Trump, Temer e a Crise da Democracia

REDAÇÃO

06 de julho de 2017 | 14h02

Rafael R. Ioris, Professor de História Latinoamericana e Política Comparada na Universidade de Denver. Autor do livro Qual Desenvolvimento? Os Debates, Sentidos e Lições da Era Desenvolvimentista. (Paco Editorial, 2017).

Muito tem se dito sobre a chamada crise da democraia de matriz liberal que estaríamos atravessando nos dias de hoje. Dado que ainda estamos experimentando o desdobrar desse processo, qualquer prognóstico sobre o mesmo só pode ser, por definição, provisório. É certo que, em nível global, percebemos o recrudescimento da lógica autoritária em diversos países, entre os quais Rússia, China, Turquia teriam destaque quando ao retrocesso dos parâmetros liberais no ambiente doméstico. Da mesma forma, a retórica nacionalista, muitas vezes xenofóbica, presente nestes mesmos contextos, também tem se acentuado na India, em diversos países do Leste Europeu, assim como, aprofundando os riscos inerentes desse cenário, no Reino Unido, e mesmo, mais recentemente, nos EUA.

No caso dos Estados Unidos, o aumento do discurso contra o sistema político e mesmo instituições democráticas foi embasado também em um movimento populista de direita que prometia reinserir os problemas do ‘homem comum’ nas preocupações dos tomadores de decisão. Que seu porta-voz, o magnata imobiliário e celebridade televisiva, Donald Trump, nunca tenha tido, de fato, nenhuma intenção em defender os interesses dos setores populares brancos do país – o que tem sido claramente demonstrado em seus planos de alteração do sistema de saúde e regime tributário do país – não importou muito no sentido de prevenir sua eleição a presidência do país em outubro passado. E embora ainda não esteja de todo claro que rumo seu governo terá em termos de mudanças sistêmicas na estrutura do estado norte-americano, dadas as insconsistências da coalização no poder e a crise de legitimidade do próprio processo eleitoral que levou Trump ao governo, é certo que a retórica anti-globalista vai continuar.

Trazendo para nosso contexto doméstico, temos hoje todos os elementos de uma crise profunda da legitimidade democrática, mas em um nível muito mais grave. Percebemos aqui também um crescente discurso anti-política, martelado em sua versão mais conhecida no chavão “são todos iguais”, a existência de um crescente moralismo Udenista redivivo, defensor da República de Promotores, e, acima de tudo, a realidade de um mandatário, que chegou ao poder por meios escusos e ilegítimos, imerso em um dos maiores escândalos de corrupção da história do país.

Mas se os parâmetros da anti-política e moralismo hipócrita são comuns entre os ventos soprando nos ambientes doméstico e internacional, enquanto no último a lógica fundacional embasando toda uma série de posições e dinâmicas poderia ser definida como anti-sistêmica, por aqui, estamos imersos em uma tentativa apolíptica de reinserir o país nas ultrapassadas mas, surpreendentemente, para muitos, saudosas políticas neo-liberais ocorrendo, ao longo de trágica ironia, em um momento quando estas mesmas são cada vez mais tidas como utrapassadas ao redor do mundo.

Assim, embora o sentimento de exclusão crescente ao redor do mundo, em grande parte fruto da lógica mercadista da globalização liberal dos anos 90, seja o principal motivador do salvacionismo anti-política presente nos EUA, na Terra Brasilis a erosão da institucionalidade democrática é muita mais diretamente ligada a uma pauta conversadora, muitas vezes golpista, de judicialização da política e banalização das instituições, em grande diretamente ligada `as alterações socio-econômicas, certamente insuficientes mas ainda assim necessárias, das duas últimas décadas.

Aprofudando esse quadro já por demais preocupante, percebemos também no ambiente nacional o crescimento de uma lógica anti-direitos humanos, a erosão rápida da valor intrínsico até pouco atribuído pela maioria dos brasileiros ao processo de consolidação da democracia em nosso país, assim como a retomada de uma narrativa meritocrática de mercado, promotora do individualismo atroz e da consagração das desigualdades sociais.

Como resgatar, entre nós, a legitimidade e o valor da democracia e da cidadania de todos é um desafio que vai além dos processos eleitorais, também necessários. Ao mesmo tempo, aliando a nossa realidade aos desafios globais, a consecução desses objetivos seria, talvez, a maior contribuição que poderíamos dar ao necessário aprofundamento da democracia liberal que, lá como cá, só avançará com mais, não menos democracia e participação.

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