Recomendações de políticas públicas para mulheres:  do Women 20 para os líderes do G20

Recomendações de políticas públicas para mulheres:  do Women 20 para os líderes do G20

REDAÇÃO

30 de setembro de 2020 | 16h23

Maria José Tonelli, é professora titular no Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos na FGV EAESP, onde também coordena NEOP – Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas e, desde 2016, é editora científica da RAE – Revista de Administração de Empresas e da GV Executivo.

 

A cúpula do G20 acontecerá nesse ano na Arábia Saudita, evidentemente de modo virtual pela pandemia. Vários grupos de engajamento preparam documentos para serem entregues aos governantes dos países participantes, com reivindicações e recomendações em torno de vários temas como “Business 20” (empresários), “Civil 20” (sociedade civil), “Science 20” (ciências), “Think 20” (“think tanks”), “Women 20” (mulheres), “Youth 20” (juventude) e a “G20 Young Entrepreneurs Alliance” (jovens empreendedores).

Ontem as representantes do Women 20, da Arábia Saudita, fizeram a entrega de documento que apresenta as recomendações de apoio às mulheres para os Sherpas (1) dos países do G20.  Além das recomendações de ações para a melhoria das condições de vida das mulheres, as delegadas do Women 20 (2) buscam fazer advocacy junto aos governos locais para que eles atuem em prol das mulheres.

Ao longo desse ano, as delegadas do W20, de todos os países do G20, se reunirão para a preparação de vários documentos, a serem finalizados num Summit, previsto para outubro desse ano, também virtualmente, na Arábia Saudita.

Realizado em 2015 na Turquia, em 2016 na China, em 2017 na Alemanha, em 2018 na Argentina e em 2019 no Japão, os documentos produzidos (chamados Communiques) tratam de diversas políticas que buscam promover o empoderamento econômico das mulheres, diminuir a discriminação no trabalho, alcançar proteção social para mulheres de todas as idades, entre diversas outras reivindicações necessárias para melhorar as condições de vida e trabalho das mulheres.

Ainda que tais reivindicações nem sempre sejam alcançadas de imediato, esse debate público mantém o espaço de conversação aberto, uma vez que a busca de igualdade pelas mulheres tem se colocado como um objetivo difícil de ser alcançado. Do feminismo à psicanálise, além de inúmeras e distintas abordagens das ciências sociais, várias explicações teóricas (e práticas) fornecem argumentos sobre as dificuldades de se fazer justiça numa causa tão evidente.  Nesse longo período de pandemia vive-se, inclusive, um retrocesso em conquistas antes alcançadas.

 

O manifesto apresentado aos Sherpas do G20 nesse ano, traz as seguintes recomendações:

       1. Garantir a representação igual das mulheres em todos os níveis de tomada de decisão em órgãos políticos e econômicos nacionais e                globais, inclusive nos setores privado e público.

  1. Aumentar significativamente o investimento em infraestrutura social para criar empregos e construir resiliência:

        – Fornecendo cuidados acessíveis e de qualidade para crianças, dependentes e idosos.

        – Aumentando a oferta e a igualdade de acesso a produtos e serviços de alta qualidade em saúde.

        – Garantindo o acesso e a participação de mulheres e meninas na educação, incluindo online, e ainda especial atenção ao treinamento           com para técnicas e educação vocacional, e-skills e oportunidades de aprendizado ao longo da vida.

 

  1. Desenvolver e financiar planos de ação para estimular a participação das mulheres emecossistemas de empreendedorismo e inovação, apoiando o surgimento, a expansão e a sustentabilidade de empresas pertencentes a mulheres, especialmente em comércio eletrônico e economia digital.

 

  1. Aumentar o acesso de mulheres e meninas à tecnologia digital, especialmente em áreas remotas e rurais, investindo em infraestrutura, conexão de alta velocidade e treinamento para melhorar suas habilidades.

 

  1. Desenvolver, em parceria com instituições financeiras públicas, privadas e bancos, produtos financeiros digitais inovadores e facilmente acessíveis para aumentar o acesso das mulheres a serviços financeiros.

 

  1. Fortalecer as estruturas e indicadores de monitoramento e avaliação do G20, apelando à OCDE para fornecer dados comparáveis ​​do G20 desagregados por sexo para estabelecer as linhas de base, medir o progresso e relatar sobre igualdade de gênero, em especial quanto aos compromissos contidos em comunicados e declarações do G20, alavancando as estruturas multilaterais existentes e os mecanismos de reporte”(3)

 

Pergunta-se, muitas vezes, porque a insistência nesse tema. Bem, uma razão óbvia é que se trata de uma questão de justiça. Mas outro fator, também evidente, é que, apesar de longos anos na busca de igualdade, as mulheres do mundo todo ainda experimentam severas discriminações, violências e feminicídio.

Espera-se que a repetição dessas reivindicações possa, em algum momento, ser ouvida e incorporada em políticas públicas claras que beneficiem as mulheres e, em consequência, num círculo virtuoso, a condição de vida e trabalho de crianças e jovens desse país.

 

 

(1) Sherpa é o termo para definir o líder de um país no G20.

(2) A delegação brasileira é composta por Ana Fontes (delegada líder), Camila Fernandes Achutti, Júnia Nogueira de Sá, Maria José Tonelli e Regina Célia Barbosa.

(3) tradução do texto original em inglês, pela delegação brasileira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.