Terceira via: que história é essa?

Terceira via: que história é essa?

REDAÇÃO

17 de fevereiro de 2022 | 18h13

José Antonio G. de Pinho,  Professor Titular Aposentado – Escola de Administração – UFBA. Pesquisador FGV – EAESP

Há uma grande expectativa para a eleição presidencial vindoura em relação ao surgimento de um nome que possa representar um caminho alternativo à polarização entre Lula e Bolsonaro. Até agora este nome não mostrou suas credenciais para ocupar um 3o lugar competitivo nas pesquisas eleitorais.  O objetivo deste artigo é fazer um levantamento das eleições, a partir da redemocratização, no sentido de identificar a história da terceira via. A partir daí, construir “tipos ideais” (Weber) para classificar a ocorrência da 3ª via. Temos consciência de ser um número pequeno de eventos para construir uma taxonomia de tipos ideais, o número de eventos (N=8) não é grande, mas também não tão pequeno assim. Na verdade, entendemos que em tese, não seriam tantos tipos ideais assim. Voltaremos a este ponto mais adiante. O objetivo do artigo é gerar uma discussão salutar.

Sabe-se que cada eleição é única bem como o contexto em que se dá, mas também tem um pano de fundo que, no curto prazo (1989-2022), não se alterou substancialmente, apesar de que mudanças importantes tenham ocorrido para o bem e para o mal. Por isso, também não estamos analisando o período 1945/64, onde condições bem diferentes imperavam. A metodologia a ser seguida vai levantar os percentuais de votos dos candidatos colocados em 1o e 2o lugares bem como os que despontaram disputando o 3o lugar. Os dados se referem aos percentuais de votos (números arredondados e aproximados) do 1o turno das eleições de 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014 e 2018. A partir daí objetiva-se especular o quadro atual.

Assim, tem-se:

1989: Collor: 30%, Lula: 18%, Brizola: 17%, Covas: 12%; 1994: FHC: 54%, Lula: 27%, Enéas: 7%; 1998: FHC: 53%, Lula: 32%, Ciro: 11%; 2002: Lula: 46%, Serra: 23%, Garotinho: 18%, Ciro: 12%; 2006: Lula: 48%, Alckmin: 42%, Heloísa: 7%; 2010: Dilma: 47%, Serra: 32%, Marina: 19%; 2014: Dilma: 42%, Aécio: 34%, Marina: 21%; 2018: Bolsonaro: 46%, Haddad: 29%, Ciro: 12%.

Mesmo que em determinados anos o 3o colocado não se tenha mostrado viável como 3ª via, registramos o/a candidato/a e sua votação percentual, para perceber quão distante ficou do 2o colocado. Buscando construir agrupamentos, as eleições de 1989 e 2002 configuram um tipo ideal, vamos chamá-lo de A, em que três candidatos disputam a vaga para ir ao 2o turno, ocorrendo um embolamento.  As eleições de 2010, 2014 e 2018, justamente as três últimas, constituem um tipo ideal a que chamamos de B, em que dois candidatos disputavam a 2ª vaga, mas estando o 3o colocado um tanto distante de quem estava imediatamente à sua frente.  Por sua vez, as eleições de 1994, 1998 e 2006 formam outro tipo ideal, nomeado C, definido pela situação do 3o colocado ficar bem atrás do 2o mais votado. Neste caso, as duas primeiras eleições foram definidas no 1o turno.

A simples disposição desses dados já permite fazer algumas observações. Exceto a eleição de 1989, todas as outras tinham líderes de pesquisas com pontuações muito favoráveis para vencer o pleito. Quanto aos tipos ideais, voltando ao ponto deixado em suspenso acima, um possível tipo ideal seria aquele onde uns três candidatos disputam as duas vagas. O caso que se aproxima mais dessa configuração é novamente a eleição de 1989, mas com o líder (Collor) ainda com uma boa folga em relação aos demais.

O fato de se construir esses três tipos não quer dizer que a eleição de 2022 tenha que se encaixar em algum deles, o que, evidentemente pode suceder, mas pode acontecer de surgir outro tipo ideal. Antes de se fazer um exercício especulativo sobre as eleições vindouras, ainda cabe tecer alguns comentários sobre esses casos considerados.  A intenção é mostrar que surgiram elementos imponderáveis que marcaram algumas eleições passadas e não se está livre de que possam acontecer novamente, não os mesmos eventos necessariamente. E, também, frear certo açodamento que defende que a eleição já estaria definida entre os dois primeiros colocados nas pesquisas, com chance até de Lula vencer no 1o turno, hipótese evidentemente não descartada.

Não visando esgotar o assunto, selecionamos três casos que se mostram, a nosso ver, exemplares. Na última eleição houve três eventos: a prisão de Lula em 07/04/2018, por ordem do então juiz Sergio Moro, tirando-o da corrida eleitoral em uma ação comprovada depois como ilegal.  Nessa mesma eleição deu-se a fatídica facada, sofrida pelo candidato Jair Bolsonaro em 06/09/2018, praticamente a um mês da eleição, que foi usado como um álibi para não participar dos debates, principalmente no 2o turno além de uma estudada vitimização.  Outro caso deu-se na eleição de 2014, em 13/08, com a morte do candidato Eduardo Campos em um desastre aéreo durante a campanha. O candidato foi substituído pela candidata à vice, Marina Silva, apenas três dias após o infausto  evento.

Sobre esta eleição ainda vale a pena nos determos um pouco mais, pois aconteceu um fenômeno eleitoral merecedor de análise.  A candidata Marina, um nome conhecido nacionalmente, que havia, aliás, concorrido na eleição anterior (2010), já amealhava um capital de votos expressivo. E isso se revelou nas pesquisas eleitorais onde passou a ter um desempenho superior ao candidato original que substituiu. Chegou praticamente a se igualar a candidata Dilma, então 1ª colocada. No entanto, um fato que não pode ser considerado fortuito mudou o rumo de sua candidatura. Sofreu uma campanha de desconstrução de sua imagem assentada em mentiras e desqualificação, por parte da primeira colocada, despencando nas pesquisas. Já na semana entrante das eleições foi superada pelo candidato Aécio Neves, não tendo mais como reagir, ficando fora do 2o turno.

Finalmente chegamos à eleição próxima, distante pouco mais de sete meses. Já se passou aquela fase dos candidatos factoides: Huck, Datena, Mandetta, Rodrigo Pacheco, o que foi sem ter sido. Ainda se tem duas etapas próximas no calendário eleitoral que podem causar mudanças apreciáveis no quadro de candidatos e nas composições partidárias. A primeira se refere à janela partidária, uma autorização para pular a cerca partidária, ao longo de março. Este movimento deve ser mais intenso no União Brasil e no PL, mas pode atingir outros partidos. As peças se movimentarão no tabuleiro provocando certa desorganização e agito no que está posto hoje até se acomodarem.

A outra data é 02 de abril, prazo de desincompatibilização para concorrer a um cargo diferente para quem exerce cargo executivo.  Parece afastada a possibilidade de Bolsonaro concorrer ao Senado em vez da Presidência, seus sonhos mitômanos não considerariam esse caminho.  Mas esta possibilidade não está afastada no caso de Sergio Moro. Se continuar patinando nas pesquisas não hesitará em optar pelo caminho mais seguro de um mandato de senador.  Sua saída de cena representará uma redistribuição de seus votos para outros candidatos.

Assim, em começo de abril é que se terá o quadro mais claro das candidaturas postas. Podem aparecer também novos nomes, como Joaquim Barbosa, sem saber se como protagonista ou coadjuvante. Ou ainda Eduardo Leite que teria que mobilizar uma operação suprapartidária para se constituir candidato. Com os arranjos entre os partidos alguma candidatura pode ser vitaminada, caso de Simone Tebet, o que pode representar uma novidade viável para emergir como 3ª via. O caso da candidatura Dória é enigmático, irá solenemente para o cadafalso ou ainda enxerga alguma réstia de esperança?

Ciro parece contar com o início da propaganda nos meios de comunicação tradicionais e com seu dom de orador e de ser um candidato que tem propostas, contando também com uma inovadora campanha nos meios digitais. Para se viabilizar terá que questionar duramente os dois primeiros colocados, Bolsonaro e Lula, o que já vem fazendo, aliás. Como se vê, ainda se está até certo ponto preso ao terreno das hipóteses. Renúncias à vista? Ainda temos o caso do PSD, de Kassab, que busca uma neutralidade no 1o turno, mas pronto a abrir negociações para apoios no 2o turno, onde evidentemente os preços são inflados.

O jogo até agora tem sido jogado praticamente com portões fechados, com pouco acesso e interesse por parte do eleitorado. A partir da propaganda na mídia e das convenções partidárias, o quadro fica mais claro e exposto.  Cabe fazer agora um bosquejo nas duas candidaturas que ocupam os dois primeiros lugares, que têm mantido não só essas posições, mas os percentuais de intenções de votos, mostrando ser um tanto cedo para cravar que este quadro não irá se alterar.

Com a eleição ganhando sua própria dinâmica, mesmo as expectativas com esses dois postulantes podem sofrer abalos. O eleitorado poderá considerar outros nomes, outras propostas, seus vícios bem como supostas virtudes virão a público. A posição de Bolsonaro certamente é a mais frágil. A deterioração da economia, o desemprego resistente, sua postura negacionista e criminosa no tratamento da pandemia, igualmente criminosa na questão ambiental, essas vísceras serão expostas. Lula, por outras razões, também será questionado, podendo restar abalada sua hoje posição confortável. Ficando ainda na metáfora esportiva, treino é treino, jogo é jogo.

Voltando aos tipos ideais, a distribuição atual dos dois primeiros colocados distanciados de um pelotão nem intermediário, mas de baixo, pertenceria ao tipo ideal C. Porém, convém atentar para um dado chave, o desempenho do atual presidente, que se situa em torno de 22-24%, não lhe coloca em uma inequívoca zona de conforto.

Pelas considerações acima feitas, entendemos que esse índice deve cair. Se os bolsonaros raiz são uns 12%, os demais apoiadores não seriam radicais, não se sabendo o tamanho ainda do antipetismo. Essa gordura, então, ou parte dela, pode procurar outras opções. O atual desempenho de Jair Bolsonaro o situa naquelas situações em que o 2o colocado não está sólido e tranquilo. Seria o caso da eleição de 2002: Serra com 23% e dois outros candidatos atrás relativamente próximos; 2010: Serra: 32% e Marina: 19%; 2014: Aécio: 34% e Marina: 21% (lembrando as considerações acima sobre esta disputa). Certo que aqui já são os resultados finais, o jogo já foi jogado. Agora, a análise é feita enquanto tendências, um processo que ainda está se desenvolvendo.

O que retiramos desta análise? No caso da 3ª via, desencantar a candidatura Bolsonaro corre riscos sérios de nem ir para o 2o turno, esperando, como supomos, que perderá preciosos pontos na preferência do eleitorado.  Uma candidatura da 3ª via poderia crescer e colar em Jair Bolsonaro.  Fica no ar: qual (ou quais) candidatura cumpriria esse papel de desbancar o atual ocupante da posição? Poder-se-ia ter um tipo ideal de aglomeração de dois ou três candidatos disputando a 2ª vaga. Um exercício interessante pode ser revisitar esses tipos ideias lá por meados de abril. Como se vê, lances fortuitos não foram considerados nesta reflexão, até porque fogem ao controle dos meros mortais.  Mas também convém estar atento aos lances fortuitos fabricados.

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