Repensando o papel da universidade em tempos de pandemia e além…

Repensando o papel da universidade em tempos de pandemia e além…

REDAÇÃO

29 de abril de 2020 | 20h23

Peter Kevin Spink, Professor emérito da FGV EAESP. Atualmente é pesquisador sênior do CEAPG e coordenador do seu programa de vulnerabilidade.

André Luís Nogueira da Silva, Doutorando em Administração Pública e Governo na FGV EAESP e analista do IBGE. Colabora com pesquisas no CEAPG e no Departamento de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Raquel Sobral Nonato, Doutoranda em Administração Pública e Governo na FGV EAESP e pesquisadora do CEAPG. Atualmente é Visiting Scholar na École des Hautes Etudes Commerciales de Montreal (HEC Montreal)

A crítica sobre a desconexão entre a universidade e seu entorno tem se acentuado em várias partes do mundo. Comumente avaliados a partir do impacto internacional de suas produções científicas, os docentes – e a universidade de uma maneira geral – acabaram por conferir mais atenção às agendas internacionais, muitas vezes, relegando a segundo plano questões específicas do território que habitam. No Brasil, apesar de algumas experiências exitosas, o preceito constitucional de indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão ainda caminha a passos lentos, já que cada uma dessas funções percorre trajetos próprios e angaria uma desigual escala de importância.

Resumindo boa parte desse debate, a ideia de universidade cívica1 sugere que, diferente da convencional separação “internacional”, “nacional” e “local”, é preciso que haja um novo equilíbrio e direcionamento dos trabalhos investigativos e práticos. Tal concepção encoraja a adoção de uma gestão colaborativa e participativa, capaz de promover maior articulação entre atores locais (indivíduos, instituições e grupos sociais) e com suas demandas e saberes. Além disso, a noção de pertencimento ao lugar seria chave para reposicionar o papel das universidades no enfrentamento dos desafios da sociedade e na resolução de problemas específicos.

Em tempos de pandemia, o que vemos é uma grande mobilização de países, agências internacionais e equipes de investigação a partir da constituição de redes de colaboração não só globais, como nacionais e locais. A cada notícia sobre uma pesquisa sendo desenvolvida relacionada ao diagnóstico e tratamento da Covid-19, bem como dos prognósticos desenhados diante de uma crise multifacetada, aumenta a percepção da relevância da universidade para a geração de conhecimento e a tomada de decisão em diferentes escalas. Há, e continuará a ter, muitas questões a serem respondidas, mas desde já fica claro que a chegada da doença em países diferentes gera situações diferentes, respostas distintas e práticas inovadoras. Não há, portanto, uma receita de bolo, porque não há um bolo singular. A busca do conhecimento vai do geral ao específico, ao mesmo tempo em que vai do específico para o geral e do específico para o específico, sendo reinventada ao longo do caminho.

É frequente o comentário que o mundo será diferente depois desses próximos anos, algo que vai muito além da nossa capacidade individual de fazer previsões. No entanto, podemos, sim, perguntar se a discussão sobre a atuação da universidade que perdurava em novembro de 2019 se modificou nos meses que se seguiram. Afinal, como as universidades brasileiras estão se inserindo, civicamente, no enfrentamento do Covid-19?

O Centro de Estudos em Administração Pública e Governo (CEAPG) da FGV EAESP ao longo do tempo tem se preocupado com a identificação de práticas inovadoras na área da ação pública brasileira, entendendo a arena pública como algo bem mais amplo do que o espaço tradicional estatal. Nesse momento, registrar exemplos de como a coletividade acadêmica brasileira está buscando responder aos desafios da crise é importante para, de um lado, estimular um maior engajamento cívico e, de outro, pensar sobre como, no futuro, podemos utilizar melhor esses mesmos talentos para responder a uma série de outras questões que, em ritmos diferentes, são tão avassaladoras quanto o Covid-19.

Nessa direção, merece destaque o ativismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que tem participado de várias frentes de combate aos efeitos da pandemia, articulando-se com atores públicos e privados e buscando contribuir, principalmente, com soluções tecnológicas e de gestão. Além da produção de álcool e de EPIs, do estudo para construção de um respirador de baixo custo e da criação de uma plataforma digital para o monitoramento da doença – iniciativas tomadas por inúmeras universidades no país –, o engajamento da UFRN tem se efetivado principalmente por meio de seu Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS). Criado em 2011 no Hospital Universitário – portanto, assumindo um viés prático –, o LAIS possui um histórico de parcerias com a OMS, a FIOCRUZ, a Escola de Saúde Pública de Harvard, a Organização Pan-Americana da Saúde e a indústria brasileira de equipamentos de saúde. Dentre as ações inovadoras, está a criação do “Ecossistema de Inovação LAIS-SESAP – Combate à Covid19”, em parceria com a Secretaria de Saúde do Estado (SESAP) e com o Instituto Federal de Educação (IFRN), que amplia o desenvolvimento e o uso de Tecnologia da Informação em várias áreas do governo estadual. Ademais, seus pesquisadores compõem um comitê de especialistas criado pela SESAP para orientar as decisões estaduais no enfrentamento dos efeitos da pandemia.

O exemplo do LAIS/UFRN demonstra como as universidades podem atuar de maneira enfática e ágil na resolução de problemas complexos, articulando-se com atores de distintas escalas geográficas (internacional, nacional e local) para construir soluções territorialmente situadas. Este caso, que não é único no Brasil, traz consigo a importância de ações colaborativas e engajadas por parte da universidade. Elucida, principalmente, o potencial de um agir universitário que desfaz muros e cujo propósito é melhorar a vida das pessoas de seu entorno. Que a crise sanitária produza este legado positivo, sedimentando a noção de que a universidade habita um lugar e que este lugar deve ser visto como prioridade institucional.

Este texto faz parte de uma série de artigos escritos por pesquisadores do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo (CEAPG) da FGV EAESP – https://ceapg.fgv.br.

 

1 Maiores informações, ver o relatório produzido pela Estação de Pesquisa Urbana M’Boi disponível em

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