Quais temas predominaram nos editoriais de cinco jornais brasileiros durante o início da pandemia de covid-19 no país?

Quais temas predominaram nos editoriais de cinco jornais brasileiros durante o início da pandemia de covid-19 no país?

REDAÇÃO

20 de maio de 2022 | 20h55

Deivison Henrique de Freitas Santos, Mestre em Ciência Política pela UFPR. Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Política e Tecnologia (PONTE/UFPR)

Jackeline Saori Teixeira, Mestranda em Ciência Política pela UFPR. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Política e Tecnologia (PONTE/UFPR) e do Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública (CPS/UnB)

O início da pandemia de Covid-19 no Brasil foi um momento de grande tensão. Não se sabia ao certo quais medidas eram mais efetivas no combate à nova doença e nem quais estragos o novo vírus poderia causar na sociedade. Nesse contexto, as esferas públicas brasileira e de outros países foram tomadas por uma série de vozes que buscavam debater quais ações poderiam ser adotadas e quais aspectos deveriam ser priorizados nas tomadas de decisões por parte das autoridades responsáveis.

Nesse momento, tanto instituições estatais quanto organizações da sociedade civil se mobilizaram para compreender a nova conjuntura e elaborar estratégias para enfrentar o caos trazido pelo vírus. Foi em tal cenário que organizações da imprensa tradicional se destacaram ao oferecer constantemente informações sobre as descobertas envolvendo a doença, os contextos em outros países e os planos em prática em diferentes regiões do mundo para combater a crise sanitária.

Contudo, é válido salientar que nem só de informações vive um jornal. Dentre as principais características que definem o jornalismo profissional, acentuam-se, também, (1) a oferta de espaços para que especialistas possam opinar e discutir sobre diversos assuntos, e, o que mais interessa a este estudo, (2) o oferecimento de opiniões por parte das próprias organizações enquanto agentes independentes interessados em participar do debate público.

De fato, a literatura nas áreas de Comunicação e Ciência Política, sobretudo, já vem apontado a necessidade de investigar as empresas midiáticas não somente como fornecedoras de informações. Os jornais, segundo alguns autores (Cook, 2006; Pérez-Liñán, 2007), devem ser compreendidos, igualmente, como atores políticos autônomos empenhados em participar do debate público, disponibilizando opiniões e orientações em relação ao processo político e sobre o andamento de políticas públicas.

Esse entendimento tem estimulado muitos estudos que utilizam os editoriais como indicadores de tal atuação. Os editoriais são os espaços por excelência onde os jornais evidenciam suas opiniões sobre uma profusão de temas. São nesses textos que as empresas podem se posicionar de maneira legítima e livre dos constrangimentos que marcam a rotina de produção noticiosa (Firmstone, 2019).

No Brasil, pesquisadores como Fernando Azevedo (UFSCar) e Jamil Marques (UFPR) têm se destacado nessa seara de investigações. Entretanto, a maior parte das pesquisas sobre o assunto tem lidado com os posicionamentos das maiores empresas de comunicação do país, todas localizadas nos estados mais ricos e populosos do Brasil (p. ex. Folha, Estadão e O Globo).

Uma vez que os efeitos da pandemia foram sentidos em todo o mundo, assim como em todas as regiões brasileiras, uma pesquisa que considere publicações de diferentes unidades do território nacional pode oferecer um panorama mais representativo do mercado de discursos públicos que marcou os primeiros meses de tensão envolvendo o enfrentamento da Covid-19 no Brasil.

Este artigo contribui com tal debate. Longe de propor uma extensa pesquisa sobre o tema (que, evidentemente, teria de ser divulgada em outro meio), pretende-se promover uma discussão que leve em conta a manifestação de opiniões por cinco jornais distribuídos pelas cinco regiões do país: Diário do Nordeste (CE); O Tempo (MG); A Crítica (AM); Gazeta do Povo (PR); e O Popular (GO).

Sabe-se que, durante boa parte do combate ao vírus no Brasil, houve uma falsa contraposição entre aqueles que, de um lado, realçavam a importância de se preservar vidas, custe o que custar, e, de outro, aqueles que destacavam a relevância de conter os impactos da doença no sistema econômico nacional. Diante disso, é interessante avaliar os temas que mais estiveram presentes nos textos de opinião dos jornais. Será, por exemplo, que essa contraposição foi reproduzida pelas publicações?

Assim, a pergunta que orienta o artigo é: Quais foram os temas predominantes nos editoriais dos periódicos investigados?

Metodologia

Antes de descrever os critérios de coleta e análise dos dados do artigo, é válido apontar algumas características dos periódicos escolhidos: A Crítica (publicação situada no estado do Amazonas, pertence ao Grupo Calderaro de Comunicação, um dos conglomerados de mídia de maior expressão política e econômica da região); Diário do Nordeste (publicação do estado do Ceará, pertence ao Sistema Verdes Mares de Comunicação, maior conglomerado de mídia do estado, sendo propriedade do Grupo Edson Queiroz); O Popular (estado de Goiás, pertencente a um dos maiores conglomerados de comunicação da região Centro-Oeste, o Grupo Jaime Câmara); O Tempo (publicação de maior circulação em Minas Gerais e propriedade do Grupo Editorial Sempre Editora, que é vinculado ao Grupo SADA, um dos maiores conglomerados empresariais de seu ramo na América Latina); Gazeta do Povo (principal publicação do Paraná, pertence à Rede Paranaense de Comunicação, o maior grupo de mídia do estado e um dos maiores da região Sul do Brasil).

A coleta do material utilizado na pesquisa foi feita de forma manual, utilizando-se dos mecanismos de busca dos portais digitais dos periódicos. Foram coletados todos os editoriais publicados entre 12 de março de 2020 e 08 de agosto do mesmo ano. O período contempla desde a data da primeira morte por Covid-19 no Brasil até o dia em que esse número ultrapassou a linha de 100 mil vítimas. No total, foram coletados 691 editoriais considerando todos os jornais aqui investigados.

Uma vez providenciada a coleta, os editoriais passaram por um processo de filtragem. Foram selecionadas todas as peças que citassem as seguintes palavras-chave relacionadas à pandemia: “Pandemia”; “Covid-19”; “Coronavírus”; “2019 n-CoV”; “Sars-Cov-2”. Após o processo de filtragem, chegou-se no número de 570 editoriais, que passaram a compor o corpus da pesquisa.

O material foi avaliado por meio de Análise de Conteúdo: técnica que permite a investigação de conteúdos textuais, entre outros, de forma sistematizada. Para isso, foi elaborado um pequeno livro de códigos com o objetivo de responder à pergunta que orienta a pesquisa. Para a confecção do livro, foram selecionados, de forma aleatória, 60 editoriais para leitura inicial. Tal leitura sustentou a criação de uma lista de temas presentes nos editoriais analisados na amostra.

Em seguida, foram providenciados testes alfa de Krippendorff para garantir a confiabilidade da codificação. Para essa etapa, foram escolhidos, de forma aleatória, 60 novos textos. O material foi codificado por dois pesquisadores com experiência no campo de estudos em Comunicação & Política. Os resultados dos testes alcançaram o patamar mínimo exigido pela literatura especializada (alfa > 0,7). A lista temática se encontra logo abaixo (Quadro 1):

Quadro 1 – Livro de Códigos

Fonte: Elaboração própria.

Por fim, a análise empírica do material codificado também contou a utilização de estatística descritiva, tendo-se providenciado testes qui-quadrado (X²) e resíduos padronizados (RP) para verificar a existência de diferenças estatisticamente significativas entre as cinco publicações investigadas.

O teste X² é usado para averiguar a existência de diferenças estatisticamente significativas entre uma ou duas distribuições. A hipótese nula é rejeitada quando o valor α, também chamado de p-value, é menor que 0,05. Os resíduos padronizados possibilitam verificar a concentração ou a ausência expressiva de casos na comparação. A um nível de confiança de 95%, o valor de corte para o grau de significância estatística é de ±1,96. A seguir, são apresentados os resultados da pesquisa.

Análise dos dados

A Tabela 1 exibe os temas privilegiados pelos jornais em suas peças opinativas, assim como as tendências que cada empresa apresentou em sua agenda editorial (captadas através dos resíduos padronizados – RP). Os resultados do teste X² apontam que existem diferenças estatisticamente significativas entre os periódicos (p-value = 0,000).

Tabela 1 – Temas predominantes nos editoriais dos jornais

Fonte: Elaboração própria.

Tratando-se do jornal Diário do Nordeste, percebe-se que a publicação ofereceu maior ênfase aos temas Sociedade (RP = 3,1), Político-Institucional (RP = 2,0) e Medidas Preventivas (RP = 2,0). Analisando os textos do periódico, é possível identificar a preocupação da empresa com a reação da população frente aos desafios impostos pela pandemia. O jornal se mostrou atento às iniciativas populares que visavam dirimir os efeitos negativos da doença sobre o cotidiano das pessoas, além de ter advogado constantemente em favor das medidas de prevenção da propagação do vírus, como a importância da higiene pessoal e do distanciamento social. Sobre os assuntos político-institucionais, o jornal destacou os impedimentos trazidos pela pandemia no que se refere à realização das eleições locais no Brasil em 2020 e ressaltou os prejuízos causados pela doença no andamento do processo legislativo nacional. O Diário do Nordeste, porém, evitou tecer Críticas em Geral (RP = -3,6) em seus editoriais.

O jornal O Tempo não apresentou muitas tendências estatisticamente significativas em seus textos de opinião. Assim como o Diário do Nordeste, o periódico acionou o tema Críticas em Geral menos do que o esperado (RP = -2,2). As categorias que apareceram com maior frequência nos editoriais de O Tempo foram Economia (23,7%) e Medidas Preventivas (26,8%). O jornal dedicou atenção aos impactos econômicos da pandemia no que diz respeito à queda do Produto Interno Bruto do país, ao aumento dos índices de desemprego e às políticas de crédito implementadas pelo Governo Federal para socorrer o setor empresarial. Ademais, a publicação também utilizou suas peças opinativas para reforçar a relevância das medidas de prevenção à proliferação da doença, como o uso de máscaras e o isolamento social, bem como defendeu a importância de se respeitar as recomendações e descobertas da comunidade científica.

Na contramão das empresas jornalísticas discutidas até o momento, o jornal A Crítica acionou os temas Político-Institucional e Medidas Preventivas menos do que o esperado (RP = -2,4 e -2,7, respectivamente). O jornal, porém, foi a publicação que mais desaprovou as atitudes de atores políticos e de membros da sociedade civil que julgava inadequadas dada a situação do país (RP = 5,6) – adotando, muitas vezes, um tom de denúncia. Em seus editoriais, o periódico condenou, seguidas vezes, o comportamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro, e de parte do seu corpo ministerial – sobretudo em decorrência das crises ministeriais do período e das atitudes desrespeitosas do presidente em relação às vítimas da doença. Sobre a sociedade civil, o periódico teceu críticas às lideranças religiosas que pretendiam realizar cerimônias justamente quando as taxas de contaminação pelo vírus estavam em ascensão.

O jornal Gazeta do Povo adotou uma postura predominantemente político-econômica em seus textos. Enquanto temas relacionados à Saúde, Sociedade e Medidas Preventivas apareceram menos do que o esperado (RP = -2,7, -2,0 e -3,0, respectivamente), assuntos associados aos temas Economia e Político-Institucional foram acionados mais que o esperado (RP = 2,2 e 2,5, respectivamente). A empresa salientou as medidas de contenção empreendidas pelo Governo Federal para reduzir os impactos econômicos proporcionados pela pandemia no país, bem como refletiu sobre o legado que a doença deixaria para a economia brasileira como um todo. Na dimensão política, o jornal lamentou os efeitos do vírus sobre o processo decisório das instituições de representação do Brasil, defendeu a relevância das reformas em trâmite no Congresso Nacional e destacou as dificuldades geradas pela pandemia quanto à realização das eleições de 2020. Por fim, a publicação também mencionou os conflitos políticos envolvendo o presidente e seu corpo ministerial, porém sem tecer críticas incisivas sobre os agentes envolvidos.

O periódico O Popular foi a empresa jornalística que mais enfatizou o tema Medidas Preventivas, considerando tanto a frequência de casos (30%) quanto os resíduos padronizados (RP = 2,2). Em suas peças opinativas, o jornal reforçou a relevância de se respeitar as medidas de distanciamento social e defendeu constantemente a realização de testagens em massa para a identificação e isolamento dos infectados.

Conclusão

A pergunta que orientou o estudo foi: Quais foram os temas predominantes nos editoriais dos periódicos investigados?

Foi possível identificar uma variedade de assuntos nos editoriais das empresas analisadas. Cada jornal, porém, enfatizou um determinado aspecto da pandemia. Parte dos periódicos evidenciaram preocupação com os efeitos da doença sobre a sociedade e a relevância de se adotar medidas preventivas eficientes. Esses foram os casos dos jornais Diário do Nordeste e O Popular. O diário nordestino, aliás, também evidenciou receio com a realização das eleições de 2020.

Já a publicação A Crítica fez jus ao seu nome. O jornal demonstrou uma postura bastante crítica e analítica sobre os problemas e limitações no enfrentamento do vírus apresentadas tanto pelo Governo Federal – e sua equipe ministerial – quanto pelas autoridades regionais e por lideranças da sociedade civil, como atores religiosos.

O Tempo, mesmo tendo dado atenção às medidas preventivas e realçado o papel central do respeito às recomendações da comunidade científica, destacou-se por sua preocupação com os impactos econômicos causados pelo vírus e com a reação do Governo Federal frente ao novo desafio. A ênfase nas políticas de crédito, por exemplo, pode ter relação com o vínculo do periódico com o universo industrial do país, já que ele tem ligações com grandes grupos empresariais mineiros.

O jornal Gazeta do Povo se mostrou receoso acerca dos impactos econômicos e políticos da pandemia. Dentre as cinco publicações, a empresa paranaense foi a que mais dedicou editoriais referentes à dimensão econômica do contexto pandêmico então vivenciado. Como indicado pelos resíduos padronizados, o jornal pouco se interessou pelos temas relacionados à saúde, sociedade e medidas preventivas. Embora tenha demonstrado receio com as eleições de 2020, o periódico se empenhou prioritariamente em discutir os efeitos econômicos da pandemia de Covid-19, o que deveria ser feito para mitigá-los, e, além disso, a relevância de se prosseguir com as reformas que foram prometidas pelo governo de extrema-direita.

Os resultados indicam que houve uma pluralidade de assuntos debatidos pelas empresas, com distintas ênfases entre elas. Pode-se dizer que temas ligados às medidas de prevenção à propagação da doença e à sociedade em geral predominaram nos editoriais da maior parte dos periódicos. Já pautas econômicas se destacaram nos textos de opinião de dois jornais, O Tempo e Gazeta do Povo.

Não ficou muito perceptível se existiu uma evidente contraposição entre saúde e economia dentro dos textos de opinião de cada empresa, mas é possível afirmar que os jornais não atuaram como um bloco homogêneo de ação política. Além disso, em consonância com a literatura especializada em comunicação política, ficou perceptível o papel exercido pelo jornalismo como instituição disposta a participar ativamente dos debates em jogo na esfera pública (Firmstone, 2019).

Ademais, ao analisar periódicos de diferentes regiões, a pesquisa também contribuiu para a melhor compreensão das mudanças apresentadas por organizações jornalísticas que vêm se destacando no contexto político do Brasil. Ao priorizar temas político-econômicos, Gazeta do Povo, por exemplo, demonstra sua tentativa de se firmar como relevante ator na política nacional, após sofrer uma profunda transição. No últimos anos, o jornal se firmou como porta-voz de pautas mais conservadoras que, segundo a empresa, não recebiam o devido enfoque pelas lideranças políticas do país até então, alinhando-se, também, às pautas econômicas mais liberais (Tavares, 2020).

Futuras investigações podem expandir as descobertas aqui apresentadas, por exemplo, aplicando livros de códigos mais extensos e sofisticados ou se dedicando a comparar as agendas noticiosas e opinativas das empresas jornalísticas.

 Referências

COOK, T. E. (2006). The news media as a political institution. Political Communication, 23(2), 159-171.

FIRMSTONE, J. (2019). Editorial Journalism and Newspapers’ Editorial Opinions. Oxford Research Encyclopedia of Communication.

PÉREZ-LIÑÁN, A. (2007). Toward a new pattern of political instability. New York: Cambridge University Press.

TAVARES, C. Q. (2020). Do jornalismo informativo ao de posição: a “guinada à direita” do jornal Gazeta do Povo. Revista Mídia e Cotidiano, 14(3), 118-136.

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