Todas as vidas importam

Todas as vidas importam

REDAÇÃO

16 de abril de 2020 | 12h58

Benedito Mariano – Ex-Ouvidor da Polícia de São Paulo e assessor parlamentar da Deputada Estadual Isa Penna (PSOL-SP)

 

A Folha de São Paulo publicou no dia 9 de abril a informação de que 65% dos leitos de UTIs na Capital de São Paulo estão ocupados (Coluna Monica Bergamo). Destaca também que a maioria dos doentes infectados com a Covid-19 se concentram em bairros centrais e de maior renda.

Segundo o Ministério da Saúde, o estado de São Paulo tem registrado 9.371 casos confirmados, com 695 mortos (Dados: 14/04/2020).

Além da grande espera pelos resultados de exames já realizados, ainda não foram viabilizados os testes em massa. Portanto é inegável afirmar que existe uma grande subnotificação dos casos de COVID-19 em São Paulo, considerado o epicentro da pandemia da COVID-19 no Brasil.

É correto o posicionamento do Governador do Estado João Doria e do Prefeito Bruno Covas de propor isolamento social e fechamento de grande parte do comércio, seguindo a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) além da construção de hospitais de campanha. Entretanto é preciso, emergencialmente, dar um salto maior no enfrentamento da pandemia.

Em primeiro lugar é necessário ampliar, e muito, os hospitais de campanha, em especial nas regiões periféricas da Capital. Transformar a maioria dos CEUs, que em grande parte estão localizados nas regiões periféricas, em hospitais de campanha, pode ser uma medida importante de atendimento dos casos de pequena e média complexidade à população mais pobre da Cidade. Os CEUs também estão localizados em várias cidades da grande São Paulo, dando ao estado a oportunidade de ampliar esta iniciativa para além da capital. Com estruturas mínimas já estabelecidas é possível baratear o custo destes novos hospitais de campanha em relação aos já construídos.

As condições habitacionais e de saneamento básico nas periferias já representam uma imensa dificuldade de promover distanciamento social para boa parte da população. Isso pode acarretar numa rápida proliferação da Covid-19 e, consequentemente, maiores índices de mortalidade associados a grande vulnerabilidade social dessas regiões.

Portanto além de garantir renda básica neste período de pandemia, uma das grandes contribuições do Congresso Nacional junto à outras políticas sociais, é urgente que os hospitais de campanha estejam próximos das pessoas que historicamente sofrem cotidianamente com a ausência do estado.

Além desta iniciativa de ampliar os hospitais de campanha, o governo do estado precisa garantir equipamentos de proteção aos policiais civis, militares e da Polícia Técnico Cientifica. É preocupante o número de policiais afastados com suspeita ou confirmação de infecção pela COVID 19. Por outro lado, estamos aguardando os dados de letalidade policial do mês de março, (os dados de janeiro de 84 mortes em serviço e na folga e de 96 no mês de fevereiro em decorrência de intervenção policial por policiais militares) é uma demonstração de que os números continuam em ascensão. Nossa expectativa é que diminua a curva ascendente a partir da pandemia.

Neste momento de luta contra a COVID 19, pode também ser uma oportunidade da Policia Militar ter uma relação diferente com a população pobre da periferia, garantindo segurança nos locais de internação e, quem sabe, a pandemia contribua para despertar a dimensão de prevenção, pouco praticada pelos policiais militares, sobretudo nestas regiões.

Em segundo lugar, o estado precisa ter uma estratégia maior para enfrentamento dos casos mais graves que necessitam de internação e utilização das UTIs. Tudo indica que a rede pública de UTIs entrará em colapso entre os meses de abril e maio.

A rede privada de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) representa cerca de 60% das UTIs no estado de São Paulo. É fundamental, neste momento de guerra sanitária, que a utilização da rede privada de UTIs esteja disponível para que todos, com acesso à planos de saúde ou não, tenham o suporte necessário neste momento de sofrimento e angústia.

É esta a perspectiva do projeto de lei nº 162/2020, apresentado na Assembleia Legislativa pela deputada Isa Penna do PSOL, que estabelece que o estado poderá intervir na rede privada de UTIs para garantir atendimento universal de casos graves da Covid-19, unificando a rede de UTIs estadual enquanto perdurar o estado de calamidade pública.

Os EUA, berço do capitalismo mundial e que tem como chefe de estado um defensor do estado mínimo estão se vendo obrigados a intervir nas grandes empresas para produção de equipamentos de utilidade pública como medida para amenizar a crise sanitária que tem hoje este país como epicentro. São mais de 594.000 casos de COVID-19 e mais de 26.000 mil mortos até o dia 14 de abril. Numa situação de guerra contra uma das maiores pandemias da história, que impede que os familiares das mais de 128 mil vítimas fatais velem pelos seus mortos, a prioridade absoluta tem que ser salvar vidas. Esta pandemia já indica que teremos um novo cenário econômico, social e político. O Mundo não será o mesmo depois que esta tempestade passar.

A Covid-19, que já infectou mais de 2 milhões de pessoas e deixou mais de 128 mil mortos no mundo, vem demostrando que a questão econômica e o lucro não devem sobrepor o direito universal de preservar vidas. Cabe ao estado garantir isolamento social, quarentena e meios de subsistência das populações mais pobres, mesmo os governos que defendem a economia liberal.

Portanto, meu apelo ao governador João Doria é de ampliar os esforços que já estão sendo feitos para que o atendimento emergencial inclua mais diretamente a população mais empobrecida do estado.

Já o Parlamento Paulista tem uma oportunidade única de dar um grande exemplo para o país nesta guerra contra o Coronavirus, indicando que pouco importa se a iniciativa do P.L. nº 126/2020 é da oposição ou situação, o importante é que esta inciativa poderá salvar milhares de pessoas. A grandeza dos senhores e senhoras deputados e deputadas será aprovar, por acordo de lideranças e com a urgência que a situação impõe, este projeto de lei que tem como único objetivo garantir mais suporte ao estado de São Paulo, para que o número de mortos seja o menor possível.

Todas as vidas importam.

 

 

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