Trilhas e caminhadas de longa distância: quadro atual e perspectivas de criação e desenvolvimento no Brasil

Trilhas e caminhadas de longa distância: quadro atual e perspectivas de criação e desenvolvimento no Brasil

REDAÇÃO

08 de março de 2022 | 00h23

André Fontan Köhler, Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP e Mestre em Administração Pública e Governo pela FGV-EAESP. Professor da EACH-USP do bacharelado em Lazer e Turismo e pesquisador do Laboratório de Gestão de Governamental (Lab.Gov) da USP

Renato Eliseu Costa, Doutorando em Políticas Públicas pela UFABC, Mestre em Gestão de Organizações Públicas pela UNIFESP e bacharel em Gestão de Políticas Públicas pela EACH-USP. Pesquisador do Laboratório de Gestão de Governamental (Lab.Gov) da USP

Em influente nota de pesquisa publicada há 25 anos, Geoffrey Wall criou uma tipologia para as atrações turísticas, classificando-as como pontos (por exemplo, museus e monumentos históricos), áreas (casos dos precintos urbano-turísticos) e linhas (trilhas e caminhadas de longa distância). Estas têm recebido menos atenção do que os dois primeiros tipos, tanto na pesquisa quanto nas políticas públicas de turismo, particularmente no Brasil.

Há, basicamente, duas maneiras de se classificar as trilhas e caminhadas de longa distância, as quais não são mutuamente exclusivas. A primeira é classificar em “orgânicas” ou “intencionalmente criadas”. A primeira consiste em algo que já existia, por mais que tenha caído em desuso; em muitos casos, são feitas adaptações em relação ao caminho original. O Caminho de Santiago de Compostela (Espanha) e os caminhos da Estrada Real (Novo, Velho, dos Diamantes e do Sabarabuçu) são “orgânicos”. O Circuito do Vale Europeu (Estado de Santa Catarina) enquadra-se como “intencionalmente criado”; seu trajeto liga diversos municípios do Vale do Itajaí, dentro de claras motivações de desenvolvimento econômico, por meio do turismo.

A segunda é classificar a trilha e caminhada de longa distância como “natural”, cultural” ou “natural-cultural”, dadas suas características predominantes. Trata-se de uma classificação mais difícil, pois muitos caminhos têm características naturais e culturais, simultaneamente. O Caminho da Muralha de Adriano segue, na maior parte de seu trajeto, os remanescentes da muralha, a qual demarcava a fronteira mais setentrional do Império Romano, ao mesmo tempo em que passa por paisagens vistas como típicas do norte da Inglaterra. Comum às duas classificações é tomar, como razoável, a qualificação de longa distância como a necessidade de o andarilho pernoitar, a fim de concluir o caminho em questão, de seu início ao fim.

As trilhas e caminhadas de longa distância cumprem uma série de objetivos, para as regiões e localidades atravessadas. A primeira é a preservação e (re)utilização de antigos caminhos e do patrimônio cultural remanescente, seja infraestrutura (calçamento histórico, por exemplo) ou elemento conexo (sedes antigas de fazendas). A segunda é possibilitar a criação de um senso de pertencimento de lugar e de identidade compartilhada.

A questão do desenvolvimento econômico, com a geração de emprego e renda, é importante, inclusive pelo fato de muitas trilhas e caminhadas de longa distância passarem por vilas e pequenos povoados, nos quais a oferta de bens e serviços aos andarilhos é feita por pequenos negócios familiares, notadamente meios de hospedagem e alimentos e bebidas. Por fim, as trilhas e caminhadas de longa distância podem possibilitar a criação de uma narrativa sobre os fatos do passado, e influenciar questões relacionadas à história, memória e identidade derivadas do caminho, por meio de sua interpretação.

As trilhas e caminhadas de longa distância têm experimentado notável crescimento, nas últimas décadas, em vários países, por mais que o fenômeno seja mais facilmente verificável em países desenvolvidos. No Reino Unido, foram criadas várias trilhas nacionais, com distâncias que variam de 127 a 1.014 quilômetros; algumas recebem destaque na promoção turística internacional, caso do Caminho da Muralha de Adriano. Anualmente, milhões de andarilhos percorrem, pelo menos, um trecho de uma trilha nacional. Nos Estados Unidos da América, a desativação de mais de 250.000 quilômetros de ferrovias, nos últimos 60 anos, possibilitou a conversão de caminhos de ferro desativados e abandonados em trilhas e caminhos de longa distância. As assim chamadas rail-trails estão presentes em todos os 50 estados, totalizando mais de 40.000 quilômetros.

O caso do Estado de Israel é, particularmente, interessante. Na Bíblia Sagrada, João 14:6 coloca o seguinte: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”. Em Israel, há dois caminhos de longa distância de Jesus, o Caminho de Jesus (Jesus Trail) e o Caminho do Evangelho (Gospel Trail). Ambos saem de Nazaré, possuem muitos pontos de contato, e percorrem trechos em paralelo, um ao outro. O Caminho do Evangelho foi criado pelo ministério do turismo israelense, e sua agenda de fomento ao turismo e geração de emprego e renda em locais pouco frequentados pelos turistas foi, sempre, clara.

No Brasil, há já algumas trilhas e caminhadas de longa distância, das quais os caminhos da Estrada Real e o Caminho da Fé (vários ramais, com final sempre em Aparecida) são os mais conhecidos. Ambos foram criados na primeira metade dos anos 2000, e são “orgânicos”, mesmo que tenham sofrido adaptações. Nos últimos anos, têm sido criadas trilhas e caminhadas de longa distância da categoria “intencionalmente criadas”, destacando-se o Circuito do Vale Europeu – interessante iniciativa de consórcio intermunicipal, algo ainda incomum no Brasil – e o Caminho de Cora Coralina, o qual liga cidades turísticas de Goiás (a ligação com a escritora serve mais como mote e homenagem póstuma).

Na literatura analítica (científica) e em projeções profissionais de mercado, percebe-se que há tendência de alto crescimento das trilhas e caminhadas de longa distância, tanto na oferta (criação e adaptação) quanto na demanda (participantes, inclusive turistas). Muitos países e regiões têm investido em trilhas e caminhadas de longa distância, com a criação, gestão, tematização e divulgação, tendo turistas e visitantes como importante público-alvo.

No Brasil, o quadro atual não é, ainda, muito animador. A criação e estruturação de novas trilhas e caminhadas de longa distância não são, ainda, iniciativas muito comuns, por parte do poder público, organizações não governamentais e entusiastas. Percebe-se, também, que a criação e estruturação resumem-se, no mais das vezes, à sinalização de direcionamento, planilhamento e construção de sítios eletrônicos de divulgação e reunião de meios de hospedagem e bares e restaurantes. O planejamento é capenga; muitos pontos não são abordados nem sequer responsabilizados, a exemplo da infraestrutura necessária à caminhada – por exemplo, pequenas pontes sobre cursos d’água – e a garantia dos direitos de passagem, quando se passa por terras privadas. Percebem-se já claros problemas nos caminhos da Estrada Real e no Circuito da Fé, resultantes da não reposição da sinalização de direcionamento e interpretação e de “lacunas” na infraestrutura, a exemplo da conservação de pontes e mesmo de trechos inteiros, tomados pelo mato.

Há dois problemas básicos, a saber: a) a responsabilização sobre o caminho é, via de regra, pouco clara, inclusive pela falta de formação de uma rede de interessados. No caso da Trilha Transcarioca e da Estrada Real, dado o grande potencial turístico, esperar-se-ia, também, a participação do governo federal; e b) é um ponto fora da agenda pública efetiva. A Estrada Real chegou a ser “prioridade” do Governo Aécio Neves (2003-2010), mas, junto com outras duas dezenas de programas e projetos, não significou muita coisa em gestão e manutenção, além de sua implantação e sinalização (esses, sim, trabalhos hercúleos e admiráveis).

Para trabalhar em cima das trilhas e caminhadas de longa distância, precisa-se abordar quatro a demanda, os impactos positivos e negativos de sua implantação e utilização, o planejamento, criação e desenvolvimento e a gestão, promoção e manutenção.

Reconhece-se que a demanda é difícil de ser medida, dada a dificuldade de contar o público que utiliza as trilhas e caminhadas de longa distância, em virtude de seus vários pontos de entrada e saída. As pesquisas têm convergido à descrição desse público como portador de nível educacional e renda acimas da média da população, predominantemente masculino e de jovem a meia idade. Além disso, costuma viajar com outros andarilhos, e tem uma apreciação acima da média para questões preservacionistas e ambientais, conforme sumarizado por Dallen J. Timothy e Stephen W. Boyd, em seu bom volume de introdução ao estudo dos roteiros e trilhas. Em muitos casos, a trilha e caminhada de longa distância é o motivo principal de muitas viagens com vários pernoites, casos dos dois autores do presente texto.

A criação e utilização das trilhas e caminhadas de longa distância geram impactos, tanto no caminho em si quanto em locais adjacentes e próximos, a exemplo de povoados, distritos e cidades. Há, aqui, dois tipos a explorar – os ambientais e os econômicos. A discussão dos impactos sociais e culturais fica para uma próxima oportunidade. No caso dos impactos ambientais, problemas com o solo (compactação, erosão e alteração da composição química), a fauna (afastamento e aproximação [dependência da comida dada, inadequadamente, por andarilhos]), a vegetação (pisoteio, depredação, subtração [souvenir] e carreamento de espécies invasoras) e o patrimônio cultural (depredação e subtração) são pontos a considerar. Como impacto ambiental positivo, sobressai-se a oportunidade de educar o andarilho, principalmente em questões como a importância da preservação do meio ambiente e de hábitos saudáveis, inclusive a caminhada. No caso dos impactos econômicos, prevalecem os positivos, principalmente devido ao fato de o turista passar vários dias a caminhar, em locais, muitas vezes, sem grandes atrações turísticas que, por si só, atraem turistas e visitantes.

O planejamento, criação e desenvolvimento de trilhas e caminhadas de longa distância segue princípios do planejamento, de forma geral; chama-se a atenção para cinco pontos particulares a elas. É preciso tomar muito cuidado com a questão do financiamento, pois não é suficiente um esforço hercúleo de criação e implantação, caso dos caminhos da Estrada Real. A manutenção é mister; um pequeno trecho obstruído pode comprometer a experiência do andarilho em toda a trilha. No Brasil, as trilhas e caminhadas de longa distância, mesmo as com grande afluxo de andarilhos e peregrinos, não resolveram, ainda, a questão do financiamento para sua manutenção. A infraestrutura e a sinalização sofrem constante desgaste, fruto da utilização, intempéries e depredação, como em qualquer lugar do Mundo; sem a devida manutenção, compromete-se o produto.

Isso leva ao segundo ponto. É vital lançar mão de voluntários, a fim de verificar o estado do caminho, e proceder a manutenção e reposição devidas, principalmente no caso de exiguidade de recursos financeiros. É difícil imaginar os 1.780 quilômetros dos quatro caminhos da Estrada Real supervisionados e mantidos pela organização não governamental responsável. Além disso, deixar a manutenção a cargo de dezenas de prefeituras municipais, com níveis de interesse e capacidades muito diferentes, é um “convite” a ter problemas em vários de seus trechos.

O terceiro ponto é a preocupação com a aquisição de propriedades e direitos de passagem. É visível que se trata de um ponto fora do planejamento das trilhas e caminhadas de longa distância no Brasil, dadas as grandes voltas e arrodeios necessários em muitas delas.

O quarto ponto refere-se à participação comunitária, em duas linhas. A primeira é ter voz sobre o desenvolvimento da trilha e caminhada de longa distância, inclusive na questão do trajeto através de seu local de residência e adjacências. A participação na interpretação patrimonial e ambiental é bem-vinda, inclusive para evitar futuros descasos e depredações. A segunda linha é participar nos benefícios econômicos da trilha e caminhada de longa distância, por meio da capacitação para a oferta de serviços de guia, hospedagem e alimentos e bebidas. Aqui, cursos de capacitação simples podem fazer toda a diferença; em muitos trechos, os andarilhos precisam pernoitar em casas na zona rural, com serviços e infraestrutura mínimos.

O quinto ponto é a necessidade de formação de redes efetivas, ponto ainda “faltante” no caso brasileiro. É preciso a cooperação entre a iniciativa privada, organizações não governamentais e poder público, possibilitados já pela Lei 11.079, de 30 de dezembro de 2004 (conhecida como Lei das PPPs), e pela Lei 13.019, de 31 de julho de 2014 (conhecida como Marco Regulatório [das Organizações] do Terceiro Setor). No caso do poder público, entre esferas governamentais – no caso da Estrada Real, municípios, unidades da federação (MG, SP e RJ) e, idealmente, governo federal – e secretarias/diretorias nas esferas estaduais e municipais (turismo, cultura e meio ambiente, notadamente). Isso pode assumir grande complexidade, caso do Caminho Velho da Estrada Real, que abarca dezenas de municípios, e passa por três unidades da federação.

Comum aos cinco pontos, é necessário reconhecer que há um todo e suas partes (trechos), o quais podem ter usos variados, em frequência e tipo de usuário. Isso é vital no processo de planejamento e criação. Partes mais remotas podem ser utilizadas, quase que exclusivamente, por turistas e/ou peregrinos; trechos perto de grandes cidades podem virar um espaço de lazer e divertimento aos habitantes locais, inclusive por meio da utilização de bicicletas, cavalos e motos.

Além do planejamento, criação e desenvolvimento, há a gestão e a manutenção das trilhas e caminhadas de longa distância. Aqui, cumpre deixar clara a responsabilização – quem cuida de o quê –, no que concerne a manutenção da infraestrutura e da sinalização (de direcionamento e interpretativa [ambiental e patrimonial]).

As trilhas e caminhadas de longa distância podem ser trabalhadas, também, a partir da perspectiva educacional – aprendizagem na prática. Podemos dividi-la em dois grupos. O primeiro diz respeito à aprendizagem relacionada ao caminho em si; por exemplo, a Estrada Real é propícia ao ensino e reflexão acerca do Brasil Colônia, principalmente o Século XVIII, além de questões relacionadas ao meio ambiente e à convivência e conhecimento da cultura local, por meio do contato com seus habitantes locais. O segundo é o aprendizado sobre o próprio caminhar, seus benefícios e seus pré-requisitos – importância dos equipamentos, planejamento e elementos como controle da ansiedade e ciência da própria capacidade física.

Reconhecendo a importância crescente das trilhas e caminhadas de longa distância, ao redor do Mundo, a Pró-Reitoria de Graduação da Universidade de São Paulo (PRG-USP)  aprovou o projeto “Construção e estruturação de disciplinas, visita técnica anual e material didático – roteiros urbanos e trilhas e caminhadas de longa distância (educação, lazer e turismo)” (Edital PRG 01/2020-2021 Consórcios Acadêmicos para a Excelência do Ensino de Graduação – CAEG), por meio do qual foram criadas duas disciplinas (primeiro e segundo semestres letivos), reunindo 12 docentes de sete bacharelados (Gestão de Políticas Públicas, Sistemas de Informação, Marketing, Gestão Ambiental, Lazer e Turismo, Arquitetura e Urbanismo e Física Médica) de três unidades da Universidade de São Paulo (EACH, FAU e FFCLRP). Vinculadas ao Curso de Bacharelado em Lazer e Turismo, essas disciplinas objetivam preparar o corpo discente desses bacharelados a trabalhar com trilhas e caminhadas de longa distância, sabendo lidar com suas variadas demandas e dimensões.

Para ler e saber mais sobre trilhas e caminhadas de longa distância:

TIMOTHY, Dallen J.; BOYD, Stephen W. Tourism and trails: cultural, ecological and management issues. Bristol: Channel View Publications, 2015. [bom livro de introdução ao estudo de trilhas e caminhadas de longa distância, por mais que esteja centrado – os autores reconhecem isso como limitação – no caso dos países desenvolvidos]

WALL, Geoffrey. Tourism attractions: points, lines, and areas. Annals of Tourism Management, v. 24, n. 1, p. 240-243, 1997. [concisa e influente nota de pesquisa; boa introdução ao entendimento de o que é uma atração turística]

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