Retomada da economia e Covid-19: o retorno ao trabalho requer planejamento e técnica

Retomada da economia e Covid-19: o retorno ao trabalho requer planejamento e técnica

REDAÇÃO

19 de maio de 2020 | 17h48

Helyn Thami é Especialista em Saúde da Família pela ENSP/Fiocruz, Mestre em Gestão e Políticas Públicas em Saúde pela Universidade de Birmingham (UK) e pesquisadora do IEPS

Arthur Aguillar é economista formado pela PUC-Rio e mestre em desenvolvimento internacional pela Harvard University, Arthur Aguillar é pesquisador de políticas públicas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde. Dedica-se à fronteira entre a gestão pública e a pesquisa aplicada

Gabriela Lotta é Professora de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas;  coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB- FGV EAESP) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM)

 

Os dados são eloquentes: pensar na retomada de atividades econômicas agora é precipitado na esmagadora maioria das cidades brasileiras assoladas pelo novo coronavírus. Contudo, apesar de localizada erradamente no tempo, a discussão da volta ao trabalho precisa ocorrer, sobretudo sob a ótica de como deve ser o espaço de trabalho para garantir um retorno seguro.

Não se pode negar a nossa natureza indoor enquanto sociedade moderna. Passamos cerca de 90% de nosso tempo em ambientes fechados. No mínimo, e com sorte, passamos 8 horas em espaços de escritório, onde se realizam as atividades laborais. Os espaços de trabalho, em grande parte, são potencialmente perigosos quando se trata de disseminação de doenças, o que é especialmente alarmante no caso de viroses respiratórias – frequentemente potencializadas por aglomerações, proximidade física e má circulação de ar. Isso traz à tona a urgente necessidade de pensar a estrutura e organização desses espaços, a fim de torná-los fatores de não exposição a riscos.

A insalubridade de nossos espaços de trabalho não é exatamente novidade. Até a década de 70, os escritórios e espaços corporativos tinham como espinha dorsal a mentalidade de proteção contra doenças infecciosas. Por essa razão, os prédios e espaços fechados eram planejados para permitir a melhor circulação e entrada de ar externo, por exemplo. Houve, contudo, uma grande translação de mentalidade após a década de 1970, de modo que a racionalidade do planejamento dos espaços de trabalho passou a privilegiar a conservação energética. Em consequência, esses espaços se tornaram “envelopes”, ou seja, foram tendo cada vez menos comunicação com o meio externo. Talvez algo bom para a conservação energética, mas péssimo para a manutenção da saúde dos seres humanos que ocupam e utilizam o espaço. Surge daí o conceito de sick buildings.

A crise está, portanto, acelerando uma revisão imperiosa (em termos conceituais e práticos): trazer novamente o fator humano para o centro da discussão dos espaços de trabalho. Tais espaços precisam, em última análise, nos proteger ou, ao menos, não oferecer riscos. Para isso, pode-se evocar um modelo antigo e extremamente útil para pensar as etapas ou níveis de proteção ao trabalhador, de modo a orientar a preparação dos ambientes de trabalho para a reabertura. O modelo se chama Hierarquia de Controle e é amplamente usado no campo de saber da Saúde Ocupacional.

O mais alto nível da hierarquia é a Eliminação. Nesse nível, os trabalhadores que não necessitam estar presencialmente na organização são autorizados a trabalhar exclusivamente de modo remoto, de suas casas. Cabe ao empregador garantir as condições para que isso aconteça, caso o trabalhador não tenha acesso a algum insumo necessário (internet, computadores, etc.). Se for possível eliminar o risco de exposição para toda a força de trabalho, é isso que deve ser feito.

Logo abaixo, temos a Substituição. Aqui, se elegem os trabalhadores essenciais que precisam ser mantidos em regime presencial. Isso exige uma análise estratégica por parte das lideranças, de modo que sejam pensadas lógicas de segmentação do trabalho e novos fluxos de comunicação entre quem trabalhará presencialmente e quem atuará de modo remoto.

Em seguida, há o Controle de Engenharia. Nesse nível, são pensadas questões estruturais como ventilação, qualidade da água, troca de filtros de ar condicionado e instalação de purificadores de ar para garantir um espaço seguro.

Há, também, o Controle Administrativo. Aqui se privilegiam as estratégias de redução da densidade de pessoas nos ambientes compartilhados. A esse nível cabem estratégias de implementação de turnos e rodízios, limitação da presença de visitantes, proibição de reuniões presenciais, reorganização de salas e estações de trabalho para garantir distanciamento adequado, gestão de filas e controle de entrada em elevadores, rotinas de limpeza, etc.

Por fim, há o nível de Equipamento de Proteção Individual. Aqui cabe levantar o nível de risco de cada função e especificar os artífices adequados a elas. Deve haver mecanismos internos de enforcement para o correto uso em áreas comuns. Vale ressaltar que esses níveis estão organizados em ordem decrescente de efetividade e de necessidade de controle e supervisão. Logo, os níveis mais altos da hierarquia devem ser preferidos, quando possíveis e viáveis.

As categorias ou níveis apresentados nesse modelo mostram que as lideranças organizacionais devem começar a planejar o retorno já, ainda que ele não vá (e não deva) se concretizar em curtíssimo prazo. A adequação não só dos espaços, mas dos processos de trabalho é imperiosa para que se garanta a saúde dos trabalhadores e também a produtividade. A reabertura requer, simultaneamente, muito planejamento e bons níveis de flexibilidade – é possível que tenhamos que retroceder em muitas decisões conforme a Covid-19 avança. Todos devemos estar preparados para isso.

A retomada econômica responsável será necessária, mas há um grande dever de casa a ser feito se quisermos tocá-la ética e conscienciosamente. Líderes organizacionais – nos setores público e privado – devem se comprometer com planos de volta ao trabalho que observem as dimensões aqui apresentadas. Existem custos agregados a essas ações, mas este é razoavelmente baixo e podem ainda ser compensados por redução de outros gastos, como de transporte e luz com redução de profissionais trabalhando presencialmente. Mas, ainda que os custos fossem altos, eles deveriam ser arcados, uma vez que nenhum lucro deve se sobrepor à vida humana. Caberá ao Estado garantir que nenhuma atividade econômica seja liberada sem que as devidas precauções sejam tomadas. Deve-se orientar, fiscalizar e punir, quando preciso.

Como potencial legado disso tudo teremos uma profunda revisão e reordenação dos espaços de trabalho adoecedores aos quais nos acostumamos. Mas mais do que isso, devemos trazer novamente à centralidade o bem-estar humano no uso e ocupação dos espaços interiores comuns.

 

 

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