Torcidas de futebol: força estranha?

Torcidas de futebol: força estranha?

REDAÇÃO

01 de junho de 2020 | 20h41

Bernardo Buarque de Hollanda, é professor da Escola de Ciências Sociais/FGV-CPDOC

 

A celeridade e a intensidade da política brasileira contemporânea tornam difíceis todo e qualquer tipo de análise em torno de fatos recentes, seja de parte de jornalistas, de analistas de conjuntura e de cientistas políticos. Desde pelo menos 2013, assiste-se a uma sucessão folhetinhesca da vida nacional, com a superposição de escândalos que se elevam em escala vertiginosa, a causar diariamente mais e mais perplexidade nos cidadãos. No último domingo, 31 de maio, a adesão de segmentos de torcidas organizadas, e de uma miríade de movimentos de torcedores, a manifestações de rua em favor da democracia e em oposição a grupos neofascistas foi uma das novas surpresas que se assomou a esse folhetim, cujo desenlace se mostra nebuloso e ainda de intrincado prognóstico.

A presença das torcidas vinha sendo gestada nas últimas semanas. No dia 16 de maio, um sábado, cerca de sessenta torcedores corinthianos, vinculados à sua principal torcida organizada, a Gaviões da Fiel, surgiram de surpresa na Avenida Paulista. O objetivo era contrapor-se a manifestantes bolsonaristas mais radicais, que têm ocupado as ruas e feito carreatas em cidades brasileiras, em reiterada infração às recomendações sanitárias que preconizam o isolamento social como medida de minimização dos danos causados pelo alastramento da pandemia.

O surpreendente gesto dos torcedores paulistanos repercutiu. No dia seguinte, 17 de maio, em Porto Alegre, grupos arquirrivais de gremistas e colorados, identificados com bandeiras antifascistas, reuniram-se com o mesmo propósito: confrontar no espaço público a presença de seguidores do atual presidente da República. O centro da capital gaúcha teve de ser separado por um cordão de policiais, para impedir o encontro dos manifestantes oponentes.

Esses incidentes foram à primeira vista pontuais, mas, impulsionados por sua divulgação nas redes sociais, suscitaram o debate, arregimentaram novos torcedores e emularam os ânimos. Configurou-se assim um pretexto para a continuidade crescente do enfrentamento nos finais de semana subsequentes.

O domingo do dia 24 de maio trouxe mais um ingrediente inesperado e motivador à questão. Em resposta e em provocação aos corinthianos da semana anterior, uma dúzia de palmeirenses, componentes vinculados à sua principal torcida organizada, a Mancha Verde, posta foto na mesma Avenida Paulista e a exibe nas redes sociais. Dizendo-se bolsonaristas e de direita – lembre-se que Bolsonaro é torcedor declarado do Palmeiras – emulam os rivais alvinegros para o confronto no local.

A emulação surte efeito, mas o grupo de provocadores minoritários perde espaço para o foco de uma frente de torcedores mais ampla, que se mobiliza contra os manifestantes que envergam a camisa verde-amarela, adulam soluções autoritárias e que ostentam símbolos e dísticos de extrema direita. Após a mobilização virtual diária ao longo da semana, agrupamentos torcedores conseguem uma adesão muito mais expressiva em termos numéricos. A maior concentração multiclubística acontece em São Paulo, mas também no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte as faixas e bandeiras em prol da democracia fazem-se presentes, lideradas por vanguardas torcedoras do Flamengo e do Atlético Mineiro, respectivamente.

Esse efeito-surpresa chamou a atenção da opinião pública ao longo de todo o último domingo e tornou-se o principal evento do final de semana, a ponto de ofuscar a tradicional mise-en-scène dominical de Bolsonaro. A até então aparente hegemonia da ultradireita nas ruas vê-se agora diante de um contraponto imprevisto. Isto porque seu oponente não é nítido do ponto de vista político. O torcedor de futebol, como se sabe, sempre foi visto pelo senso-comum na chave da “violência” e da “alienação” política.

A indefinição desse personagem coletivo oponente acaba por desconstruir a retórica de arregimentação do bolsonarismo, calcada no antipetismo e no anticomunismo. Diante do novo ator emergente, o discurso contra o fantasmagórico “perigo vermelho” se esfuma e suas tentativas de intimidação nas ruas ficam comprometidas, uma vez que a disposição para os embates físicos é uma marca associada ao etos das torcidas organizadas.

A base social desses grupos é constituída tanto pelos componentes de torcidas organizadas tradicionais – Gaviões da Fiel, Torcida Jovem do Santos, Independente – quanto pelos novos segmentos associativos de torcedores, que atendem pelos designativos de “coletivos”, “movimentos” e “torcidas antifas”, cujo surgimento em âmbito internacional remonta aos anos 2000 e 2010. Enquanto os primeiros são compostos em sua maioria por componentes oriundos das periferias e das classes populares, os segundos têm certa predominância de classe média, sendo capazes de articular, no universo esportivo-futebolístico, um discurso político, com pautas contra a elitização dos estádios, por exemplo.

A convergência desses dois segmentos proporcionou a química de novidade à agenda política brasileira. Em sua esteira, fica uma série de desafios a observar e a acompanhar daqui para a frente: em que medida o dia 31 de maio poderá ser considerado um ponto inflexão política ou um divisor de águas na hegemonia da ocupação dos espaços públicos pelos grupos de ultradireita? Até que ponto o protagonismo das torcidas terá continuidade e crescerá no país nas próximas semanas? O quanto a radicalização das ruas colocará freios às ações bolsonaristas nas capitais? Ou por outra, em que medida a polarização insuflará as bases do bolsonarismo?

São questões, como se disse no início do texto, em aberto e de difícil prognóstico, porquanto os capítulos do folhetim cambiam a cada dia e seu enredo se torna, a cada 24 horas, sucedido por novas e intensas emoções.

 

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