Stakeholder theory: mais dificuldades do que facilidades

Stakeholder theory: mais dificuldades do que facilidades

REDAÇÃO

15 de junho de 2015 | 18h05

Carlos Osmar Bertero – professor do departamento de Administração da EAESP/FGV.

 

Para muitos será uma surpresa, em dias em que coisas de importância e relevância devem ter sido necessariamente publicadas nos últimos 5 anos, saber que o livro de  Robert E. Freeman Strategic Management:A Stakeholder Approach foi publicado em 1984 e as suas ideias continuam a permear toda a área de administração de negócios e não apenas a gestão estratégica, como foi sua intenção inicial. Na verdade, hoje se prossegue falando de teoria ou abordagem dos stakeholders como a melhor abordagem para conciliar e fazer convergir interesses numa economia de mercado que se apresente como moderna e capaz de continuar saudável e dinâmica por tempo indefinido.  Programas de pós-graduação chegam a tê-la como opção de linhas de pesquisa. Portanto, temos aqui uma teoria que foi capaz de mobilizar o mundo da prática da administração e também a comunidade acadêmica. Isto justifica se dediquem algumas reflexões ao tema.

A palavra stakeholder está frequentemente associada à conciliação, eliminação de tensões e conflitos e, portanto, como recomendável na gestão de empresas, onde o conflito é sempre uma potencialidade.  Outras associações incluem uma gestão participativa, um alinhamento com os valores de cidadania e o regime político de democracias representativas. Todavia, um aprofundamento do tema nos leva a ver nos stakeholders personagens não necessariamente cooperativos e inclinados a buscar a convergência de interesses, mas personagens hobbesianos.

O clássico filósofo inglês Thomas Hobbes é frequentemente apresentado como o antípoda de Jean Jacques Rousseau a respeito da natureza humana. Hoje a natureza humana é tópico abandonado, simplesmente porque se pressupõe que natureza humana não existe, porque tudo é socialmente construído. Todavia, nos séculos XVI, XVII e XVIII era um tema candente. A respeito desta natureza Hobbes considerou-a de maneira sombria se contrapondo a Rousseau. Este via no ser humano uma propensão à bondade, à cooperação, ao entendimento. O ser humano seria fundamentalmente amoroso, generoso e de facílimo trato. O fato do mundo ser caótico, desordenado, marcado pela violência, pelo egoísmo e pela corrupção seria a consequência de sermos corrompidos pela sociedade em que nascemos, onde somos socializados e acabamos tendo que viver. O corolário desta colocação é claro. Se transformarmos a sociedade, teremos como consequência a abolição da humanidade atualmente existente e ingressaremos num paraíso de harmonia, paz e cooperação. Rousseau tornou-se entre outras coisas o patrono da teoria da mudança por via revolucionária.

O universo de Hobbes é onde habita um ser egoísta, centrado em si mesmo, buscando apenas a consecução de seus objetivos e propenso à violência. O aforisma de que “o homem é o lobo do homem” é a ele atribuído. Desta maneira, ninguém está seguro porque não há indivíduo que não possa ter sua vida interrompida brutalmente pelo homicídio praticado por um semelhante. A extinção desta violência de todos contra todos, o fim da barbárie e a instauração do que chamamos cultura e civilização só foi possível porque houve um contrato social (covenant) onde todos abdicaram do uso da violência. Todavia, elegeram o monstro Leviatan para que, ele sim, fosse o único autorizado – somos tentados a dizer empowered – a exercer a violência legítima. Assim nasceu o Estado, e com ele a ordem, as instituições, a cultura, a ciência, as artes e a religião. Mas há sempre o risco de retorno ao estado natural de violência e barbárie. Para tanto, é necessário que se preserve Leviatan e todos os instrumentos com os quais atua. Daqui não é difícil entender porque Hobbes é um dos patronos do pensamento conservador e também do mundo dos negócios e da economia. Afinal o “homem econômico” foi esculpido num ateliê hobbesiano. Só lhe interessa maximizar ganhos e minimizar perdas, por meio de um cálculo absolutamente exato e racional.

Certamente a teoria dos stakeholders combina melhor com Hobbes do que com Rousseau. Cada um dos stakeholders está voltado apenas à consecução de seus objetivos e busca sua satisfação mesmo que às expensas dos demais stakeholders. O acionista quer a maximização dos retornos sobre o seu investimento. Os administradores profissionais da grande empresa (managers) só estão interessados na manutenção de seus empregos, carreiras, altos salários, polpudas verbas de representação e fantásticas bonificações. Os empregados buscarão algo semelhante, mas adequando-se a um universo com menores possibilidades de ganho. Querem um emprego estável e um salário onde consigam maximizar o pagamento por suas habilidades e competências. Os clientes ou consumidores desejarão adquirir o máximo de valor ou utilidade por cada unidade monetária desembolsada para aquisição dos bens e serviços ofertados pela empresa. As empresas fornecedoras estarão sempre interessadas em melhorar o seu desempenho e de seus stakeholders, independentemente do que ocorra com a empresa a quem fornece insumos.

Tais atores, contudo, inviabilizariam a empresa e à semelhança do covenant hobbesiano, decidem abdicar parcialmente de seus objetivos. Esta abdicação parcial acaba por viabilizar a empresa sendo na verdade um compromise, um acerto entre as partes, onde se fica com menos para não arriscar-se a tudo perder. O que faltaria seria um Leviatã. Mas não de todo. Cada um e todos os stakeholders são propensos a recair em sua verdadeira natureza e trapacear (cheat) e a Teoria da Agência e a Teoria dos Jogos são moldadas em cima de atores potencialmente desonestos.

Mas as funções do Leviatâ ficam em parte com o Estado que legisla e regulamenta a governança das empresas. Mas o agente que é responsável por aplicar as leis e fazer com que os stakeholders adiram às abdicações parciais é um dos stakeholders, ou seja, os administradores ou gestores. Embora sendo dotados de uma natureza idêntica aos demais e capazes de violências e abusos contra acionistas, consumidores, empregados etc., são chamados a gerir a equidade. Não admira que a tarefa seja tão difícil e da teoria dos stakeholders se possa dizer que, como muitas formulações teóricas que contém um elemento prescritivo, falar, pregar e recomendar é bem mais fácil do que fazer, aplicar ou implementar.

BILBIOGRAFIA

 

Freeman, Robert E., Strategic Management: A Stakeholder Approach. New York, Cambridge University Press, 2010.

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