Sobre o dia da Mulher

REDAÇÃO

08 Março 2018 | 08h13

Maria José Tonelli, é professora titular  na FGV-EAESP desde 1988, onde foi vice diretora entre julho de 2007 e fevereiro de 2015. É Editora científica da RAE – Revista de Administração de Empresas e GV Executivo  Faz parte da linha de pesquisa em Estudos Organizacionais do Curso de Mestrado e Doutorado em Administração de Empresas da FGV-EAESP e seus interesses de pesquisa incluem: questões de gênero nas organizações, comportamento organizacional, gestão de pessoas

 

Não é fácil trazer algo novo para celebrar o dia da Mulher.  O debate se intensificou nos últimos anos e o tema está na mídia nacional e internacional praticamente todos os dias. Por diferentes motivos: a questão do assédio, a luta das mulheres negras, mulheres empreendedoras, feminicidios, entre outros. Desde os movimentos sufragistas no início do século passado observamos várias mudanças. Na sua quarta onda, o feminismo é mais plural, mais inclusivo, respeitando a própria diversidade presente nos diferentes movimentos. São várias vozes: o feminismo cristão, o feminismo negro, o feminismo liberal, entre tantos outros pensamentos. O movimento HeforShe, da ONU mulheres, por exemplo, que conta com  o apoio de diversas celebridades,  promove o direito de ser livre para mulheres e homens, promove a igualdade de direitos e o respeito às diferenças. Solidariedade, sororidade, dororidade são palavras que ocupam cada vez mais os mais diversos fóruns de discussão sobre mulheres: na ciência, na cultura, mulheres do setor financeiro, mulheres em boards, mulheres na tecnologia, mulheres na zona rural, mulheres indígenas, entre outros. Podemos até questionar que muitos movimentos feministas se utilizam de argumentos utilitarista sem considerar o contexto mais amplo dos direitos humanos.

 

Mas, ainda que sujeito a controvérsias,  o discurso em prol da igualdade dos direitos se espalhou mas não se pode dizer  o mesmo de boas práticas. O Brasil tem piorado sistematicamente no Global Gender Gap Report, do Fórum Econômico Mundial. Em 2016 o país ocupava a 79a. posição e em 2017 caiu para a 90a. posição, especialmente pela baixa representatividade das mulheres na política. O número de assassinatos de mulheres no Brasil continua alto e o pais lidera o ranking de assassinatos de mulheres trans e travestis, ficando `a frente do México, outro país reconhecidamente machista. Profissionais da área de Psicologia já informaram, há muito tempo, que a violência, o assédio e as mais diversas formas de preconceitos decorrem de profundas questões pessoais daqueles que a cometem. Mas as consequências dessas questões internas, mal resolvidas,  são reais e impactam a vida das mulheres e a de seus filhos.

 

Ainda que as mulheres tenham avançado em posições de destaque no trabalho, não é o caso de se alegrar com o fato de que as mulheres tenham mais escolaridade que os homens, que  não conseguem avançar nos estudos e na sua condição educacional. Essa assimetria apenas itensifica o distanciamento entre homens e mulheres, pela falta de repertórios linguísticos que permitiria uma melhor comunicação e uma visão mais informada sobre mundo e as coisas. A questão educacional de homens e mulheres é central para o desenvolvimento econômico (se o país voltar a crescer vamos continuar a enfrentar a escassez da mão de obra qualificada) mas também para a organização das famílias e um contexto social e cultural emancipatório.  Quando se discute, por exemplo, a intensidade da carga de trabalho nos ambientes corporativos, essa não é uma questão apenas para as mulheres que precisam conciliar casa-trabalho-família.

 

A luta por liberdade, igualdade e fraternidade tem mais de três séculos e, pelo andar da carruagem, precisaremos continuar a zelar por esses direitos. Apesar de mais de 100 anos de lutas feministas, mudanças essenciais ainda não foram conquistadas e essas mudanças incluem liberdade não só para as mulheres, mas também para os homens.  Esperamos que o debate feminista possa cada vez mais promover os direitos humanos, a liberdade e a igualdade entre as pessoas.