Sobre Luiz Carlos Heinze, Rancho Queimado e mitocôndrias

Sobre Luiz Carlos Heinze, Rancho Queimado e mitocôndrias

REDAÇÃO

11 de maio de 2021 | 15h43

Marcos Fernandes G. da Silva, Doutor em Economia (USP). Professor de Economia da FGV – EAESP, Pesquisador do FGV – Ethics

O senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS), logo ao início dos trabalhos da CPI da Covid-19, fez sustentações em defesa da cloroquina e kitcovid que, como definiu o jornalista da Folha Igor Gielow, parecem ter “a autoridade de um parente no WhatsApp”. Com efeito, explicitam ignorância científica. Contudo, creio na honestidade intelectual do senador e as falas dele refletem falhas, no ensino de ciências, pensamento crítico e divulgação científica.

Tais deficiências aparecem não somente no sistema de ensino fundamental e médio (há evidências sobre isso) mas, arrisco, nas graduações. Neste caso, esta é uma evidência, com o perdão à redundância, que trago aqui, meramente anedótica. Portanto, mera intuição extraída da experiência pessoal, sem valor científico em si, o que Heinze desconhece, pois recorre a elas sistematicamente.

Digo isso pois, não raro, observo médicos, pessoas das engenharias, que não sabem o que é erro do tipo I e tipo II, modelos de causalidades e suas complexidades e, por exemplo, um experimento natural (não se compara, na pandemia, Araraquara com Chapecó ou Espanha com França, pois são “países turísticos”, por exemplo). Por sinal, pode-se confrontar sim, como resultado de experimento natural, Suécia com Noruega (e Dinamarca, com reservas). Notadamente, este experimento, que mostra o fracasso sanitário e econômico da estratégia sueca, alguns esquecem de “lembrar”.

Parte da culpa dessa ignorância estava fora dos bancos escolares, mas na divulgação científica (ou falta dela). Notem, coloquei o verbo no passado, isto pois, antes tarde do que nunca, a transmissão de informação da produção científica tem crescido no Brasil, a despeito do nariz torcido do meio acadêmico: sim, pois somente agora há preocupação com isso, mesmo que limitada, e não há “incentivos CAPES”, por assim dizer, para atividades nessa área. O pessoal prefere pesquisa salame à boa divulgação científica. Mas este é tema para outro artigo.

Desde o início do YouTube acompanho os pioneiros nesse processo, jovens que, para ganhar um sustento durante o doutorado ou terem outra função laboral, criaram canais que ajudam muito na mudança deste cenário. Exemplos clássicos são O Canal do Pirulla, biólogo e paleontólogo, o Nerdologia, inicialmente somente, na parte de ciências, com o agora conhecidíssimo Átila Iamarino, o Canal do Slow, também biólogo e, mais recentemente, o Space Today, do Sérgio Sacani e o Ciência todo Dia, do Pedro Loss, além dos novíssimos Nunca Vi Um Cientista de várias mulheres pesquisadoras e o Física e Afins, da Gabriela Bailas .

Por outro lado, na divulgação científica em jornais e portais, para além das revistas, houve um aprimoramento sensível, mas também nos últimos anos. O Estadão foi pioneiro no jornalismo científico com foco em meio ambiente – e continua na liderança na divulgação de temas dessa natureza e mantém o espaço de ciência.

Na Folha há um time também de profissionais dedicados ao tema, com Salvador Nogueira, do canal Mensageiro Sideral, Reinaldo José Lopes, conhecedor da gramática dos Elfos (Deus, Darwin, Tolkien, Mozart) e o old school Marcelo Leite. Mas, para além dos colunistas, na divulgação cotidiana da ciência há, ironicamente, ainda muita anticiência, como argumentarei logo mais usando o exemplo do kitcovid e da cloroquina.

Por fim, há um esforço acadêmico notável para se qualificar a divulgação científica feito pela Sabine Righetti, ex-colega de FGV/Eaesp, na Unicamp, pela Natalia Pasternak, que lecionou recentemente na minha escola, do Instituto Questão de Ciência e, por fim, mas não por último, o Serrapilheira, que se dedica – e isso é notável – a fomentar pesquisa de ponta e a divulgação científica.

Contudo, esse movimento, importante, fato, é muito recente. E as consequências disso vemos no debate público. Mas, sem complexo de vira lata: se compararmos o Brasil com os EUA, temos os mesmos problemas neste quesito. Embora por lá o esforço pela divulgação científica tenha começado no final dos anos 1970. E por uma razão que tem tudo a ver com o Brasil atual: prosperava a versão deles de escola sem partido e as tentativas de, por todos os meios, desde o criacionismo puro e simples, até sua versão com “cara de ciência”, Desenho Inteligente (DI), invadir os conteúdos de biologia e física com pseudociência ou, mais precisamente, com religião mesmo.

Por sinal, no Brasil, os canais dos biólogos citados acima surgiram, principalmente o do Pirulla, para se contrapor ao DI e ao criacionismo como explicação científica, e ao Olavismo (Pirulla foi do saudoso grupo do Orkut que reunia quem não “gostava muito” do Olavo de Carvalho). Qual foi a estratégia de Pirulla? Explicar, direitinho e longamente, evolução, dando aula. Tanto é que há uma piada no YouTube que ele criou uma unidade de tempo (1 Pirulla = 30 minutos).

Intermezzo. Voltemos ao senador Luiz Carlos Heinze e seus colegas da base governista na CPI. Os bolsonaristas usaram evidências anedóticas como se fossem científicas e supostos argumentos de autoridade como atestados de verdade em si.

Sobre evidência anedótica, sabemos que ela pode ser útil para a “eureka” na ciência, no momento da descoberta científica, para usar o termo popperiano, mas não na pesquisa. Aliás, é no momento da descoberta que todos os elementos sub racionais, passionais, visões de mundo, ideologias, tudo pode entrar em ação. Mas na pesquisa científica, tentamos dominar as visões, para usar o termo schumpeteriano, por meio da construção da teoria e do teste empírico, replicável se possível.

Esta digressão agora é importante. É fato que as paixões e os interesses contam na ciência e que Popper superestimou o papel da racionalidade científica e da crítica intersubjetiva dos cientistas pelos pares no controle deles. Mas, efetivamente, quando olhamos para o teste empírico da concepção de ciência de Popper, ela resiste: a história da ciência indica que a racionalidade científica prevalece.

Contudo, Kuhn tinha suas razões ao contestar o que acontecia nos períodos de crise de paradigma, ou, para parafrasear, com certa liberalidade Gramsci, quando o velho está morrendo e o novo ainda não nasceu. Talvez, a ideia de programas de pesquisa de Lakatos, que puxa mais a brasa para a sardinha de Popper, mas inclui a crítica kuhniana, seja a teoria do “progresso” da ciência que mais resista ao teste empírico imposto pela história da ciência.

Entretanto, os argumentos supostamente baseados na ciência, dos bolsonaristas na CPI, merecem menção a estes filósofos da ciência? Sim, pois a divulgação científica deve explicar tudo isso de forma simples. Por exemplo, se é incorreto afirmar, como Heinze tenta “provar” com as evidências anedóticas de Rancho Queimado, que “é verdade que a cloroquina e kitcovid ajudam a curar a Covid” não se pode também afirmar que “é verdade que a cloroquina e kitcovid não curam a Covid”.

Para além da questão complexa do que seja “cura” numa doença, principalmente viral e da complexa discussão sobre causalidade aqui implícita, tanto Chico, como Francisco, estão equivocados. Podemos apenas afirmar que, até hoje, a hipótese empiricamente testável segundo a qual a cloroquina e o kit “curam a Covid” (que seja minimizar consideravelmente seus efeitos) foi rejeitada, falseada. Mas há intelectuais públicos e jornalistas que não se atentam a isso dentro do debate atual contra o uso desses fármacos sem eficácia comprovada e pretendem vender “o que a ciência diz” como verdade.

Aparentemente, agem como positivistas lógicos, portanto com um século e tanto de atraso, que no afã de matar a metafísica a reintroduziram na ciência quando reduziram a verdade ao empiricamente sensível. É difícil aceitar isso, mas aqueles dois gregos, que batiam um bolão, já ensinavam que sabemos que nada sabemos e que quanto mais sabemos, sabemos que não sabemos.

Uma teoria, quando muito, é aceita não por ser verdadeira, isso é logicamente impossível, mas por não ter sido falseada. A sobrevivência de uma teoria ao longo dos anos, décadas, faz-nos ter um certo grau de crença racional, como que movidos por um cálculo bayesiano intuitivo, e inferir que ela é “verdadeira”.

Voltando ao kit e à cloroquina. Evidentemente, numa manchete de jornal ou portal deve-se chamar a atenção para a matéria. Todavia, na linha fina, de cara, deve-se explicar isso aí acima, de forma simples: “por enquanto o que se sabe é que não funciona e, por isso, não pode ser usado”. Não é simples explanar o que é efeito placebo ou que, se 90 por cento dos casos é assintomático e, então, se se tomar água ou kitcovid o efeito é o mesmo, eu sei. Mas deve-se tentar, com exemplos metafóricos, que seja. A divulgação científica demanda simplificação, em prol da didática, mesmo considerando que há trade-offs entre esta estratégia e o rigor analítico.

Voltemos às “provas” levantadas pelos bolsonaristas na CPI, que se baseiam também no argumento de autoridade, do tipo “fulano é Prêmio Nobel”, por exemplo. Paixões e interesses fazem parte da ciência e, por sinal, é um erro propalar por aí que ela é dona da verdade, pois, inclusive, isso seria uma contradição nos termos. Eles mencionaram na CPI Luc Montagnier, que recebeu o Nobel por ter identificado, como sabemos, o HIV. Além do mais, era cientista respeitado pelos pares. Era. Ele se “notabilizou”, recentemente, por emprestar sua autoridade ao movimento antivax e ao defender, sem publicar, a ideia de que há memória na água, sustentando certa cientificidade na homeopatia e, por fim, que o Covid-19 foi produzido em laboratório (será que não foi!?). Cientistas notáveis, elas e eles, têm, em geral, egos igualmente notáveis. O fato é que Montagnier não é levado a sério há anos e, não sabemos, mas esta hipótese é plausível, talvez ele goste de “aparecer”.

Outro nome sempre mencionado é o de Didier Raoult, evidentemente. Outro virologista notável, respeitável, ou pelo menos o era, que está sendo questionado e inclusive acusado de fraude por sua pesquisa sobre a ação da cloroquina.

Pode ser que eles estejam certos? Sim, seria desonestidade minha dizer o contrário. Muito provavelmente não. Por que? O senador desconsidera – como muita gente – que o trabalho científico é coletivo, baseado no pensamento crítico, exatamente porque nossas paixões e interesses interferem na nossa pesquisa. Até em pesquisas sobre efeitos da homeopatia em animais isso se faz sutilmente presente, o que altera os resultados dos experimentos. O consenso, sempre provisório, consequência do embate de ideias nas revistas e congressos, tenta esfriar as paixões e interesses. Logo, é preciso explicar para o senador que tentar subir em ombros de gigantes, ou que outrora o foram, não significa nada cientificamente falando. Claro, sabemos que é um recurso de retórica, mas creio piamente na honestidade intelectual do senador: ele apenas ignora, como muitas e muitos no debate público, a natureza da pesquisa científica.

Por exemplo, voltemos ao caso de Montangnier: não excluindo a hipótese de que ele teve algum trauma com comida chinesa, aparentemente inspira-se em teorias da conspiração. Pessoas muito inteligentes, brilhantes diria, racionalizam o mundo muitas vezes dessa forma.

Lynn Margulis formulou uma das hipóteses mais interessantes sobre a origem da minha organela predileta, a mitocôndria. Elas e os cloroplastos teriam se originado de endossimbiose: organismos procariontes teriam adentrado células eucariontes, contando com a proteção de uma membrana celular e, em troca, gerando energia para a célula invadida. Genial, não!? Bem, ela acreditou e propalava teorias da conspiração sobre o 11/09/2001, dentre outras. Mas seu trabalho não foi afetado por isso. No caso acima citado, aparentemente sim. Daí a importância da crítica intersubjetiva. Por sinal, há teorias rivais às de Margulis. Ao contrário de muitas manchetes e chamadas de matéria, a ciência não prova nada, por mais incrível – e isso é incrível – que possa parecer.

A ciência e o jornalismo moderno, baseado em dados, análise quantitativa inclusive, investigação criteriosa, têm muito em comum. Não há verdades, apenas hipóteses que se sustentam e outras, que não. Mas para sabermos o que fica de pé, e o que cai, leva tempo. Logo, prudência não é de menos.

Por sinal, voltando a bater, mais uma vez, em Chico e Francisco, voltemos ao, no mínimo, controverso Montagnier. Uma de suas polêmicas afirmações, que aparece no discurso bolsonarista, é a de que o Covid-19 foi desenvolvido em laboratório. Pois é leitora, leitor, aparentemente há algum fundamento factual nas suspeitas dele.

Longe das teorias da conspiração, que afirmam ter sido o vírus uma arma biológica e liberado de propósito, como até mesmo o Presidente Bolsonaro parece insinuar, Nicholas Wade, em matéria no Medium (ele foi editor de ciências do New York Times 1982-2012 e é conhecedor de virologia e genética), sustenta que o vírus teria sido sim resultado de desenvolvimento parcial em laboratório e que teria “escapado” por descuido ou negligência no seu manuseio no Instituto de Virologia de Wuhan (IVW). Ele estaria sendo pesquisado, com fundos estadunidenses inclusive, pela virologista Shi Zengli. Marcelo Leite resume também o caso em matéria da Folha.

Nós, do mundo científico e da imprensa, temos que tentar conter nossas paixões: não é porque Bolsonaro e Trump, dois populistas mitômanos, acreditam na hipótese do laboratório que ela não seja verossímil (claro que eles estão baseados no delírio e má-fé).

Ciência não prova nada, apenas sustenta um conjunto de hipóteses que não foram refutadas. Do contrário, com o uso desproporcional da palavra ciência como se ela fosse a verdade, deturparemos o sentido do pensamento crítico e nos igualaremos a alguns senadores em termos da falta de conhecimento científico.

O ex-companheiro da Margulis, também já falecido, lutou para divulgar o conhecimento crítico por meio de estórias da ciência, fazendo com que o mundo assombrado pelos demônios paulatinamente fosse iluminado pela razão e não pretendia fazer da ciência religião. Não preciso dizer quem ele era, é. Ele vive, eu acho, por crença irracional, lá no Cosmos.

 

Igor Gielow, Depoimento superficial de Teich mostra limitações da CPI da Covid, Folha de São Paulo, 05/05/2021.

Marcelo Leite, Ninguém provou que Trump e Bolsonaro erraram na origem do Sars-CoV-2, Folha de São Paulo, 08/05/2021.

Nicholas Wade, Origin of Covid — Following the Clues Did people or nature open Pandora’s box at Wuhan? https://nicholaswade.medium.com/origin-of-covid-following-the-clues-6f03564c038.

OECD, Education GPS: the world education at your fingertips, 2018.

Nunca Vi 1 Cientista, https://www.youtube.com/channel/UCdKJlY5eAoSumIlcOcYxIGg.

Gabriela Bailas Física e Afins, https://www.youtube.com/channel/UCmiptCNi7GR1P0H6bp9y0lQ.

Canal do Pirulla, https://www.youtube.com/channel/UCdGpd0gNn38UKwoncZd9rmA.

Nerdologia, https://www.youtube.com/channel/UClu474HMt895mVxZdlIHXEA.

Canal do Slow, https://www.youtube.com/c/canaldoslow.

Space Today, https://www.youtube.com/channel/UC_Fk7hHbl7vv_7K8tYqJd5A.

Ciência Todo Dia, https://www.youtube.com/user/cienciatododia.

Mensageiro Sideral, https://www.youtube.com/channel/UCoRwVRrzVq3qTw7GqOEfH6Q.

Reinaldo José Lopes: Darwin, Deus, Tolkien, Mozart, https://www.youtube.com/channel/UCoB9jZ5E60HraX36xHx6ZQQ.

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