Saúde dos brasileiros em 2021…. muito além das vacinas

Saúde dos brasileiros em 2021…. muito além das vacinas

REDAÇÃO

15 de dezembro de 2020 | 09h10

Alberto Ogata (diretor da Associação Brasileira de Qualidade de Vida,  Presidente da International Association of Worksite Health Promotion e pesquisador associado do FGVsaude)  & Ana Maria Malik (professora titular da FGV-EAESP e coordenadora do FGVsaude)

 

A pandemia de COVID-19 que vem assolando o mundo tem trazido grandes consequências econômicas e sociais.  Ainda não são conhecidos seus efeitos de longo prazo, só se sabe que aquilo considerado conhecido quando do seu início não é mais válido, decorrido quase um ano. Pode-se dizer com certeza que, desde fevereiro de 2020, as pessoas, as cidades, os países e o planeta não são mais os mesm

As milhares de mortes diárias decorrentes da emergência sanitária geraram uma corrida para o desenvolvimento de vacinas que, em tempo recorde, estão começando – pelo mundo – a ser ministradas em dezembro. Em torno da vacina vinha sendo criada a ilusão de que ela devolveria a vida ao normal. Essa foi uma das crenças afetadas: o desenvolvimento de vacinas costumava demorar muitos anos e agora, aparentemente, vale a emergência na corrida para o desenvolvimento do imunizante e para sua aprovação. Por outro lado, sabe-se que a vida normal e saudável não chegará (nem voltará). No Brasil, se nada for feito, as crescentes desigualdades sociais, as doenças crônicas não transmissíveis, a violência urbana, a insegurança alimentar e o racismo estrutural continuarão a existir. 

Um debate a respeito da saúde dos brasileiros em 2021, organizado pelo FGVsaude no dia 08/12, reuniu a chefe do departamento de saúde global e população na Harvard T.H. Chan School of Public Health, o subdiretor da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) e a responsável pelo estudo Global Burden of Disease  (GBD) no Brasil , além de pesquisadores do Centro. A transcrição do debate e sua transmissão estão disponíveis no site do Centro de Estudos (www.fgvsaude.br)

Os debatedores lembraram a situação do Brasil anterior à pandemia em questões como distribuição de renda e desigualdades estruturais:  a desigualdade na renda, calculada pelo índice de Gini, tinha piorado em 2018, interrompendo uma trajetória de melhoria, retornando a um nível de pobreza maior do que o observado em 2012. Este cenário se agrava ao considerarmos as questões de distribuição regional, racial e de gênero.

O enfrentamento da pandemia foi dificultado por problemas relacionados à atenção primária e ao funcionamento inadequado da estratégia saúde da família (ESF) na maioria dos municípios do país, afetando o cuidado à saúde, inclusive às condições crônicas e de saúde mental. Além disso, foi possível verificar o aumento da violência doméstica durante os períodos de distanciamento social, com a convivência mais estreita entre as pessoas no domicílio. 

 Há quatro meses a OPAS lançou um relatório com a CEPAL trazendo uma estimativa de que a América Latina retornará quase 14 anos em termos de pobreza e de pobreza extrema. Também haverá impacto no PIB, com consequências sociais e econômicos que se retroalimentaram durante a pandemia. Os determinantes sociais e econômicos na América Latina moldaram as respostas à pandemia. A pobreza e as condições de aglomeração quase  permanente em que vivem as pessoas nas favelas/comunidades das grandes cidades da América Latina ( Brasil incluído) tiveram grande influência nas políticas de distanciamento social  – pensadas para interromper ou reduzir a velocidade de transmissão  Além disso,  programas importantes como de imunização na infância, rastreamento de câncer e tratamento da malária, por exemplo, foram comprometidos. 

As taxas de mortalidade prematura por doenças crônicas estavam declinando, no Brasil, nos últimos anos, a uma velocidade de mais de 2%/aa.  Esta curva, no entanto, se mostra agora invertida. Um estudo chamado COVID Comportamentos, que entrevistou 45 mil brasileiros, constatou que, durante a pandemia, as pessoas estão menos ativas fisicamente, pioraram seus padrões alimentares, assistiram televisão por mais tempo, consumiram mais bebidas alcoólicas e relataram mais sentimentos de tristeza e depressão. Os serviços de saúde, em especial os de atenção primária, precisam se adaptar à nova realidade, garantindo a continuidade dos cuidados integrais, o gerenciamento dos casos crônicos e a ênfase na promoção da saúde, no estímulo a estilos de vida saudáveis, em aconselhamentos específicos para as famílias, para os portadores de doenças crônicas e para os seus cuidadores (frequentemente esquecidos). Mas também é necessário convencer a população a retornar aos serviços e a reivindicar o atendimento a suas necessidades.

Os três debatedores foram unânimes em um caminho essencial: a necessidade do fortalecimento, cada vez maior, do SUS por meio de um financiamento adequada, do uso de sua rede de serviços com especial atenção à estratégia da saúde da família e à atenção primária como coordenadora do sistema e abordando a equidade como um pilar fundamental. Não há soluções mágicas, nem balas de prata para matar o vilão.  Há que se buscar caminhos estruturais e sustentáveis para contribuir para ter brasileiros mais saudáveis em 2021 e nos anos por vir.

Mesmo que ela seja imprescindível, a vacina não é suficiente para colocar fim à pandemia. Mas o seu primeiro objetivo, seguramente, deveria ser salvar vidas e proteger os vulneráveis. Serão meses até vacinar/imunizar toda a população e chegar a uma estratégia de eliminação satisfatória da transmissão. Imaginar que a vacina seja A SALVAÇÃO é um equívoco do ponto de vista de uma estratégia abrangente de saúde pública. Nenhuma medida isolada será capaz de solucionar o problema. Então é urgente desenhar uma   estratégia de recuperação do sistema de saúde, de garantia de seu espaço privilegiado na agenda do Estado, mais que do governo. A população já se deu conta da importância do SUS, o governo precisa fazer a sua parte.

 

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