sobre finitude: o que importa no final?

sobre finitude: o que importa no final?

REDAÇÃO

22 de março de 2016 | 10h00

Ana Maria Malik, Graduada em Medicina pela Universidade de São Paulo, mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas – SP e doutora em Medicina (Medicina Preventiva) pela Universidade de São Paulo (1991). É Professora Titular da EAESP-FGV (departamento de Administração Geral e Recursos Humanos), Acadêmica eleita para a Academia Brasileira de Qualidade

 

Todos falam muito sobre saúde, mas de fato só há duas certezas na vida das pessoas: o nascimento e a morte. O que ocorre entre os dois, seja saúde, doença, assistência, riqueza, felicidade,  é menos objetivo. Texto clássico de Thomas Morus do século XVI, chamado Utopia, aponta, em referência aos médicos, que aqueles que só sabem curar as moléstias de seus clientes dando-lhes moléstias mais graves, passavam por incompetentes ou desonestos.

Vivemos, no século XXI, uma era em que a sobrevivência por muitos anos está ao alcance de muitos, pelo menos nas sociedades ocidentais. Até certo ponto, em boas condições. Devido às vacinas, ao saneamento, a diversos medicamentos e formas de diagnóstico precoce boa parte da população deixa de morrer muito jovem, de doenças infecto contagiosas como sarampo e caxumba, com sintomas como desidratação, e chegam a idade suficiente para desenvolver artrites, diabetes, hipertensão, demências e neoplasias.  Citando João Cabral de Melo Neto, estamos falando daqueles que não morrem da Morte Severina, que é ”a morte de que se morre de velhice antes dos 30, de emboscada antes dos 20 e de fome um pouco por dia”, que continua, 60 anos depois, bastante presente.

Os nossos serviços de saúde, com todas as suas deficiências, conseguem salvar vidas de pessoas que conseguem ter acesso a eles, com problemas até há pouco insolúveis. No entanto…pode ser que as pessoas que chegam vivas aos serviços de urgência/emergência por traumas causados pela violência urbana saiam de lá, ainda vivas, em melhores condições do que entraram, mas com problemas crônicos. De fato, pode-se dizer que os serviços de assistência estão mais preparados para atender ou assistir pessoas portadoras de problemas agudos do que para cuidar daquelas que precisam de seguimento, de atenção, de convencimento e de apoio. Quem vai fazer esta parte?  O termo atual muda da “cure” (cura) para o “care” (cuidado), mas é preciso estar preparado para esta nova realidade. Cada vez há mais idosos no mundo, alguns deles em ótimas condições de saúde e outros com dependência e/ou com necessidades de cuidados para realizar as atividades da vida diária.

Cuidar, na verdade, se refere a entender o que o cidadão tem, além de um diagnóstico. Com freqüência, este deve ser considerado multicausal, relacionado a hereditariedade, estilo de vida, ambiente e até assistência à saúde. Mas não se pode ter a pretensão de utilizar sobre todos os pacientes que procuram serviços de saúde o arsenal completo de recursos para manter a vida.  Uma pergunta recorrente é se há pacientes autorizados a morrer, num local com assistência médica disponível.

Essa discussão passa pela compreensão da pessoa, antes do entendimento do caso. O quanto faz sentido, num caso de doença terminal, impedir o consumo de um doce ou de um cigarro? Existe a crença de que sempre é melhor em casa; também existe uma política pública com este título (“Melhor em Casa” – com o subtítulo a Segurança do Hospital no Conforto do seu Lar). Não necessariamente as pessoas têm lares; às vezes, os existentes não têm como acolher uma pessoa que requeira cuidados, mesmo que não se trate de cuidados especializados. Por vezes, a família não tem como abrigar uma pessoa com necessidade de atenção ou de assistência pessoal.

Uma grande lacuna do SUS está na área de cuidado ao paciente pós agudo. Os hospitais hoje existentes não são feitos para isto, pois têm uma infra estrutura cara demais e profissionais preparados para prestar outro tipo de assistência, aguda, na verdade!.

O que é o final, ou o que é um bom final?  Tanto um livro de 2014, de Atul Gawande, chamado Mortais, quanto um artigo de julho da Revista Piauí chamado Juizo Final abordam este difícil assunto. Pelo menos, no século XXI isto pode ser tema de conversa, de discussões com poucos preconceitos. Até há pouco tempo, a simples menção a institucionalização de um idoso ou a solicitação de não prestação de cuidados em caso de parada cardíaca era considerada um escândalo, um assassinato. Hoje existem, em alguns países, leis que permitem pensar de forma diferente no cuidado a doentes terminais. Não se pode confundir cuidados paliativos com suicídio assistido, eutanásia com ortotanásia, mas cada vez mais é possível tomar decisões sobre  a própria vida. Antigamente, falava-se com horror sobre o Dr Morte, que era conhecido por abreviar a vida de pessoas em sofrimento. Hoje é possível pagar (caro) para ser morto, com conforto, na Suíça.

Discutir ética, justiça, direitos é muito arriscado, pois são assuntos que  lidam com as crenças e valores de cada um. Não se pode assumir que exista uma única verdade, nem que haja uma posição correta e outra errada. Para responder à pergunta o que importa no final é necessário saber quem é aquele cuja opinião se quer conhecer. A grande vantagem do século XXI é que a discussão se coloca, já existem até instrumentos como o testamento vital a que é possível recorrer, caso se deseje.  Como saber qual o final de fato? Interferir na própria vida, ou na própria morte, é mais uma vez um sonho humano. Cada um, na verdade, tem o direito de receber aquilo que lhe importa de fato.

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