Rondônia e o Covid-19: o novo ano em colapso e descontrole* 

Rondônia e o Covid-19: o novo ano em colapso e descontrole* 

REDAÇÃO

05 de março de 2021 | 09h43

Patrícia Mara Cabral de Vasconcellos, Doutora em Relações Internacionais (UnB) e Professora da Universidade Federal de Rondônia (DCS/DHJUS/UNIR)

Márcio Secco, Doutor em Filosofia (UFSC) e Professor da Universidade Federal de Rondônia (DFIL/DHJUS/UNIR).

Quando o caos e as incertezas do ano de 2020 pareciam, ao menos na imaginação popular, ter ficado no passado com o anúncio da aplicação de vacinas em outros países e as esperanças renovadas pelo ano novo, a realidade brasileira favorecia um enredo de tragédia. Aglomerações motivadas por informações que minimizavam o risco da contaminação, necessidades de trabalho, campanhas eleitorais e votação, contexto de férias e festividades do Natal e Ano Novo formaram a base para o aumento do número de casos no país.

Em Rondônia, o pico dos casos ativos na chamada primeira onda do Covid-19 registrou em 29 de junho de 2020, 11.827 casos ativos no Estado. Números que foram reduzidos até a data de 26 de outubro com 5.370 casos quando voltaram a aumentar atingindo o pico, em 27 de janeiro de 2021, com 19.417 casos ativos, ou seja, aproximadamente 61% de casos a mais do que no primeiro pico. Em 4 de março de 2021, Rondônia registrava 15.527 casos ativos de um total de 154.111 casos confirmados. No mesmo dia, o número de mortes por Covid-19 atingiu o recorde de 47 em 24 horas.

Figura 1: Casos ativos em Rondônia (17/03/2020 a 04/03/2021)

Fonte: Sesau-RO.

Desde o dia 17 de janeiro, o governo de Rondônia estabelecia medidas mais rígidas de isolamento social, instituindo toque de recolher das 20h às 6h e proibição de venda de bebidas alcoólicas das 18h às 6h. Contudo, as medidas não foram suficientes e Hildon Chaves (PSDB), prefeito reeleito da capital do Estado, Porto Velho, anunciou no dia 23 de janeiro o colapso da rede de saúde da capital. Não havia mais leitos de UTI. Na mesma data, o governo de Rondônia pediu ajuda ao Ministério da Saúde e a outros Estados da federação para transferir pacientes de COVID-19 que necessitavam de internação clínica ou em UTI.  Treze pacientes, com idades entre 21 e 79 anos, foram transferidos para Curitiba no dia 25 de janeiro, enquanto outros pacientes aguardavam transferências para Canoas ou Porto Alegre, no total de 65. O colapso é atribuído por especialistas a pelo menos três fatores: baixa adesão às medidas de isolamento social desde os últimos meses de 2020; dificuldades para contratação de médicos e outros profissionais de saúde; surgimento de novas variantes do coronavírus que parecem combinar maior capacidade de contágio e maior gravidade da doença.

O baixo índice de isolamento social talvez se explique pelas contradições geradas pela realidade pandêmica entre a sobrevivência cuja manutenção depende da renda e do trabalho e o risco de contaminação e da morte gerado pela circulação de pessoas. Chama atenção o fato de que dois dias depois de anunciado o colapso da rede de saúde, uma carreata de empresários e lojistas solicitava a abertura do comércio e para amenizar os efeitos dessa medida, a abertura de novos leitos de UTI. A mensagem é clara, o problema não é morrer de Covid-19, mas morrer sem receber a assistência médica que poderia salvar a vida. Ao mesmo tempo, continua a percepção dessa parcela da sociedade de que o colapso da economia local poderia causar danos tão ou mais graves do que a pandemia. Persiste a ideia em parte dos manifestantes de que somente grupos de risco deveriam ficar em isolamento. A pressão para que haja a retomada as atividades escolares, em especial em instituições privadas, é uma característica da visão relatada e da desigualdade entre as condições de vida e ensino.

Como se a situação já não tivesse contornos suficientemente trágicos, o Ministério Público de Rondônia instaurou no dia 26 de janeiro de 2021 inquérito civil público para investigar uma possível fraude do governo estadual ao informar o número de vagas de UTI disponíveis. Segundo o MP, o governo de Rondônia teria informado disponibilidade de um número maior de vagas, manipulando os dados no intuito de evitar a adoção de medidas mais restritivas. Os leitos teoricamente existiam, mas seriam de um hospital de campanha desativado sem médicos para operá-los, o que significa que deveriam ser considerados como inutilizáveis. Segundo o MP, um dos indícios da manipulação dos dados era a existência de uma lista de espera de pacientes para internação em UTI ao mesmo tempo em que os relatórios do governo informavam disponibilidade de leitos.

Entre medidas restritivas incompletas, pois buscavam manter o funcionamento de estabelecimentos comerciais, ainda que com capacidade reduzida, surge um descontrole com relação a capacidade de gerir o avanço da doença. Ou seja, se de um lado tentou-se assegurar alguma continuidade das atividades econômicas, garantindo inclusive o prosseguimento de obras públicas e privadas, por outro, esgotaram-se os meios de atendimento da população de infectados que precisam de internação.

A fala do secretário da saúde de Rondônia, Fernando Máximo, em 25 de fevereiro alerta que todos os leitos de UTI do Estado estão ocupados. Adicionalmente, ressalta que não é possível ampliar o número de leitos e que faltam profissionais de saúde. A transferência de pacientes também é comprometida, pois os outros Estados começam a negar vaga por estarem, do mesmo modo, vivenciando o colapso da rede de saúde. Em outras palavras, há descontrole e não há alternativas que não o isolamento social. Já que não há como ampliar os leitos, realiza-se a compra de túmulos no cemitério privado. No início do mês de março, os espaços para novas covas nos cemitérios públicos da capital estavam esgotadas. Colapso, descontrole e morte estão alinhados. No dia 4 do referido mês, o Estado contabilizava 2.991 óbitos por coronavírus.

No decreto publicado em 2 de março de 2021, novas restrições são impostas, sendo estabelecida a restrição provisória de circulação de pessoas em espaços e vias públicas, bem como atividades comerciais, no horário das 21h às 6h, de segunda a sexta-feira, com as devidas exceções. Aos finais de semana só é permitido o funcionamento de serviços essenciais. As aulas na rede privada que haviam sido autorizadas em fevereiro foram suspensas. Quanto tempo será necessário para controlar a situação é incerto.

Um pequeno alento para a trágica situação é a vacinação que ainda ocorre em passos lentos. Segundo dados divulgados em 04 de março de 2021, 47.994 pessoas receberam a primeira dose da vacina e 10.374 pessoas a segunda dose. Contudo, com uma população de aproximadamente 1,7 milhão de habitantes e as incertezas em torno da capacidade de produção mundial e fornecimento de vacinas, esses números ainda estão longe de representar alguma tranquilidade ou uma rápida mudança de cenário.

*Artigo revisto, ampliado e integrante do projeto: SANTANA, Luciana (org). V Série especial ABCP: Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia no Brasil. Site Associação Brasileira de Ciência Política: 08 a 12 de fevereiro de 2021.

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