Saúde: do que reclama quem reclama?

Saúde: do que reclama quem reclama?

REDAÇÃO

11 de agosto de 2015 | 09h11

Ana Maria Malik, professora Titular do Departamento de Administração da EAESP/FGV.

 

No Brasil e no mundo, saúde é um tema a respeito do qual o número de reclamações é enorme. Sabe-se que saúde não ganha eleições, mas pode ser facilmente responsabilizada por contribuir para muitas derrotas. Por exemplo, na campanha a eleição presidencial nos Estados Unidos de 2013, os dois concorrentes gastaram boa parte do tempo do debate sobre política interna discutindo o plano implantado na gestão anterior do Presidente Obama,  (affordable care, ou cuidado acessível financeiramente). O mesmo ocorreu nas eleições gerais do primeiro semestre de 2015, no Reino Unido, quando uma boa parte da discussão eleitoral foi sobre a mudança no financiamento da saúde de um dos sistemas mais conhecidos e bem reputados do mundo.

Os meios de comunicação denunciam constantemente o tempo de espera nos pronto socorros, a insatisfação de quem não consegue ser atendido, daqueles que não têm acesso ao que desejam. Mas, afinal,  do que reclama,  quem reclama?  Reclama da fila, da dificuldade em agendar procedimentos, do custo dos planos e dos medicamentos. Ou seja, reclama-se basicamente do atendimento à doença, à dor, ao que se chama de “ausência” de saúde.

Mas saúde é outra coisa,  tem a ver com uma série de fatores, dos quais a assistência é apenas uma pequena parte.  Quando compra um “plano de saúde”, o beneficiário costuma pensar que está se precavendo contra problemas de saúde, contra a necessidade de realização de um exame pelo qual ele não poderá pagar, de utilização de um leito de internação ou de UTI. Na porta dos serviços financiados pelo SUS a queixa costuma ser pela demora para conseguir cuidado, pela dificuldade de ser visto pelo médico (menos frequentemente por outro profissional).

Cuidados realizados por enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, para citar apenas alguns poucos dos profissionais de saúde, em alguns casos podem ser mais eficazes e certamente mais eficientes do que a assistência médica prestada em unidades de emergência, no sentido de manter a saúde e orientar todo tipo de prática saudável. A procura por eles costuma ser menor pela população, que prefere esperar pelo médico; o conhecimento a respeito das alternativas em geral limita-se, com freqüência, a pessoas de classe econômica e educacional mais alta.

 

Dificilmente um plano de saúde ou um hospital vai conseguir de fato levar a saúde às pessoas, por melhor ou mais caro que seja. Saúde tem a ver com mudanças de hábitos, com adesão a novos comportamentos, desde utilização do cinto de segurança até ingestão de alimentos mais saudáveis.  Apesar disso, claro que poderia ser parte de suas funções oferecer este tipo de assistência. O acesso a centros de check-up, que tem posição privilegiada nas reivindicações da população, no setor público e no privado, não previne doenças, mesmo que esses centros tenham uma imagem de atividades de prevenção. No máximo, ajudam a identificar precocemente algum problema e assim permitem um tratamento mais eficaz.

No âmbito do SUS, das políticas de saúde do país, há pelo menos uma iniciativa focada na educação da população com relação à produção de modos de vida saudáveis: o programa Academia do SUS. Ele vem sendo implantado pelo Ministério da Saúde, nos municípios brasileiros, por meio da criação de espaços físicos dotados de equipamentos, estrutura e profissionais qualificados.

Uma estratégia ainda mais antiga, que começou como um programa, é a Saúde de Família. Seu objetivo é deslocar o foco da atenção à saúde dos serviços – como as Unidades Básicas, Ambulatórios, Consultórios, Hospitais – para o local de residência, dos indivíduos doentes para as famílias e comunidades saudáveis. A Estratégia Saúde da Família (ESF)  é tida pelo Ministério da Saúde e por gestores estaduais e municipais como uma forma de conseguir atingir mais cidadãos, com mais qualidade, de preferência tentando manter ou proteger sua saúde. Um ponto importante é o estabelecimento de uma equipe multiprofissional  composta por, no mínimo: um médico generalista, ou especialista em Saúde da Família, ou médico de Família e Comunidade; um enfermeiro generalista ou especialista em Saúde da Família; um auxiliar ou técnico de enfermagem; e  agentes comunitários de saúde.  Cada equipe  deve ser responsável por, no máximo, 4.000 pessoas, sendo a média recomendada de 3.000 pessoas. A intenção é que o agente comunitário seja o primeiro elo entre a equipe de saúde e a comunidade, conheça as famílias sob sua responsabilidade e consiga ajuda-las a cuidar de sua saúde e, quando ocorre algum problema, a auxiliar na sua identificação e na busca de soluções.

Sua implantação ainda não cobre todo o país e  há muitos problemas, mas é uma nova forma de administrar a saúde.  Em muitos locais (e isso ocorre em São Paulo) as equipes de Saúde da Família são gerenciadas por parceiros privados, que recebem do governo recursos para isso. A estratégia de Saúde da Família está presente em todos os estados do País. A última estimativa de cobertura de população, referente a março de 2015, era de 61%.

Gastar com saúde dá muito mais resultado social que com doença.   A já batida frase “saúde não tem preço, mas tem custo” faz sentido e seu horizonte de tempo é a vida toda. A saúde tem custos envolvidos na vida e em atividades de promoção. No entanto, a doença tem claramente custos financeiros, econômicos e sociais, que são muito mais amplos e mais pesados. Por exemplo, os portadores de doenças crônicas necessitam de cuidados, medicamentos, faltam ao trabalho e têm produtividade reduzida.

Se for o caso de reclamar da saúde, sugiro que reivindiquemos políticas saudáveis, que garantam ar mais limpo, alimentos saudáveis, equipamentos sociais que permitam desfrutar da cidade sem violência. E também…que façamos a nossa parte, poluindo menos, nos exercitando mais, comendo melhor…

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