Reputação e a crise do Coronavírus

Reputação e a crise do Coronavírus

REDAÇÃO

22 de maio de 2020 | 16h50

Alketa Peci, professora da FGV/EBAPE

Aline Santos e Juliana Carvalho, doutorandas FGV/EBAPE

 

A reputação é um recurso valioso burocrático, porque permite a um órgão público tomar decisões de políticas públicas com maior autonomia. Ainda, quando os cidadãos compartilham crenças positivas acerca da reputação de um órgão, eles tendem a enxergar suas decisões como mais legitimas e a demonstrarem maior disposição para mudarem seu comportamento de acordo com as orientações recebidas.

A crise da Covid-19 coloca no palco da gestão da crise vários atores político-burocráticos, como o Ministério da Saúde, o da Economia, e a própria Presidência da República. O trade-off de valores impostos pela pandemia – defesa da vida versus defesa da economia – já desencadeou uma verdadeira guerra territorial, com posicionamentos e ações ministeriais não congruentes, particularmente no que diz respeito a melhor estratégia coletiva de enfrentamento da pandemia. Este conflito é ilustrado pela defesa do isolamento social amplo, por parte do Ministério de Saúde e do ex-Ministro Mandetta e pela defesa do isolamento vertical, por parte do Presidente Bolsonaro, que apoia medidas restritivas para o grupo de “risco”, em defesa do emprego e da economia.

Como as mensagens em defesa ou não do isolamento social mais amplo emitidas por cada um destes órgãos são recebidas pela população? A reputação da Presidência da República e do Ministério da Saúde influencia a disposição de aderir ao distanciamento social horizontal durante a pandemia do Covid-19? Para responder a estas perguntas realizamos uma pesquisa que contou com a participação de 1.797 voluntários, de 25 estados, relativamente equilibrada do ponto da identificação ideológica, com 58% de participantes com perfil de orientação ideológica mais à esquerda.

Primeiramente, a pesquisa demonstra que, de forma geral, os respondentes avaliam melhor o Ministério da Saúde de que a Presidência da República (na média, a reputação do MS é 37 pontos percentuais superior à da Presidência da República.). É importante também observar que a reputação está associada a dimensões concretas de ação e do discurso dos respectivos órgãos. Entre os motivos que podem ser atribuídos à melhor reputação do Ministério da Saúde destacam-se sua conformidade com o protocolo da Organização Mundial da Saúde (83%), o respaldo de seus atos em evidência científica (75%) e a valorização da universalidade do SUS (38%). Por outro lado, as pessoas que avaliam positivamente a reputação da Presidência da República, atribuem esta crença reputacional à defesa dos cidadãos mais vulneráveis dos impactos da pandemia (46%), e à valorização da preservação dos empregos (25%).

Por fim, a reputação do MS é substancialmente maior (4, numa escala de 1 a 5) do que a da PR (1,76, numa escala de 1 a 5), entre os respondentes que aderem a medidas mais rigorosas de distanciamento social. Mesmo entre os respondentes que tendem a não aderir às medidas de distanciamento social, a reputação da PR é de 2,62, enquanto a reputação do MS é de 3,57, abaixo da média da nossa amostra.

Nossa pesquisa revela que a congruência das mensagens em prol de distanciamento social com o órgão com reputação mais positiva, no nosso caso, o Ministério da Saúde, é importante para incentivar comportamentos mais aderentes ao isolamento social. A pesquisa também reforça que a população avalia a reputação dos órgãos burocráticos em torno de dimensões concretas associadas ao discurso e à atuação de cada órgão. A reputação do Ministério da Saúde se sustenta na dimensão técnica da reputação, refletida na tomada de decisão baseada em evidências científicas e de acordo com as orientações da OMS. Acreditamos que a atuação do Ministro Mandetta deu voz a esta dimensão técnica da reputação, porque o ex-ministro foi capaz de transmitir à população a relevância destes aspectos técnicos que pautavam a atuação do ministério no combate da Covid-19.

Nas últimas semanas, o Ministério da Saúde, o órgão central da gestão da crise sanitária, perdeu duas lideranças máximas e modificou substancialmente os sinais reputacionais que transmite à população. Saem dois médicos que se orientaram pela primazia da evidência cientifica e fica um interino, com experiência em logística militar. A mudança dos ministros já se refletiu na mudança da postura do ministério, que, subjugando-se à preferência presidencial, aprovou o protocolo de cloroquina.

Na prática, com a mudança da liderança e das mensagens reputacionais transmitidas à população, o Ministério da Saúde corre o risco de uma perda irrecuperável de reputação. A gestão Mandetta já se refletia numa maior legitimidade de atuação, como demonstrada por várias pesquisas de opinião, que indicavam um apoio amplo popular ao ex-ministro[1]. Cerca de 68% dos nossos respondentes também acreditam que o controle da pandemia se tornaria pior com a saída do Mandetta como ministro da saúde. Quando a mudança do ministro se transforma em mudança de protocolos, se afastando da evidência científica de ponta, o dano reputacional se concretiza e o mensageiro que defendia com maior forca a estratégia de distanciamento horizontal, o Ministério da Saúde, tende a perder credibilidade e a influenciar cada vez menos os comportamentos sociais.

Será que com o mensageiro, matamos também a força da mensagem a favor de um distanciamento social mais rigoroso? Os indicadores decrescentes de isolamento social adotadas pela população já indicam que sim…

 

[1] https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/04/03/xpipespe-avaliacao-de-bolsonaro-e-a-pior-de-serie-44percent-rejeitam-e-28percent-aprovam.ghtml 

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