antissistema dentro do próprio sistema, por meio da tradicional instituição do partido republicano. Já Bolsonaro é uma figura antissistema que emerge de um partido que ganhou significância apenas nas últimas eleições, o PSL, responsável por fazer emergir uma “nova elite política”. A grande questão é que os Estados Unidos já têm tradicionalmente estabelecido a sua direita, em que há um conjunto de instituições de pesquisa, jornais e universidades que formam o pensamento conservador americano. No Brasil, pela primeira vez desde a redemocratização, viu-se um grupo autodeclarado de direita  chegar até a presidência da república, de uma forma completamente não tradicional e fazendo campanhas por meios igualmente não tradicionais. Portanto, observa-se no Brasil como os conservadores irão se posicionar e se colocar frente aos problemas públicos. O futuro político incerto do país será um teste para as instituições brasileiras que, caso sejam efetivas, vão impor limites ao mais novo presidente e farão a manutenção da jovem democracia brasileira. Portanto, o melhor cenário para o Brasil é ter um “Trump dos Trópicos”, em que se joga pelas regras democráticas e sofre o peso e os contrapesos dos outros poderes.