Remoção do dislike no YouTube torna plataforma menos inclusiva e democrática e enfraquece seus usuários

Remoção do dislike no YouTube torna plataforma menos inclusiva e democrática e enfraquece seus usuários

REDAÇÃO

30 de novembro de 2021 | 17h09

Lucas Busani Xavier, Graduado e Mestrando em Administração de Empresas (FGV – EAESP), estuda comunidades online de pirataria e consumo de videogames retrô

No começo de novembro deste ano, o YouTube anunciou através de seu Blog Oficial que removeria de todos os vídeos da plataforma a visualização do contador de dislikes. A medida não faz com que o botão deixe de existir, nem que usuários não possam mais dar dislike em um vídeo, ou mesmo com que a métrica deixe de ser contabilizada e que o dono do canal consiga visualizá-la, mas a contagem de dislikes simplesmente deixa de aparecer para os usuários em qualquer vídeo. Agora, no final do mês, a mudança já está em vigor.

Tanto no anúncio oficial como no vídeo explicativo publicado no canal dedicado a criadores da plataforma, a empresa reafirma como a decisão foi tomada a partir de experimentos realizados nos últimos meses por equipes internas, buscando lidar com um grande problema que seus criadores, especialmente de menor porte, tem lidado: o uso do botão de dislike como forma de assédio digital coordenado por grupos de ódio.

O problema apontado pelo YouTube é real, assim como grave. Os efeitos psicológicos negativos criados pelas redes sociais vem sendo evidenciados sistematicamente nos últimos anos, sendo que até mesmo os relatórios internos das próprias empresas têm reforçado tal entendimento (Newton, 2021; Seetharaman, 2021). Juntando isso a tal “cultura do cancelamento” evidenciada nos últimos anos pela mídia brasileira, mesmo que esta seja uma versão mais mastigada e com toques de pânico moral de práticas mais do que comuns na internet, há de se concordar que ações que busquem lidar com tais problemas se fazem necessárias e urgentes.

Porém, ainda que a argumentação trazida pelo YouTube possa ser considerada uma justificativa legitima, ela esconde uma realidade menos nítida, mais complexa e um tanto quanto problemática.

Em primeiro lugar, a forma com que a decisão foi tomada não bate tão bem com a narrativa contada. Suponhamos que um criador de conteúdo fictício está sendo “cancelado” por um grupo extremista ideológico também fictício por defender ideias fictícias e contrárias a tal grupo – fictício. De acordo com o que relata o YouTube, parte dos membros de tal grupo seria desencorajada ao abrir o vídeo de tal criador e não ver um número bem grande de dislikes e, assim, não apertaria o botão.

Fora da bolha experimental criada, porém, na realidade, tanto o criador quanto esse grupo não só possuem mais ferramentas de interação dentro do próprio YouTube – como os comentários – ambos também se encontram em diversas outras redes sociais, como Facebook, Instagram Twitter, Reddit etc. Não faltam, portanto, formas pelas quais tal grupo possa assediar, ameaçar, aterrorizar e atacar tal criador, sendo a remoção do dislike apenas uma dentre uma gama de possibilidades ofertadas pelas redes.

Partindo dessa mudança concreta realizada pelo YouTube, interessante pensar essa realidade com a Teoria das Affordances, nascida da psicologia ecológica (Gibson, 2014) e que tem sido trazida para estudos de comportamento dentro de plataformas online (Bucher & Helmond, 2018; Kozinets et al., 2021).

Podemos entender affordances como as possibilidades de ação que nos são oferecidas pelo ambiente no qual nos encontramos (Bygstad et al., 2016). A partir desse conceito, quando buscamos entender o comportamento dos indivíduos nas redes sociais, devemos considerar quais são as possibilidades que cada plataforma digital fornece para ele e, apenas a partir disso, considerar a agência que cada indivíduo tem sobre suas ações (Bucher & Helmond, 2018).

Sob essa ótica, vemos como, por um lado, a decisão do YouTube se mostra coerente ao tirar uma possibilidade de ação de indivíduos mal intencionados, mas, de outro, o faz sobre uma das possibilidades de ação menos relevantes e impactantes quando o assunto é assédio online. O que também nos leva ao segundo ponto de problematização: não somente a remoção do contador de dislikes se mostra pouco relevante perante outras formas de ataques de ódio a criadores, ela permite (ou permitia) outras possibilidades de ação que passam a deixar de existir.

Dentre essas possibilidades, uma das mais relevantes é o empoderamento dos consumidores (Kozinets et al., 2021) perante as marcas e corporações que, hoje, colonizam os espaços virtuais nas redes (Fuchs, 2021). Kozinets, Ferreira e Chimenti (2021) – as duas últimas autoras, brasileiras – reforçam que, como visto em seus estudos realizados no Reclame Aqui, a forma com que as plataformas digitais estruturam as formas de interação entre consumidores e corporações delimita o nível de empoderamento daqueles perante estes.

Tal empoderamento, no âmbito do consumo, pode ser entendido como “o fortalecimento das habilidades, direitos ou autoridade das pessoas para consumir ou alcançar seus objetivos como um ator no mercado” (Kozinets et al., 2021, p. 7, tradução livre do autor) e pode ser avaliado a partir de seis elementos básicos que o definem: voz, escolha, justiça, inclusão, catálise e elevação de consciência. Dos elementos propostos pelos autores, a ferramenta de dislikes opera em todos, e sua remoção impacta fortemente no nível de empoderamento permitido – ou “affordado”– pela plataforma.

O elemento voz se faz claro a partir das possibilidades de se fazer ouvido, de relatar insatisfações, problemas e abusos de maneira fácil, direta e, ainda mais importante, pública e de fácil acesso para demais consumidores, que esse elemento te estrutura. A escolha está muito associado ao acesso às informações necessárias, de forma aberta e transparente, para que se decida como agir, no caso, como consumir.

Justiça se dá nas plataformas, primordialmente, na possibilidade de reportar potenciais problemas para as devidas agências de defesa do consumidor. Inclusão corresponde a possibilidade de que consumidores operem ações coordenadas e de forma que tenha relevância perante os agentes do mercado.

A catálise está associada com inclusão, porém diz respeito mais às possibilidades de comunicação entre pares para sua organização. Por fim, elevação de consciência acontece quando, a partir das possibilidades de ação permitidas pelas plataformas, consumidores possuem ferramentas comunicativas e para criação e manutenção de conexões.

Sem o advento da contagem dos dislikes de forma pública, o YouTube inibe todos os elementos de empoderamento: é possível transmitir sua insatisfação com o conteúdo publicado em dado vídeo, mas essa insatisfação não somente é escondida de outros usuários, como a manutenção exclusiva do contador de likes cria uma realidade paralela, na qual dado vídeo, apesar de altamente rejeitado pelo público, aparenta ter uma enorme quantidade de votos positivos e nenhum negativo.

Tal realidade se agrava ao considerarmos como, especialmente nos aplicativos para celulares e tablets, o YouTube tem, pouco a pouco, escondido a sessão de comentários atrás de scrolls e cliques cada vez mais.

As ações da empresa podem até se sustentar numa argumentação de proteção de pequenos criadores – e que deveria ser levada muito mais a sério do que efetivamente é –, mas, os resultados efetivos são muito mais fortes na inibição do empoderamento do consumidor.

No mesmo mês da mudança já temos um caso emblemático do tipo de situação problemática que a mudança do YouTube promove: o vídeo de anúncio da Nintendo sobre seu plano de assinatura premium – denominado “Nintendo Switch Online + Expansion Pack” –, no qual, por R$ 262,99 pagos anualmente para um usuário individual ou R$ 421,99 pelo plano familiar para até 8 usuários assinantes têm acesso a uma biblioteca de jogos selecionados do Nintendo 64 (1996) e outra do Mega Drive (1989) – conhecido nos EUA como Genesis –, da Sega, e a DLC denominada “Happy Home Paradise” para o aclamado Animal Crossing: New Horizons (2020), caso o membro já tenha o jogo original comprado.

O anúncio foi altamente rejeitado por boa parte dos fãs da Nintendo: não apenas porque o pacote é muito acima da assinatura padrão – R$100,00 para a anuidade individual e RS$ 175,00 pelo plano familiar, com opções mensais e trimestrais ainda mais baratas –, como a oferta de jogos foi considerada desproporcionalmente baixa pelo preço, uma vez que a própria Nintendo possuía um programa de compra de jogos “retrô” baratos e que fugia do modelo de assinatura que destitui a posse do consumidor, como a DLC que acompanha ela depende do consumidor já possuir o jogo original.

Não é de se surpreender que, como vemos na Figura 1, o vídeo acumulava um total de 170 mil dislikes após 3 semanas do lançamento do vídeo, comparadas com 18 mil likes (uma relação de quase 10 para 1). Hoje, porém, como também vemos na Figura 1, não há nenhuma indicação do total de dislikes, apenas de likes, não ficando claro para alguém que venha a assistir tal vídeo da real recepção do anúncio por parte da comunidade consumidora.

Figura 1

Enquanto o vídeo continha a informação dos dislikes, qualquer pessoa que assistisse o vídeo estaria sendo “convidada” a entender melhor por que tal vídeo foi tão rejeitado. Esse convite daria a possibilidade de interação nos comentários, pesquisas sobre a notícia, engajamento com comunidades de fãs etc. Também, possibilitaria a visibilidade do grupo comunitário insatisfeito com o anúncio, trazendo potenciais adeptos e força para que o grupo seja ouvido pela empresa. Mesmo que essas sejam apenas possibilidades de acontecimentos, sem o contador de dislikes elas se tornam simplesmente impossibilidades.

É importante reforçar quantas vezes for necessário: o argumento de proteção de criadores, especialmente aqueles menores, de ataques de ódio, assédio moral e diversas outras práticas que se tornaram comuns no ambiente virtual deveria ser louvável, pois é um problema sério e que poucas plataformas sabem lidar.

Todavia, essa argumentação se mostra insuficiente para sustentar a decisão tomada, assim como incompatível e, até mesmo, insultante dado o oportunismo com a qual é utilizada: mesmo que a remoção dos dislikes tenha algum efeito para o público ao qual ele deveria ajudar, muitos criadores acreditam que por si só o efeito não será suficiente, uma vez que é através de outros recursos que tais casos de agressão se dão – como comentários, mensagens diretas e, também, por outras plataformas.

Ademais, também se mostra incoerente a manutenção do contador de dislikes dentro do sistema de gerenciamento de engajamento para que os criadores possam acessar. Se tal criador está passando por uma crise de ansiedade, depressão, ou o que for, por conta de ataques de ódio direcionados a ele, deixar essa métrica alguns cliques de distância é como deixar uma garrafa de pinga na sala de estar na casa de um alcoólatra em tratamento: é uma armadilha a qual a pessoa não tem forças para resistir e, inevitavelmente, sucumbirá.

Os males causados pela inibição das possibilidades de ação e supressão do empoderamento dos consumidores perante as grandes corporações que hoje dominam as plataformas são nítidos e perigosos. Cada vez mais espaços antes públicos – virtuais ou não – são colonizados por empresas que buscam expandir seu domínio sobre as pessoas, controlar suas ações e, obviamente, vender-lhes não apenas produtos, mas uma realidade que às convém.

A remoção do YouTube se mostra duplamente perversa, utiliza covardemente de um problema real para não o solucionar e, no lugar, tornar sua plataforma menos inclusiva, menos democrática e seus usuários mais fracos perante a si e as empresas que a dominam.

Referências

Bucher, T., & Helmond, A. (2018). The Affordances of Social Media Platforms. In The SAGE Handbook of Social Media (p. 233–253). SAGE Publications Ltd. https://doi.org/10.4135/9781473984066

Bygstad, B., Munkvold, B. E., & Volkoff, O. (2016). Identifying Generative Mechanisms through Affordances: A Framework for Critical Realist Data Analysis. Journal of Information Technology, 31(1), 83–96. https://doi.org/10.1057/jit.2015.13

Fuchs, C. (2021). Social media: A critical introduction. Sage.

Gibson, J. J. (2014). The Ecological Approach to Visual Perception: Classic Edition. Psychology Press. https://doi.org/10.4324/9781315740218

Kozinets, R. V., Ferreira, D. A., & Chimenti, P. (2021). How Do Platforms Empower Consumers? Insights from the Affordances and Constraints of Reclame Aqui. Journal of Consumer Research, 48(3), 428–455. https://doi.org/10.1093/jcr/ucab014

Newton, K. (2021, setembro 14). Social Media and Well-Being: Instagram’s Research and Actions | Instagram Blog. https://about.instagram.com/blog/announcements/using-research-to-improve-your-experience

Seetharaman, G. W., Jeff Horwitz and Deepa. (2021, setembro 14). Facebook Knows Instagram Is Toxic for Teen Girls, Company Documents Show. Wall Street Journal. https://www.wsj.com/articles/facebook-knows-instagram-is-toxic-for-teen-girls-company-documents-show-11631620739

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