Topo da pirâmide: pertencimento, ativismo e contradições

Topo da pirâmide: pertencimento, ativismo e contradições

REDAÇÃO

13 de maio de 2021 | 15h13

Julia Rezende, Mestranda em Administração de Empresas e Pesquisadora em Estudos Organizacionais pela FGV-EAESP

Em 1999, prestes a assumir a liderança da empresa americana Hewlett-Packard (HP), o que a tornaria a primeira mulher CEO da companhia, Carly Fiorina disse o seguinte: “Espero que estejamos em um momento em que todas as pessoas entendam que não existe ‘teto de vidro’”. Doze anos após, e ainda vivendo em tempos de alta desigualdade de gênero, especialmente no contexto organizacional, não é difícil entender o equívoco desta fala, que, em tantos níveis, deslegitima a luta por igualdade de gênero e aponta para uma visão marcada por uma sociedade estruturalmente patriarcal e machista.

Alguns anos após este incidente, a executiva foi entrevistada sobre a polêmica fala, para a qual ela apresentou uma justificava, se explicando ao dizer que “por muitos anos parou de se ver como uma mulher no trabalho, e se via como apenas mais uma pessoa trabalhando, e que por acaso, era mulher”. Dez anos depois deste exemplo da situação com Fiorina, vamos relembrar uma situação em partes semelhante, que aconteceu muito mais próximo de todos nós. Em 2019, Sergio Camargo, homem negro, jornalista, conservador, foi nomeado presidente da Fundação Palmares, causando revolta e espanto, especialmente entre militantes do movimento negro. O motivo? Falas e posicionamentos racistas vindas do mesmo, como a negação do racismo, a amenização do significado da escravidão, a posição contrária a projetos importantes da pauta de luta por igualdade racial como o “Dia da Consciência Negra”, entre outros tantos exemplos.

O que estes dois casos têm em comum? Uma das vias possíveis de análise aqui é o campo de pesquisas sobre poder e identidade, em que há uma busca pela compreensão de como aspectos de percepção sobre si e a relação com o poder afetam as formas com que as pessoas interagem com o outro e com o mundo. No caso de Fiorina, em que há um conflito de gênero em que ela, como mulher, adota uma postura sexista, uma importante referência teórica é o que podemos chamar de “síndrome da abelha rainha”. Este fenômeno foi originalmente descrito pela psicóloga Carol Travis, em 1973, de forma a explicar o comportamento de mulheres que chegam em posições de liderança em espaços tradicionalmente ocupados por homens, e que, uma vez nestas posições, se distanciam de outras mulheres e passam a ter atitudes contrárias ao apoio a outras mulheres, por vezes vistas como “masculinas”. A teoria faz parte de um campo maior de estudos da psicologia das relações humanas, conforme apresentado acima.

Pesquisas mais recentes apontam para as evidências científicas de que membros de grupos historicamente em desvantagem (entendam-se, aqui, mulheres, pessoas negras, com deficiência entre outros), após experimentar mobilidade individual em termos das posições de poder que ocupam, passam a se dissociar dos grupos aos quais anteriormente se sentiam pertencidos. Uma das hipóteses possíveis que justificaria este cenário é a experiência de sentir poder.

Aprofundando um pouco mais, temos que a experiência de poder é capaz de produzir uma orientação de “agente” – ou seja, em que a pessoa em posição de poder naturalmente direciona a sua atenção diretamente para si, e o contrário também é verdadeiro: pessoas que possuem pouco poder possuem uma orientação coletiva maior, ampliando a sensibilidade, a empatia e a consideração pelo grupo ao qual faz parte. Isso explica, inclusive, porque mulheres se sentem mais identificadas com causas como o feminismo e sentimentos de sororidade, ao passo em que homens não necessariamente possuem, de forma estrutural, a mesma conexão com membros de seu grupo de gênero, de forma que as associações acabam se formando por outros critérios mais específicos das suas individualidades.

Há ainda outros caminhos existentes que acabam por concluir os mesmos comportamentos e circunstâncias, mas focando em atributos diferentes. Pesquisadores de Stanford apresentaram evidências robustas, em 2009, com impactos relevantes para o tema, dizendo que o sentimento de poder está relacionamento com o sentimento de independência (versus interdependência), e é este sentimento de independência que faz com que haja uma redução natural na necessidade que as pessoas têm por conexão e solidariedade.

Mas, pela complexidade dos fenômenos psicológicos, também aqui, há um efeito interessante a se considerar. Algumas pesquisas apontam que a dissociação com o grupo, que causa uma dessensibilizarão da percepção de questões estruturais, é benéfica à pessoa, na medida em que a ausência de um comportamento que busca justificar sistemas promove um comportamento mais protagonista (no âmbito individual e não coletivo), aumentando as chances de sucesso e crescimento profissional de pessoas que fazem parte de minorias marginalizadas. Ou seja – mulheres que negam o machismo presente na sociedade, ou pessoas negras que negam o racismo, em algum nível, terão uma tendência maior a acreditar na força de suas próprias conquistas individuais e capacidade de ocupar espaços de poder, o que resulta de fato em um crescimento. O lado ruim? Fazem isso apenas por si, pois não apresentam uma visão coletiva.

Assim, chegamos em um cenário com lideranças que se omitem de debates e pautas relevantes para os grupos aos quais fazem (ou uma vez já fizeram) parte, um conjunto de pessoas centradas excessivamente em si, como resultado da compreensão de suas trajetórias de crescimento e sucesso, e do próprio mérito que ocultou os desafios estruturais uma vez enfrentados. Contradições como essas são partes inerentes do viver em sociedade e do complexo comportamento humano – pertencimento, ativismo, identificação, poder estão sempre andando juntos, em contradições e ações. Cabe a cada um entender qual a sua luta, e como queremos ocupar, sistematicamente, as posições de poder.

Fontes

Vial, A. C., & Napier, J. L. (2017). High power mindsets reduce gender identification and benevolent sexism among women (But not men). Journal of Experimental Social Psychology, 68, 162–170. https://doi.org/10.1016/j.jesp.2016.06.012

Derks, B., Ellemers, N., van Laar, C., & De Groot, K. (2011). Do sexist organizational cultures create the Queen Bee? British Journal of Social Psychology, 50(3), 519-535. DOI:10.1348/014466610X525280

Fast, N. J., Gruenfeld, D. H., Sivanathan, N., & Galinsky, A. D. (2009). Illusory control a generative force behind power’s far-reaching effects. Psychological Science, 20(4), 502-508. DOI:10.1111/j.1467-9280.2009.02311

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