Tocantins contaminado: a pandemia avança sobre as Terras Indígenas[i]

Tocantins contaminado: a pandemia avança sobre as Terras Indígenas[i]

REDAÇÃO

09 de julho de 2020 | 12h42

Marcelo de Souza Cleto, (Doutor em Filosofia – Professor Adjunto na UFT)

André Demarchi, (Doutor em Antropologia – Professor Adjunto na UFT)

 

O trajeto do Covid-19 no Tocantins em junho de 2020 foi antecedido por um mês de maio onde o alastramento da pandemia transcendeu o vetor principal do vírus no estado, a BR 153, atingindo agora territórios indígenas e se alastrando para quase todos os municípios do Estado, além de chegar ao sistema prisional.

No mês de junho, se verifica também um irresponsável relaxamento ainda maior no controle do distanciamento social, coincidindo com a reabertura dos estabelecimentos comerciais nos municípios respaldados pelas gestões municipais e estaduais, o que gerou um aumento exponencial no número de contágio e de vítimas. Atualmente, 126 das 139 cidades do estado já possuem casos confirmados da doença, reverberando para todas as instâncias e camadas sociais, chegando a um total de 13.440 casos e 233 óbitos, com uma taxa de 854,49 casos por 100 mil habitantes. Para se ter uma ideia do alastramento do vírus e do impacto da abertura do comércio em sua expansão, em 04 de junho, a cerca de um mês atrás, o estado contabilizava 4881 confirmações, cerca de duas vezes menos do que os mais de 13 mil casos atuais.

Um dos efeitos do avanço do vírus pode ser identificado no sistema penitenciário, que possui 38 unidades prisionais distribuídas em todas as regiões. No dia 27 de junho, a imprensa local[ii] publicou uma reportagem relatando um surto de Covid-19 na Cadeia Pública de Augustinópolis que fica na região norte do estado com 66 apenados e 4 servidores testados positivo. O vírus também foi identificado na Casa de Prisão Provisória de Guaraí, na região centro-sul do estado, com 19 apenados e 2 servidores positivados.

Outro ponto crucial da contaminação no mês de junho foi a chegada do vírus nas Terras Indígenas presentes no Estado, já alcançando três povos: Xerente, Javaé e Apinajé. Entre o povo Xerente que vive em território a setenta quilômetros da capital, já foram contabilizados dezenove casos. Entre os Apinajé, onde a situação parece estar mais controlada, apenas dois casos foram confirmados. Já entre os Javaé, um surto de Covid-19 acometeu duas aldeias, totalizando até 07 de julho, 65 casos confirmados.

 

Além de ter que lidar com a pandemia em suas aldeias, os indígenas tem denunciado casos de racismo por parte das prefeituras e secretarias municipais de saúde. Na cidade de Formoso do Araguaia que faz divisa com as aldeias Javaé, a secretaria de saúde tomou a medida questionável de criar uma “barreira racial” impedindo a circulação de indígenas pela cidade[iii]. Na cidade de Tocantínia que faz fronteira com o território Xerente, lideranças denunciaram que indígenas contaminados foram colocados em isolamento em escolas da cidade, sem condições de recebe-los adequadamente, bem como práticas de racismo por parte da população não indígena[iv].  Esses exemplos demonstram a dificuldade das prefeituras e do poder público em lidar com a diferença cultural, evidenciando tensões históricas entre as populações indígenas e não indígenas nas cidades que circundam as territórios dos povos originários.

Segundo o Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde, em 8 de julho, o número de pacientes hospitalizados em unidades públicas e privadas no estado era de 160 pessoas. Os leitos públicos correspondem a 56 leitos clínicos e 38 em Unidade de Terapia Intensiva, os leitos privados, são 42 clínicos e 24 em UTI. O Hospital Regional de Araguaína atravessa neste momento uma taxa de ocupação dos leitos de UTI de 100%[v], essa situação é de emergência em saúde pública, uma vez que a unidade é referência na região norte por atender os usuários das cidades circunvizinhas.

No corte etário, a fração mais impactada é a população acima de 60 anos de idade, respondendo por 167 óbitos do total de 228. A partida dos avôs e avós, sem o percurso fúnebre necessário tem causado rupturas e dramas familiares pelo não atendimento das ritualísticas de suas cosmovisões. O mapa a seguir apresenta a distribuição da letalidade do vírus relacionada aos casos confirmados.

 

 

Durante os 30 dias do mês de junho, o Laboratório Central de Saúde Pública do Tocantins (LACEN-TO) efetuou 10.077 testes que identificam a presença do Covid 19, destes, 3.627 foram positivos. Segundo o LACEN-TO, sua capacidade de testagem é de 700 testes por dia, considerando que no mês de junho foram realizados em média 335 teste/dia, pode-se concluir que o laboratório opera em 50% de sua capacidade total. É responsabilidade da gestão pública colocar em prática uma operação de testagem ampla, iniciando pelos trabalhadores da saúde e da segurança, parentes de pessoas positivas, populações indígenas e quilombolas, apenados, ampliando gradativamente para o restante da população. Concomitante à testagem ampla, é fundamental uma estratégia inteligente de mapeamento e rastreamento dos casos, de modo a produzir conhecimento sobre o fenômeno. A posse e o uso correto desse saber é a tática para o enfrentamento desta pandemia.

A reconsideração da abertura dos estabelecimentos tendo em vista a possibilidade da transmissão do vírus por via aérea, tal como têm reconhecido a Organização Mundial da Saúde (OMS)[vi], deve fazer parte da pauta dos gestores e dos comitês de gerenciamento da crise. Infelizmente não é o que tem acontecido. Novamente se percebe uma desconexão entre ações estaduais e municipais. Nas quatro principais cidades do Estado, Palmas, Araguaína, Gurupi e Porto Nacional, o comércio permanece aberto e medidas de flexibilização foram tomadas no momento em que o vírus circula de modo mais intenso em todo o Estado. Ações públicas irresponsáveis que recaem sob a população de um Tocantins já amplamente contaminado.

 

 

[i] O artigo faz parte do projeto em parceria com a ABCP coordenado pela professora Luciana Santana (Ufal)  intitulado: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia de covid19 no Brasil. Essa é uma versão elaborada a partir de texto publicado no site da ABCP em 11/06/2020 no seguinte link: https://cienciapolitica.org.br/noticias/2020/06/especial-abcp-acoes-tocantins-enfrentamento-pandemia?fbclid=IwAR3YKZQkoe878ktZcyHrJngct3pxnvQNtlWu6LaVnX6biYrWjYCm80FFNLU

[ii] https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2020/06/27/cadeia-do-tocantins-tem-surto-de-covid-19-com-70-confirmacoes-entre-presos-e-funcionarios.ghtml

[iii] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/07/para-combater-covid-19-cidade-de-to-monta-barreira-racial-contra-indios.shtml?pwgt=kyzfcy97zq62nxlv21afpambbhvfsudgxnksbsn4352leosi&utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwagift

[iv] https://gazetadocerrado.com.br/liderancas-repudiam-atitudes-preconceituosas-com-indigenas-recuperados-da-covid-noticias-do-tocantins/

[v] https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2020/07/07/taxa-de-ocupacao-de-leitos-de-uti-no-hospital-regional-de-araguaina-chega-a-100percent.ghtml

[vi] https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-07-08/oms-reconhece-risco-de-transmissao-do-coronavirus-pelo-ar.html

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