Testes em massa, comportamento e a COVID-19.

Testes em massa, comportamento e a COVID-19.

REDAÇÃO

25 de março de 2020 | 16h55

Eduardo B. Andrade, é professor da FGV EBAPE e Coordenador do Center for Behavioral Research

Sabemos que as pessoas reagem a incentivos. Sabemos também que, em média, elas reagem mais às punições do que às recompensas. Mas para que as pessoas tentem evitar o dano, elas precisam ter pelo menos uma ideia sobre a sua probabilidade de ocorrência.

Ser contaminado pelo novo coronavírus é uma punição e tanto. Contaminar alguém próximo pode ser ainda mais doloroso. Mas sem testes em massa, pouco sabemos sobre a prevalência de casos da COVID-19 à nossa volta, e, consequentemente, sobre a probabilidade de sermos atingidos pelo mal. Sabemos o que ele é, mas não sabemos por onde anda. Esta falta de informação desencoraja um dos principais mecanismos de combate ao novo coronavírus: o distanciamento e isolamento social voluntários.

Para forçar o isolamento, governantes ao redor do mundo têm adotado, com menor ou maior intensidade, uma abordagem top-down. Escolas, cinemas, parques, shoppings, bares e restaurantes e até transportes públicos são fechados. Com isso, despenca a circulação de pessoas, as aglomerações e, com o tempo, a propagação do temido vírus. A estratégia é bem-vinda e deve continuar, embora saibamos que ela não é factível no longo prazo, dado o seu brutal impacto econômico e psicológico.

Os testes em massa, por outro lado, adotam uma abordagem bottom-up, promovendo o isolamento e distanciamento social voluntários. Em posse de informações mais precisas sobre a circulação da COVID-19 pelos bairros e cidades, as pessoas se organizam para evitar a “punição”. Com isso, as ações dos indivíduos e governos tornam-se mais eficazes.

Há uns dez dias, uma moradora informou que havia contraído o novo coronavírus. A reação no condomínio foi imediata. Potenciais contaminados se isolaram. Os grupos de risco também. As crianças sumiram do parquinho. As superfícies das áreas comuns receberam limpeza extra. O tempo passou e a moradora recuperou-se. Agora imune, e sabendo disso, ela é de grande valia. Pode ajudar o idoso enclausurado e até voltar a algumas de suas atividades profissionais, reaquecendo a economia e a mente.

A lógica subjacente ao exemplo anterior se aplica tanto aos condomínios quando às comunidades. Falta de espaço, dinheiro e serviços públicos obviamente aumentam o desafio do isolamento social nas periferias. Isso, entretanto, não torna os dados sobre prevalência e focos de contaminação irrelevantes. Muito pelo contrário. As comunidades conhecem as particularidades dos seus bairros. Também dispõem de um poder de coordenação e ajuda mútua invejáveis. Reagirão ao perigoso e já estão reagindo. Mas, como todos no país, estão às escuras. Deem informações às pessoas sobre o caminhar do vírus nas redondezas e os incentivos, a capacidade de coordenação, conhecimento de causa e a criatividade humana ajudarão no combate à propagação.

Até o dia 15 de março a Alemanha já havia conduzido 2 mil testes da COVID-19 por milhão de habitantes, quase quatro vezes a mais do que a França no mesmo período. No dia 24 de março a Alemanha tinha perto de 33 mil casos diagnosticados, mas “somente” 156 mortes. Já a França tinha em torno de 22 mil casos diagnosticados e mais de 1000 mortes. Diversos fatores explicam as diferenças entre países, e só o tempo e as pesquisas nos darão respostas detalhadas. Mas uma associação parece emergir mundo afora: quando mais e mais cedo se faz o teste em uma determinada população, menor o número de mortes. Se há de fato causalidade nessa aparente correlação, o isolamento e distanciamento social voluntários resultantes da informação gerada pelos testes em massa ajudariam a explicar o fenômeno.

Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a

opinião institucional da FGV

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