Rússia e Ucrânia: o porquê das sirenes

Rússia e Ucrânia: o porquê das sirenes

REDAÇÃO

02 de março de 2022 | 13h17

Nathália Araujo Vieira Bruni, Graduada em Administração Pública (FGV – EAESP) e Trainee Business na AMBEV

Marina Suzano, Graduanda em Relações Internacionais (FGV – RI) e Intern na área de Private Sector Partnerships no ACNUR

02:08 (UTC-3), São Paulo: o barulho da sirene de uma ambulância que passa. O que estaria acontecendo? Coincidentemente, no mesmo horário, como uma avalanche as redes sociais reproduzem o som de sirenes, que parecem triplicar. Porém, estas não passam, e continuam vindo de Kiev, a capital da Ucrânia. São escutadas não só por nós e pela nossa vizinhança, mas pelo mundo inteiro.

Longe de querer explicar o “porquê” do conflito na Eurasia, algumas reflexões sobre os acontecimentos atuais são possíveis, ainda que neste curto espaço.

Sob o comando de Vladimir Putin, a Rússia, um país transcontinental que abrange a Europa Oriental e o Norte da Ásia[1], atacou a Ucrânia na quinta-feira (24), dando início a um conflito bélico, abertamente declarado, semeando um cenário de insegurança no mundo. Antes disso, ainda nesse ano, no dia 22 de janeiro Putin assinou uma declaração de independência de duas regiões ucranianas, Donetsk e Luhansk.

Todavia, a ameaça de um conflito aberto e declarado, de maiores proporções, já se mostrava real desde 2014, quando a Rússia deteve o poder da Crimeia, que até então era um território ucraniano[2].  Voltando mais no tempo, tendo seu processo de independência na década de 1990, quando a União Soviética foi dissolvida e teve seu território dividido em 15 repúblicas independentes, a Ucrânia se tornou o segundo maior país da Europa, atrás apenas da própria Rússia.

Entre idas e vindas, Rússia e Ucrânia apresentam uma conturbada história conjunta, que remonta há milhares de anos. Por exemplo, entre os séculos IX e XIII, os dois Estados fizeram parte de uma confederação chamada Rus de Kiev, compartilhando laços políticos, culturais e sociais. Após a dissolução desse Estado, ambos os países seguiram de maneira independente, construindo costumes, dialetos e sistemas econômicos próprios. No século XVII, novamente, inúmeras áreas do território ucraniano foram incorporadas pelo Império Russo, e assim permaneceram até o século XX.

O turbulento passado ucraniano, que não cabe remontar aqui, gerou um cenário de fragmentação nacional. Estima-se que 25% da população da Ucrânia tenha o russo como sua língua materna e cerca de 7,5 milhões de ucranianos se identifiquem com os russos, sendo a maioria desta parcela da população habitante do leste do país.[3] Soma-se a tudo isso a falta de fronteiras naturais, tais como montanhas e rios, o que intensifica a porosidade dos territórios ao leste da Ucrânia.

Não obstante, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma aliança militar entre diversos países do Ocidente, que tem como principal membro os Estados Unidos, passou a discutir nos últimos meses a entrada da Ucrânia como integrante, o que provocou um imediato descontentamento no presidente russo, oferecendo-lhe mais motivação para atacar o país vizinho.

Enquanto isso, para o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, o conflito representa mais uma oportunidade de posicionamento controverso, fortalecendo a imagem isolacionista por ele adotada. Sem posição oficial do Itamaraty com relação à crise entre os dois territórios até metade do dia 24, o Brasil novamente passou a comprometer o seu já renomado histórico de país neutro e diplomático. Em comunicado enviado à imprensa, o Itamaraty afirmou que “o Brasil apela à suspensão imediata das hostilidades e ao início de negociações conducentes a uma solução diplomática para a questão, com base nos Acordos de Minsk e que leve em conta os legítimos interesses de segurança de todas as partes envolvidas e a proteção da população civil.”

Observando a forma pela qual o Brasil está se “posicionando” perante a crise instaurada, Jen Psaki, conselheira política americana que atua como a 34ª e atual Secretária de Imprensa da Casa Branca, afirma que o “Brasil parece estar do lado oposto à comunidade global”, declaração que veio à tona após ser questionada sobre qual seria a opinião do presidente Joe Biden quanto à declaração de solidariedade à Rússia feita por Bolsonaro, durante encontro deste com Putin em Moscou dias antes da invasão russa na Ucrânia.

Sobretudo, como apontado por Jens Stoltenberg, Secretário-Geral da OTAN, as ações desempenhadas por Putin se configuram em uma grave violação do direito internacional e uma séria ameaça à segurança euro-atlântica. Muito provavelmente, conforme aduzem diversos analistas, este pode ser um dos momentos mais críticos em termos geopolíticos e econômicos, desde o final da Guerra Fria – período de tensão geopolítica entre a União Soviética e os Estados Unidos, em 1991.Embora possa parecer distante de nossa realidade, a guerra na Ucrânia terá impactos graves, por exemplo, no que tange aos refugiados e na econômica mundial, tal como o aumento de preço do petróleo, que já superou os US $100, pela primeira vez em mais de sete anos.

As sirenes na Ucrânia, que pelo visto ouviremos, infelizmente, por muito tempo, se referem a desdobramentos de um conflito previsível e que, na realidade, não iniciou na última quinta-feira (24).

Notas

[1] Território Russo. Disponível em: https://consrio.mid.ru/web/consrio-br/informacao-geral-da-russia > Acesso em 22 de fevereiro de 2022.

[2] Invasão militar da Rússia à União Europeia. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2022/02/24/A-invas%C3%A3o-militar-da-R%C3%BAssia-%C3%A0-Ucr%C3%A2nia-explicada-em-5-mapas > Acesso em 22 de fevereiro de 2022.

[3] Who will stop Putin? Disponível em: https://theweek.com > Acesso em 22 de fevereiro de 2022.

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