Responsabilidade social corporativa para além do básico

Responsabilidade social corporativa para além do básico

REDAÇÃO

27 de novembro de 2020 | 09h37

Amon Barros, é professor da University of Essex e da FGV EAESP

 

A morte violenta de João Alberto Silveira Freitas, no dia 19 de novembro, dentro do Carrefour e causada por seguranças trabalhando para a empresa levanta diversos debates necessários. Além de reiterar o racismo que perpassa a sociedade brasileira e fundamenta decisões instantâneas repletas de preconceito, trouxe à tona também a necessidade de se discutir a responsabilidade das empresas sobre o que acontece em seus estabelecimentos.

Num outro texto nesse espaço, discutimos que uma forma da empresa mostrar que se importa seria internalizar a segurança, dada a importância desse setor para os varejistas em geral. Mas, além disso, as empresas têm responsabilidade sobre os fornecedores, em particular, e em relação às pessoas e outras organizações com as quais se relaciona, de forma mais geral.

Empresas precisam monitorar práticas antes de estabelecer acordos com fornecedores de produtos ou serviços. É necessário que não violem os direitos dos seus trabalhadores e clientes, claro, mas que também que não facilitem violações por parte de terceiros, como já se discute na literatura. Além disso, há, pelo menos, responsabilidade subjetiva quando contratações malfeitas ensejam desrespeito à dignidade das pessoas.

Isso é ainda mais candente, se considerarmos que o Carrefour teve prenúncios da necessidade de transformar sua cultura e incorporar o respeito aos direitos humanos nos processos decisórios em todos os níveis. Assusta a denúncia, feita por ex-fiscal da empresa, que afirma que a violência era autorizada, e que haveria um espaço para ocorrer longe das câmeras.

No caso em tela, a empresa parece ter assumido a responsabilidade sobre o acontecimento. Entretanto, é necessário ir além e se transformar de verdade. Sugiro quatro situações nas quais as empresas devem ser responsabilizadas por violações de direitos. Primeiro, sempre que violações aconteçam em nome de seus interesses. Por exemplo, por exemplo, quando um agente atua diretamente colocando fogo em vegetação nativa. Segundo, quando um empregado ou associado viole um direito em benefício da organização (por exemplo, impedir o direito de ir e vir de pessoas). Terceiro, quando a cultura da organização é permissiva com violações (assédio moral contra funcionários, ou violência contra pessoas membras de certos grupos, por exemplo). Por fim, e o foco aqui, também quando por imprudência a organização firma acordos com empresas ou pessoas que violam direitos e, assim, se torna beneficiária indireta dessas violações. Exemplos, seriam comprar produtos vindos de áreas desmatadas ou, mesmo, contratar seguranças sem observar sua capacitação adequada ou seu treinamento para lidar com o público.

A criação de um comitê externo para monitorar práticas, como fez o Carrefour, é bem-vindo. Mas, é necessário que a gestão das empresas compreenda que a ética e o respeito aos direitos deve ser algo entranhado em todos os processos decisórios, ou sempre haverá espaços para lapsos. Isso se refere ao combate ao racismo, mas também a outras situações nas quais as empresas podem ser agentes positivos ou negativos. Pensar que o respeito à padrões éticos elevados é ir contra o lucro, é um pensamento de curto prazo, mas que também ignora que pessoas e organizações devem assumir que tem deveres para com a sociedade em que se inserem.

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