Sem ideologia, partidos seguem sem rumo

Sem ideologia, partidos seguem sem rumo

REDAÇÃO

27 de maio de 2021 | 19h33

As consequências da falta de um norte nos atuais grupos políticos brasileiros.

Requião Filho, Deputado Estadual no Paraná (ALEP)

Rafael Perich, Mestrando em Ciência Política (UFPR)

Quando criticamos uma eventual transição ideológica e política da esquerda para a direita, precisamos, antes de mais nada, refletir sobre nosso próprio gramado. O MDB, em gestões anteriores, tendeu para a centro-direita justamente pelo vácuo ideológico que o partido nacionalmente sofria, somado a um governismo exacerbado que precisava contrapor aos líderes anteriores, para se mostrar diferente.

Esse governismo trouxe consequências terríveis internamente, levando a uma cobrança de um programa que nunca existiu de fato. Para quem não conhece de perto, o MDB é um partido que abastece suas forças a partir dos municípios e, geralmente, respeita as diferenças estaduais. Não é de hoje que temos como filiados quadros tão diversos, que passam por idealistas sociais como Requião, no Paraná, até Renan Calheiros, Sarney, Michel Temer, Eduardo Cunha, entre outros pelo país.

Surpreendeu, durante a estadia do partido na Presidência da República, a caça às bruxas que foi aplicada sobre aqueles que discordavam de uma política mais próxima a uma agenda neoliberal. Deputados, Senadores e militantes que se opunham quanto a redução e ao sucateamento do Estado brasileiro foram alvo de flerte da comissão de ética do partido.

Passada a caça, com o MDB fora do governo e uma nova direção partidária, as vozes progressistas estão reaparecendo, ainda tímidas, mas com esperança da retomada do partido. O problema atual é, justamente, quem gostou do flerte com essa ideia de centro-direita e da sedução pelo poder daqueles que apoiavam, até ontem, o petismo, e hoje namoram iniciativas ligadas ao bolsonarismo, quando não compõem a base de governos ligados ao mesmo.

O ponto dessa introdução é o seguinte: silenciamos nossa militância mais progressista. O medo causado pela possibilidade de punição fez muitos se calarem perante o que achavam errado do partido. O Movimento Democrático Brasileiro sofreu com a democracia seletiva, quase um centralismo democrático tão comum em partidos mais controladores.

Em 2018, tivemos uma polarização parecida com esse conflito interno do MDB. Políticos mais moderados, que antigamente flertavam com o petismo, e a centro-esquerda, que vestiu a camisa da seleção e da direita em uma luta contra a corrupção, só por ser o tema da moda. Esses mesmos, hoje, flertam com as palavras da nova onda; a da privatização, que promete lucro e modernidade, garantindo o investimento do acionista, entregando pouco para quem paga seus impostos.

Esse tipo político, oportunista, transita como uma mola boba, de Lula a Bolsonaro, esperando sempre obter vantagens eleitorais e financeiras. Não lhe importam o partido e nem o povo que o elegeu, largam mão de seus valores e trocam sua sigla conforme a maré.

A população então, perdida pela quantidade exagerada de partidos, não diferencia mais um PSTU, PCO E UP, por exemplo. Os programas estão iguais, as ideologias diferem em migalhas, atualmente qualquer mínima divergência ideológica ou de controle da sigla faz com que se crie a própria marca.

Sim, uma marca mesmo, que mira apenas lucro, poder, sem um propósito ideal. É algo tão sedutor que convence facilmente consumidores desatentos, com uma propaganda bonita, cara, sem se preocupar com o que de fato isso vai gerar no futuro. A diferença talvez seja essa, entramos em um campo da política em que é melhor parecer do que ser. Esquecemos os estatutos, as diretrizes, o olho no olho com a população, e focamos em agências de marketing que possam convencer a maior quantidade de pessoas, em uma menor quantidade de tempo. Os debates giram em torno de quem ganha, não do argumento. A vacina é só o último exemplo de disputa entre gestores para ver quem aparece mais, quem tem razão. De um lado um bolsonarismo negacionista, do outro um governador marqueteiro que também contribui para uma disputa que deveria ser simples, como o Serra vacinando o Lula.

É importante mostrar essa diferença: tanto o partido quanto o político, é preciso ter ética para não mudar o que se acredita por moedas. Aparece aí a importância de um programa partidário claro, bem intencionado, fundamentado, que mostre para aqueles que votam e aqueles que se candidatam exatamente o que o partido acredita. Não dá mais para um deputado federal ser em um dia petista a favor da mata Atlântica e, no outro, bolsonarista fazendo arminha e votando contra o meio ambiente.

Assim decidimos se ficamos ou vamos embora.

 

 

 

Foto de Requião Filho, Crédito: Dálie Felberg / ALEP
Foto de Rafael Perich,  Crédito: Alexandre Azevedo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.