Qual Bolsonaro, agora?

Qual Bolsonaro, agora?

REDAÇÃO

11 de setembro de 2020 | 16h44

José Antonio Gomes de Pinho, é Professor Titular Aposentado da Escola de Administração UFBA e Pesquisador na FGV-EAESP.

 

O presidente Jair Bolsonaro, ao longo de seu mandato, tem assumido diversos perfis. No primeiro ano, um estilo predominantemente belicoso, desafiador das instituições democráticas, agressivo, preconceituoso, entre outros comportamentos. Na verdade, nada que causasse espanto dado seu currículo e trajetória política não convergente com ideais democráticos. Setores da Nação ficaram na expectativa de que tentaria o presidente alguma aventura autoritária. A ideia do soldado e um cabo para desmontar o Supremo aos poucos se mostrou inviável, bem mais difícil, do que sonhava o presidente, sua prole, e acólitos.

Muitas das promessas de campanha esboroaram-se, mostrando serem apenas brados retóricos para ganhar a eleição, desfraldando pautas apenas para “eleitor ver”, como o combate à corrupção, bandeira que enganou muitos que não atentaram para o histórico do clã familiar. A tão sonhada recuperação da economia, ao início do mandato, revelou-se pálida sem combustível para engrenar uma ascensão. Muito pelo contrário, exibiu um crescimento pífio, menor ainda que o do último ano de seu antecessor.

As reformas caminharam ou estão caminhando muito mais devido ao empenho do Congresso. O presidente prefere ficar ausente em questões polêmicas que não estejam no escopo de seu interesse, não querendo se comprometer com possíveis resultados negativos que possam ser impingidos na sua imagem junto ao seu eleitorado. Assume uma estranha posição de querer ser presidente apenas nos assuntos que lhe agradam, colhendo os bônus, sem assumir os ônus. Também causa estranheza o fato de dizer que as coisas ruins caem no seu colo, parecendo que não tinha e não tem consciência das dificuldades e asperezas do cargo. Lógico que a um presidente da República são imputadas responsabilidades infinitamente maiores do que, digamos, a um dirigente de clube desportivo.

Já neste presente ano, três fatos marcam o seu exercício. Primeiro, a chegada da Covid 19 que tirou o mundo e o Brasil do eixo, mas que não abalou as convicções anti iluministas do capitão reformado. Desafiou todos os protocolos de enfrentamento da doença, escarnecendo dos sérios riscos que o mal carrega, sem qualquer empatia com as vítimas e suas famílias. Muito pelo contrário, nesse contexto praticou peripécias de voos rasantes acenando para seus devotos e cavalgadas em manifestações a seu favor, com explícitos caráter anti democrático e anti constitucional. No momento de sofrimento da Nação dava um showzinho particular.

O segundo fato tem data marcada, 22 de maio, quando veio a lume a reunião ministerial sob a regência do Presidente, realizada em 22 de abril, um “presente” de aniversário da “descoberta” do Brasil, que revelou uma cena que deixou a Nação estatelada e atônita. No rastro da crise humanitária da saúde pública com o Covid 19, o Ministro da Saúde foi demitido, cancelando o presidente um auxiliar que se ancorava nos protocolos sanitários consagrados indo de encontro ao que o presidente queria. Pouco tempo depois limou o seu Ministro da Justiça e da Segurança Pública, não só um sinal de abandono de uma suposta agenda de combate à corrupção, como um outro passo de afastamento de possíveis contendores seus no pleito de 2022. A reeleição mostra-se ser seu verdadeiro projeto de governo.

O terceiro fato constitui a aceleração das investigações sobre o filho da fantástica loja de chocolate e seu despachante, com recursos captados, ao que tudo indica, no exercício de seu mandato legislativo, que sendo levadas em profundidade podem causar danos sérios no Planalto. Isso levou o presidente a repensar sua estratégia política, abrandando seu ímpeto anti democrático e buscando apoio nos setores tradicionais da política. Isso passa pela intensificação da presença dos militares na estrutura governamental e busca de apoio na classe política conservadora tradicional expressando estratégias típicas da velha política, da qual, aliás,  o presidente é um exemplar. Quanto aos militares, o presidente, agora, é um capitão reformado cercado de generais por todos os lados, um até no Ministério da Saúde.

Então, que perspectivas se abrem para o restante do mandato, que praticamente chegou ao seu meio, já que em dois anos teremos a eleição presidencial (07/10/2022)? Do ponto de vista econômico, considerando que estamos saindo (ao que tudo indica) de uma pandemia devastadora e com o desempenho modesto do primeiro ano de mandato, o que esperar então? Parece que pouco. O presidente fia-se, agora, em uma política mais do que populista, assistencialista ainda que necessária, tentando capturar votos (sim, a eleição está no radar) das camadas mais pobres da população. Vai ter dinheiro para isso? Parece difícil crer na multiplicação dos “vouchers”.

Quanto à classe política conservadora, o conhecido Centrão, este só dá apoio enquanto tiver certeza que está apostando no cavalo vencedor e que poderá retirar polpudas espórtulas de seus “investimentos”, digo, apoios. Nesse quesito, o presidente poderia aprender com o deputado federal. Por ocasião da sessão de julgamento do deputado Eduardo Cunha, o então deputado federal Bolsonaro, seu apoiador incondicional votou contra o antigo aliado (assim como o filho, obviamente). Em outras palavras, se tiver que ser abandonado, Bolsonaro o será.

O presidente também poderia aprender com os mandatos do PT, que apostou em programas sociais para os setores mais pobres, e quando a crise econômica arriou as malas e os empregos desaparecerem, abandonaram o apoio que davam ao partido em busca de alternativas, ele próprio. As lições a serem aprendidas não estão nada distantes, como se percebe.

Se isto se concretizar, qual Bolsonaro emergirá neste cenário? Descartando qualquer aventura fora dos parâmetros democráticos, estarão ao lado do presidente os evangélicos, os militares, os empresários, além dos apoiadores raiz? Estarão? Que plataforma o candidato Jair Bolsonaro apresentará na eleição de 22? A pauta dos costumes ainda irá reverberar? Ainda mais com um político contumaz em fazer inimigos, mesmo aliados. Em uma sociedade onde o voto é muito mais pragmático, imediatista, “voto de resultados” do que ideológico, a busca será por uma alternativa, como em 2018.

Mas se o futuro é indefinido e incerto, o futuro se informa do presente. E o presente do governo Bolsonaro continua na linha da “boiada está passando”. A Amazônia e o Pantanal estão queimando, sofrendo desmatamentos estrondosos, as populações indígenas não estão na agenda governamental, muito pelo contrário, no enfrentamento do Covid o governo se ausenta, na Educação  o pensamento ainda está carregado de obscurantismos. A política praticada tem sido muito mais na linha de que se as instituições não podem ser afrontadas, o caminho tem sido tentar deixá-las morrer de inanição ou miná-las por dentro. Tudo isto será cobrado não apenas pela oposição, mas pela sociedade em 22.

 

 

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