Terrorismo informacional e futuro da democracia

Terrorismo informacional e futuro da democracia

REDAÇÃO

02 de junho de 2020 | 15h36

Valdemir Pires, professor da Unesp e diretor da Escola de Governo da prefeitura de Araraquara.

 

A natureza sorrateira e violenta do ato terrorista faz parte da sua essência. O terrorista ataca de surpresa, procurando provocar o maior dano possível e, ao mesmo tempo, obter baixas, medo e atenção da comunidade afetada e do seu entorno, não raro o resto do mundo. O atentado terrorista abre um buraco na conjuntura; seu impacto é tão grande e imediato que o resto dos problemas têm sua dimensão reduzida. Os grupos terroristas agem como organizações guerrilheiras: sua força e impacto se fundam na ação irregular, do ponto de vista da guerra – não são identificáveis como combatentes e atacam alvos e pessoas que não estão envolvidas no conflito de modo a poderem se posicionar e defender. O teor de covardia do terrorismo é máximo, tanto quanto o de audácia.

O terrorismo informacional se assemelha ao terrorismo convencional, no seu modus operandi, diferenciando-se deste por fazer uso de uma nova arma: a manipulação da informação para fins estratégicos, de combate. As tecnologias da informação e comunicação (TICs) permitem, hoje, 1. o armazenamento de uma profusão de dados e informações em meios magnéticos (até mesmo em “nuvens”), 2.  o manejo estrategicamente eficaz dessa massa imensa de dados (big data) conforme os objetivos e intenções do usuário (data mining, algoritmos etc.), 3. a rápida disseminação, focada, dirigida e, muitas vezes, manipulada de informações (ou desinformação, fake news) e ideias (ou preconceitos).

Aos poucos vai ficando claro que o terrorismo informacional é tão eficaz como o convencional para desestabilizar uma comunidade ou sociedade. Ele mina as bases de comunicação entre os indivíduos, hoje fortemente ancoradas nas redes sociais e grupos de whatsapp, disseminando a desinformação e o preconceito e inoculando os germes de comportamentos agressivos; aglutina grupos a partir de visões de mundo distorcidas, colocando-os contra outros. Da violência verbal e imagética, pode ocorrer a escalada para a violência física, embora ela nem seja necessária para se atingir certos objetivos, como, por exemplo, a eleição de um candidato.

O terrorismo informacional é muito eficiente, como se viu no Brasil, para ganhar eleição: do dia para a noite constrói-se um mito a partir do nada ou menos que isso. Um candidato de passado parlamentar completamente desprezível, que se recusou ao debate eleitoral, ascendeu à a presidência da república. Qual foi a mágica? Comunicação focada, dirigida, massiva (utilização de robôs), distorcida, tendo como público-alvo, localizado por meio de algoritmos, indivíduos descontentes e mal-informados, passíveis de convencimento através de mensagens curtas e rápidas, demonizando o adversário e fazendo apelo a juízos morais retrógrados. Mentiras absolutamente absurdas foram, então, tomadas como verdades e desferidas contra os adversários do então candidato, sob patrocínio financeiro de grupos interessados no resultado eleitoral que derrotaria a força política então predominante.

O terrorismo informacional de natureza eleitoral tem potencial para arrasar democracias, com uma rapidez nunca antes vista. Face a isso, a configuração dos sistemas e processos eleitorais, assim como o funcionamento dos órgãos encarregados da justiça eleitoral, necessitam de urgente atualização, mormente no tocante à veiculação de informações, ideias e propostas necessárias a formar a imprescindível opinião média que resulta na escolha de candidatos. Se a opinião média é fortemente abalada por mentiras, o resultado eleitoral não expressa, verdadeiramente, a opinião do eleitorado – não há democracia nisso. Há que se garantir que isso não aconteça, apesar das facilidades tecnológicas atuais para que assim seja.

Dizia Milton: “A mente é o seu próprio lugar, pode fazer do céu inferno, e do inferno paraíso”. Manipuladas, tornam-se as mentes fábricas incessantes de infernos, auxiliadas pela apropriação equivocada da afirmativa sartriana de que “o inferno são os outros”. A barbárie ali, sempre à espreita, a um passo de se assenhorar de todo o terreno.

Uma vez utilizado nas eleições, o terrorismo informacional tende a manter-se presente depois, tornando-se uma espécie de terrorismo de Estado. O governante e sua equipe adotam como procedimento quotidiano o disparo de mentiras e ironizações contra os adversários, criando um estado de coisas em que se tem a impressão de que a disputa eleitoral não vai terminar nunca. O governo permanentemente ataca o inimigo (“esses comunistas”!), afirmando que este não o deixa desempenhar suas funções, muito embora possa ser muito claro que, de fato, o governo não governa, apenas disputa hegemonia contra o projeto de poder anterior.

Medo e ódio, inoculados nas massas, manipuladas a partir do próprio aparato estatal, que se comunica predominantemente por meios não oficiais e evita a mídia convencional, são os sustentáculos de um governo que se estabelece por meio do terrorismo informacional eleitoral e tenta se manter através do terrorismo subliminar de estado.

Passar do terrorismo informacional anti-democracia para o terrorismo informacional anti-economia/soberania nacional, ou combinar ambos o tempo todo, é uma prática que pode ser adotada sem maiores dificuldades. Chega-se ao cúmulo de se conseguir que trabalhadores defendam o fim dos direitos trabalhistas e da previdência social. E uma vez conseguido isso, não há mais resistência possível, porque todo o resto a se desarticular irá oferecer resistência quase nula. Sem apoio popular, a oposição vira uma porção de gritos no deserto, que logo cansa e desaparece. Até mesmo um fantoche pode, então, governar.

Por isso, usando as mesmas armas (TICs), um anti-terrorismo informacional começa a surgir. Também as forças progressistas começam a compreender e se apropriar do aparato que tão rápida e sagazmente os conservadores e retrógrados abocanharam a seu favor. Com isso, a guerra ideológica se intensificará, ofuscando o funcionamento das tradicionais instâncias da democracia. O mundo do poder passa por profundas transformações, sindicatos, organizações sociais, partidos, mobilizações, manifestações, relações Estado-sociedade, soberania popular, soberania nacional tendendo a padrões até aqui totalmente desconhecidos.

A solução que o Brasil encontrará para a pedra hoje no caminho de sua democracia e de seu desenvolvimento econômico passa, necessariamente, por compreender a nova problemática do terrorismo informacional como prática a controlar (já que evitar será impossível). Que as instituições do Estado de Direito (que necessitam se repensar) e a sociedade civil mobilizada (de um modo ainda em construção) consigam se mover para que o país volte a vislumbrar seu futuro; o que implica, ao que parece, anular, de imediato, no âmbito da legalidade, a conquista que o terrorismo informacional eleitoral obteve para a condução do Poder Executivo federal.

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