Quando os fatos e a lógica não têm vez

Quando os fatos e a lógica não têm vez

REDAÇÃO

01 de abril de 2021 | 16h01

Gustavo M. Tavares, Doutor em Administração pela EBAPE-FGV e Professor de comportamento organizacional no Insper

Freud atendia um paciente que afirmava estar morto e não havia o que dissesse para convencê-lo do contrário. Freud então perguntou ao paciente: “Você acredita que pessoas mortas sangram?” O paciente respondeu: “Não, pessoas mortas não sangram”. Aliviado com a resposta, Freud sugeriu ao paciente o seguinte tratamento: todos os dias, por alguns minutos, ele repetiria para si mesmo em voz alta “pessoas mortas não sangram, pessoas mortas não sangram, pessoas mortas não sangram…”. O paciente fez isso por alguns dias. Ao retornar ao consultório, Freud estava certo de que poderia provar ao paciente que ele não estava morto. Ele pegou uma agulha, segurou a mão do paciente e espetou-lhe um dos dedos. Rapidamente, uma gota de sangue emergiu. O paciente olhou com espanto para o sangue em seu dedo. Feliz com a reação do paciente, Freud perguntou: “Então, qual sua conclusão?” Com os olhos arregalados, o paciente respondeu, transtornado: “Pessoas mortas sangram!”

Arte: Gustavo M. Tavares

Esta anedota fala muito sobre nós—todos nós. Retrata o apego que temos às nossas crenças e opiniões, a nossa disposição para interpretar as evidências de forma parcial ou simplesmente ignorá-las caso não convenham e, se não for possível ignorá-las, de fazer malabarismos lógicos para acomodá-las. Permeando tudo isso, está a ilusão de que nossa capacidade de julgamento é superior à das demais pessoas. Ouvimos com frequência que contra fatos não há argumentos, mas o que geralmente vemos é que contra os argumentos que escolhemos, os fatos são irrelevantes.

Na maioria das vezes, esses processos psicológicos que limitam nossa racionalidade, nossa capacidade de aprendizado e a qualidade das nossas relações ocorrem de forma não intencional, inconscientemente. E é por isso que precisamos falar deste assunto, especialmente em um momento de acirramento das divisões em nossa sociedade, que tende a potencializar o problema. Seria de se esperar que o avanço da ciência e o maior acesso à informação ajudaria na construção de consensos, de entendimentos comuns sobre questões básicas; mas, aparentemente, o que vemos é o contrário: uma mesma evidência é frequentemente utilizada para dar suporte a conclusões diametralmente opostas, a depender da motivação daquele que a analisa.

As limitações da racionalidade humana e os vieses de julgamento estão amplamente documentados na literatura psicológica. Na filosofia e literatura geral também encontramos reflexões sobre o tema. Schopenhauer afirma que “uma hipótese, após adotada, nos dá olhos de lince para enxergarmos qualquer coisa que a confirme e nos faz cegos a tudo que a contradiz”. Similarmente, Tolstói conclui que “a maioria dos homens — não apenas aqueles considerados inteligentes, mas até mesmo aqueles que são muito inteligentes […] — podem muito raramente discernir a mais simples e óbvia verdade, caso sejam obrigados a admitir a falsidade das conclusões que tenham formado anteriormente”. De fato, estudos mostram que maior inteligência (ou habilidade cognitiva) não mitiga tais vieses[i]. Por fim, Dale Carnegie conclui que “a maior parte daquilo que chamamos raciocínio consiste em encontrar argumentos para continuar acreditando naquilo em que já acreditamos”.

Pela perspectiva da psicologia, um fenômeno importante bastante estudado é o viés de confirmação, definido por Raymond Nickerson como “a busca ou interpretação das evidências de forma parcial, influenciada pelas crenças, expectativas e hipóteses aceitas previamente por um indivíduo”[ii]. Segundo Nickerson, as pessoas tendem a tratar as evidências de forma enviesada quando elas estão motivadas pelo desejo de defender crenças que querem manter, o que muitas vezes não é um processo deliberado. Estudos mostram que o viés de confirmação se manifesta pela (i) restrição da atenção do indivíduo a uma hipótese preferida; (ii) tratamento preferencial das evidências que dão suporte às crenças existentes (e “cegueira” em relação às evidências contrárias); (iii) busca exclusiva, ou primária, por casos positivos, que dão suporte à crença/hipótese preferida; (iv) supervalorização de casos confirmatórios; e (v) pela tendência de ver o que se quer ver (enxergamos nos dados os padrões que buscamos, independentemente de esses padrões existirem).

Pesquisas evidenciam que as pessoas são mais propensas a questionar informações que conflitam com suas crenças do que informações que são consistentes com elas. De fato, somos muito pouco críticos quando uma fake news dá suporte ao nosso ponto de vista — o botão “compartilhar” torna-se irresistivelmente atraente. Além disso, temos a tendência de interpretar informações ambíguas ou completamente irrelevantes como sendo confirmadoras daquilo que acreditamos. Neste aspecto, achados mostram que pessoas com visões iniciais conflitantes podem examinar a mesma evidência e ambas encontrarem razões para aumentar a força de suas opiniões prévias. Observa-se também que achamos mais fácil acreditar em proposições que gostaríamos que fossem verdadeiras do que naquelas que gostaríamos que fossem falsas, o que seria uma manifestação do Princípio de Poliana. Sabemos que estes fenômenos são pervasivos; nem mesmos cientistas, treinados para a análise objetiva e desapaixonada, estão imunes ao viés de confirmação.

É possível também que nossa insensibilidade a—ou falta de motivação para refletir sobre—visões alternativas e evidências contrárias decorra da nossa arrogância. Um fenômeno psicológico exaustivamente explorado é o better-than-average effect[iii], ou a tendência de acharmos que somos melhores que as outras pessoas nos aspectos mais variados. Por exemplo, a maioria das pessoas acha que sua habilidade de dirigir é acima da média. Eu mesmo em minhas aulas demonstro aos alunos a existência desse viés através de um simples questionário. A grande maioria deles informa estar acima da média em termos de capacidade de julgamento, habilidades interpessoais e honestidade, comparado aos colegas de turma. Em tese, seguindo uma distribuição normal, a maioria das pessoas estaria próxima da média, e quantidades iguais estariam acima e abaixo da média. Mas assumir-se mediano é demais para o nosso egão.

Não bastasse nossa tendência individual, basal, a vieses e falhas de julgamento, sabemos que quando o indivíduo se une a um grupo com valores e crenças fortemente compartilhadas, especialmente quando há conflito entre grupos (“nós contra eles”), as limitações da racionalidade se tornam ainda mais proeminentes. Flamenguistas e tricolores podem estar assistindo ao jogo na mesma sala, vendo as mesmas imagens, mas dificilmente irão concordar sobre se foi ou não pênalti. Infelizmente, o “fla-flu” das crenças e valores tem permeado muitos aspectos da nossa vida. E neste ponto, não podemos negligenciar a divisão político-ideológica que tem marcado os dias atuais.

Um primeiro aspecto a se considerar é que, ao associarmo-nos a um grupo que compartilha nossas crenças, naturalmente recebemos mais informações que são consistentes com essas crenças e ficamos blindados em relação a informações divergentes. E as redes sociais têm contribuído sobremaneira para isso. Os algoritmos nos mostram apenas o que queremos ver, nos aproxima daqueles que pensam como nós e nos afasta dos que pensam diferente. Estamos algemados dentro de bolhas sociodigitais; algemas de ouro, pois lá dentro nos sentimos triunfantes e protegidos. Está evidente que as redes sociais, a despeito de seus impactos positivos, têm intensificado o grau de identificação das pessoas com determinados grupos e a polarização e conflito entre esses grupos.

Um segundo ponto refere-se às mudanças cognitivas e comportamentais decorrentes do pertencimento a um grupo. Um ponto de partida é Sigmund Freud em A Psicologia das Massas e Análise do Eu. Freud conclui que o simples fato de fazer parte de uma “massa” leva ao aumento da afetividade e, em parte consequência disto, à diminuição da capacidade intelectual do indivíduo: “[Na massa] a crítica do indivíduo silencia e ele se deixa levar por esse afeto”. E quanto maior a “homogeneidade mental” do grupo, mais fortes esses efeitos. A presença de uma liderança carismática é mais um fator que “paralisa toda nossa capacidade crítica”. A forte ligação afetiva (libidinal) com o líder torna o indivíduo sugestionável e acrítico, algo que se assemelha à “cegueira do amor”, de acordo com Freud. Citando Gustave Le Bon, Freud coloca que “as massas nunca tiveram sede de verdade. Requerem ilusões, às quais não podem renunciar. Nelas, o irreal tem primazia sobre o real, o que não é verdadeiro as influencia tanto quanto o verdadeiro”.

Além da nossa tendência natural de achar que temos uma capacidade de julgamento superior à das outras pessoas em geral, estudos da psicologia social demonstram de maneira muito consistente que o simples fato de nos identificarmos com um grupo nos faz ter uma visão negativa em relação aos indivíduos de fora do grupo (o “out-group”), os quais vemos como inferiores[iv]. Estes efeitos são intensificados quando há conflito ou disputa entre grupos. Não por acaso, no campo político-ideológico, um lado sempre acha que o outro é intelectualmente debilitado e antiético. Mais uma vez, a ilusão de superioridade intelectual e moral nos tira a necessária modéstia e abertura que precedem o aprendizado.

Seria possível sermos pessoas essencialmente racionais, capazes de avaliar o mérito das nossas crenças e opiniões de maneira imparcial? Capazes de dar o mesmo peso para as evidências que confirmam nossos pontos de vista e para aquelas que os contradizem? Acredito que não. Mas certamente podemos evoluir muito neste quesito. Como diz Raymond Nickerson, “já que um passo importante para lidar com qualquer tipo de viés é reconhecer a sua existência, talvez simplesmente estar atento ao viés de confirmação pode ajudar a pessoa a ser um pouco mais cautelosa para não formar opiniões precipitadamente sobre temas importantes e estar um tanto mais aberta a opiniões que se diferenciam da sua”.

[i] Stanovich, K. E., West, R. F., & Toplak, M. E. (2013). Myside bias, rational thinking, and intelligence. Current Directions in Psychological Science, 22(4), 259-264.
[ii] Nickerson, R. S. (1998). Confirmation bias: A ubiquitous phenomenon in many guises. Review of General Psychology, 2(2), 175-220.
[iii] Zell, E., Strickhouser, J. E., Sedikides, C., & Alicke, M. D. (2020). The better-than-average effect in comparative self-evaluation: A comprehensive review and meta-analysis. Psychological Bulletin, 146(2), 118.
[iv] Tajfel, H. (1982). Social psychology of intergroup relations. Annual Review of Psychology, 33(1), 1-39.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.