São Paulo, Nova York e a Álea Epidemiológica.

São Paulo, Nova York e a Álea Epidemiológica.

REDAÇÃO

18 de abril de 2020 | 11h56

Antonio Gelis Filho, Professor da FGV-EAESP, é Doutor em Administração (FGV-SP), Especialista em Direito Sanitário (FSP-USP), Advogado (USP) e Médico (USP).

 

Um fato das pandemias tem passado despercebido nas discussões atuais: suas manifestações locais seguem padrões próprios, tornando muito arriscado acreditar na existência de um único processo de evolução do fenômeno, o qual estaria destinado a se repetir em todos os pontos do planeta. A expressão de uma pandemia em um determinado agrupamento humano, seja um bairro ou uma cidade, é única. Há, obviamente, um modelo geral. Mas os modelos gerais são apenas guias para a manifestação real em um local específico. Inúmeros fatores além da data de início ou não de isolamento ou confinamento influenciam essa expressão. Muitas são as possibilidades para tanto. Houve superdisseminadores, aquelas pessoas assintomáticas e altamente móveis, que contaminam dezenas de outras? Houve contaminação inicial de grupos particularmente vulneráveis ou particularmente capazes de disseminar a doença? Há fatores locais mal compreendidos, como clima, imunidades cruzadas e mutações virais que poderiam trazer novas variáveis ainda não adequadamente estudadas? Qual é a estrutura demográfica do local? Quais são os comportamentos de interação social? Esses são apenas alguns exemplos.

 

A esse conjunto complexo de fatores podemos chamar de álea epidemiológica: a expressão do acaso, definido por múltiplos fatores interagindo, e que determina se uma área específica será mais ou menos castigada pela epidemia. Isso ocorria mesmo antes da moderna medicina. Pelo menos duas áreas, por exemplo, foram relativamente poupadas, a se confiar nos cronistas da época, do pior da peste negra, a pandemia de peste bubônica que dizimou a população europeia no século XIV. Uma foi a região de Cracóvia, hoje Polônia. A outra, de forma tristemente irônica, foi Milão, hoje entre as mais castigadas pela COVID-19. É tentador querer reduzir o fenômeno das epidemias a uma única variável explicativa. Trata-se, porém, de um processo altamente complexo, tanto no sentido matemático quanto no sentido de uso cotidiano do termo. Não há apenas uma única possibilidade para o comportamento de sua evolução em locais distintos. As previsões exigem enormes margens de erro. Os modelos matemáticos epidemiológicos devem ser tratados como orientações e não recebidos como oráculos.

 

Tomemos, por exemplo, a comparação entre a evolução da pandemia da COVID-19 no estado brasileiro de São Paulo e no estado norte-americano de Nova York. O gráfico abaixo ilustra  a discussão que se seguirá. Está atualizado até dia 17 de abril de 2020.

O gráfico mostra a evolução do número cumulativo de óbitos por 100 mil habitantes, tanto no Estado de São Paulo quanto no estado norte-americano de Nova York. O início do eixo horizontal é o dia do primeiro óbito por COVID-19. A prevalência de óbitos (acumulados) é quase 28 vezes maior no Estado Nova York. Cerca de 58,5 mortes por 100 mil habitantes contra 2,1 mortes por 100 mil habitantes no Estado de São Paulo, para um mesmo momento da evolução do indicador. Por quê?

 

A implementação do isolamento é um fator explicativo importantíssimo. Mas não é o único. Não está claro que o isolamento paulista seja tão mais eficiente que o norte-americano; e a Suécia, que sequer implementou isolamento, mostra prevalência de 13,4 óbitos por 100 mil habitantes. Isso é pouco mais que o dobro da prevalência de óbitos na vizinha Dinamarca, país bastante comparável e que instituiu rígido confinamento, mas muito inferior à prevalência de Nova York. E a Indonésia, país em desenvolvimento e já no quadragésimo dia a contar da primeira morte, exibe prevalência de 0,2 óbitos por 100 mil habitantes. Obviamente, outros fatores estão em ação. Não sabemos exatamente quais são esses fatores, que incluem provavelmente tanto uns de natureza biológica quanto outros de natureza social, aí incluídos subnotificação e responsividade do sistema de saúde.  E, de forma que sugere cautela aos paulistas, a diferença com Nova York pode se dever, infelizmente, apenas a uma evolução inicial distinta, com agravamento vindouro. Daí a necessidade de seguirmos as orientações das autoridades sanitárias. Daí também, porém, a necessidade de continuarmos a estudar o fenômeno COVID-19 sem paixão e com racionalidade científica.

 

Como já tive oportunidade de escrever neste espaço, a ciência é o reino da dúvida e das verdades temporárias e questionáveis, e por isso evolui; o reino das certezas e das verdades absolutas e inquestionáveis é o fanatismo, religioso ou político. Sigamos as instruções das autoridades sanitárias; continuemos, ao mesmo tempo, a questionar nossas verdades temporárias. São duas faces de uma mesma moeda, a moeda do bom senso. Cujo valor, mais do que nunca, faz-se notar durante as crises.

 

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