Racismo, queremos enfrentá-lo?

Racismo, queremos enfrentá-lo?

REDAÇÃO

18 de junho de 2020 | 14h38

Eliane Barbosa da Conceição, Professora na Universidade da Integração internacional da Lusofonia Afro-Brasileira e pesquisadora do  CEAPG/FGV

 

Karl Marx  escreveu, em 1857, que o concreto, ou seja, aquilo que nos é apresentado como realidade indubitável, “só é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações”. Isso quer dizer que a realidade apreendida não é simples e dada, como nos parece. Analisando os fenômenos sociais a partir disso, questiono-me sobre os diversos eventos que ocorreram ao longo da História e deram forma às relações que hoje se estabelecem entre os africanos, e seus descendentes, e os brancos nos principais países que, entre os séculos XVI e XX, estavam envolvidos com a escravização e a colonização, incluindo os próprios países africanos. Sendo esta uma questão ampla, alguns pontos parecem ser centrais para compreendê-la.

Como se dão hoje as relações raciais entre negros[1] e brancos[2] em países da Europa Ocidental, Brasil e Estados Unidos e, inclusive, nos países africanos?  O que vemos é uma relação conflituosa em essência, em que um grupo sistematicamente se sobrepõe ao outro[3].  Mesmo que, na maioria das vezes, o conflito não seja flagrante, ele está lá, e cria uma visível barreira, que separa os dois grupos. Negros são o alvo preferencial das vulnerabilidades sociais, violência policial, vulnerabilidade à morte violenta, encarceramento, falta de oportunidade de trabalho descente e bem remunerado (mesmo nos “tempos áureos do capitalismo”), falta de representação política, falta de acesso a serviços de saúde, educação, saneamento básico. Em outras palavras, à pessoa negra é negado respeito, segurança, direitos, acesso, representação e oportunidade.

O que determinou o privilégio dos brancos vis-à-vis os demais grupos humanos?  Sabemos que o etnocentrismo, que é a disposição humana  para considerar o grupo social de pertencimento como superior aos demais, se apresenta como condição. Condição que, na Antiguidade, caminhou para uma forma de racismo, justificando a escravidão dos grupos tidos por bárbaros. Na Era Moderna, o eurocentrismo e o ressurgimento vitorioso da hipótese poligenista sobre a origem da humanidade deixaram como legado, mesmo depois de superada essa última, o sentimento de que a humanidade estava dividida em raças, sendo a branca, considerada superior. No século XX, somou-se a esse ideário, a noção de nacionalismo, que, na Alemanha, vinha ganhando corpo desde o início do século anterior. Diante disso, a escravidão e a colonização foram justificadas e mesmo incentivadas, diante do argumento de que a Europa civilizaria o mundo.

As formas de organização social e cultural das nações africanas foram aniquiladas. Seu povo, desrespeitado, sendo levados a acreditar que a cultura europeia, e tudo o que dela provinha, era superior à deles, e foram obrigados a abraçá-la, assimilá-la. Foram mortos em vida. Como disse Hanna Arendt em Origens do Totalitarismo, do ponto de vista político, a raça “não é o começo da humanidade, mas o seu fim, não a origem dos povos mas o seu declínio,  não o nascimento natural do homem mas sua morte antinatural.”

Para compreendermos como esses eventos históricos determinaram a forma das relações que hoje se estabelecem entre negros e brancos no interior dos países, é importante recorrer ao que se passou em cada um deles a partir da transição para o Capitalismo – ou de seu amadurecimento, no caso dos europeus. Não sendo isso possível no âmbito dessas poucas linhas, farei um breve relato do caso brasileiro, que em alguns aspectos se assemelha ao dos EUA.

No século XIX, momento de transformação de sua ordem produtiva, o Brasil tomou uma decisão política: abandonar à própria sorte os ex-escravizados e seus descendentes. O cálculo era de que morreriam, sem terra, sem trabalho assalariado e sem educação. Dos cofres públicos, recursos foram tirados para indenizar não os espoliados, mas os espoliadores. Dali também saíram recursos para financiar a vinda de imigrantes europeus para o trabalho na indústria nascente. Embora não reunissem habilidades práticas, muito diferentes das dos trabalhadores negros que aqui já se encontravam, eles eram brancos e foram trazidos para branquear o país.

Aos imigrantes se fez justiça, em época em que isso ainda era possível: foram incentivados a integrar a ordem capitalista nascente. Tiveram facilitados o acesso à terra, à escola, aos salários, e, mais tarde, aos serviços de saúde. Os imigrantes acumularam para si e seus descendentes vantagens, ou seja, riquezas em suas diferentes formas (cultural, social, política e econômica). Hoje, certamente, integram as classes médias e alta do país e ocupam as posições simbólicas e materiais mais desejadas de uma ordem capitalista.

Para a população negra, a vida fez piorar. Depois da abolição, acumularam desvantagens. A falta de acesso a bens e serviços públicos e a oportunidades de trabalho bem remunerado, empurrando-os ladeira abaixo na pirâmide social. Não tiveram meios para acumular capital político, social e econômico e mesmo o capital cultural ficou prejudicado, embora não aniquilado. Labutaram pela sobrevivência. O desenvolvimento das potencialidades humanas foi prejudicado, visto que houve pouco estímulo social.

Notamos que, no final do século XIX, a diferença em nível de habilidades para integrar a sociedade de classes entre os dois grupos era quase nenhuma. Talvez, os negros, visto que fixados em terra alheia por mais tempo, gozassem de certa vantagem. Resguardado o fato de humanos, quando hoje são confrontados seus descendentes, que igualdade há? O negro está política, econômica e socialmente tão distante do branco que a fronteira parece intransponível. O tratamento não equitativo oferecido aos dois grupos, pelo Estado e pela sociedade, ao longo desses anos, fez do Brasil um dos países mais desiguais do mundo, Desigualdade que tem a raça como fronteira central.

A questão racial antecede o Capitalismo, embora tenha se agravado no interior de um sistema que exclui os não desejados e concentra privilégios. Para reduzir as lacunas que separam esses grupos sociais, é preciso agir em três níveis: o individual, o organizacional e o institucional. Tratando apenas do primeiro, observamos que indivíduos e famílias negras precisam de segurança e estímulos sociais (oportunidades, no campo político, social e econômico) para que possam continuar a caminhada em direção à plena emancipação. Já, os indivíduos e as famílias brancas das classes médias e alta precisam reconhecer e assumir que foram e ainda são privilegiados nessa ordem social, e que o lugar que hoje ocupam não veio apenas de seu mérito pessoal e do esforço de seus antepassados, mas do racismo e da desigualdade que marca a sociedade brasileira. Assim, mudanças sociais são necessárias. Os recursos que privilegiam apenas indivíduos brancos das classes médias e alta precisam ser divididos e chegar nos negros. Além disso, os negros precisam ser reconhecidos e tratados como iguais em status e capacidade. A acomodação da sociedade, especialmente, do grupo de brancos diante dos recorrentes assassinatos dos jovens negros é reveladora. Se quisermos fazer diferente, temos que mudar o caminho.

 

 

Este texto faz parte de uma série de artigos escritos por pesquisadores do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo (CEAPG) da FGV EAESP – https://ceapg.fgv.br.

 

[1] Seguindo o entendimento proposto a partir do final da década de 1970 por ativistas do Movimento Negro e pelo IBGE, aqui a palavra negros é empregada como um gênero que contêm duas espécies: pretos (os mais retintos) e pardos (os mestiços).

[2] Ao longo da história houve e ainda há grupos de brancos que são oprimidos, visto que são considerados não brancos, não estou tratando desses.

[3] Ou a outros, quando consideramos o número significativo de grupos não-negros que também são oprimidos.

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