Princípios éticos e o trágico episódio no Carrefour

Princípios éticos e o trágico episódio no Carrefour

REDAÇÃO

24 de novembro de 2020 | 13h59

Lauro Gonzalez, é professor da FGV EAESP e Coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV.

Amon Barros, é professor da University of Essex e da FGV EAESP

 

A reação do Carrefour à morte de João Alberto Freitas seguiu à risca as recomendações do manual de gerenciamento de crises corporativas.  Não parece haver mudança profunda à vista e as ações ficaram restritas ao clichê dos pedidos de desculpa, discurso do “fato isolado” e, é claro, doações para causas antirracistas. É o pacote básico do desengajamento moral corporativo, como analisado por Rafael Alcadipani[1].

Ir além disso passa por uma discussão ética. As empresas enfrentam inevitavelmente tensões entre o imperativo de geração de resultado e o atendimento a questões ligadas à sustentabilidade, hoje sintetizadas no acrônimo ESG (Environmental, Social e Governance). As decisões tomadas em meio a essas tensões são sinais acerca dos princípios que estão sendo seguidos. É observando a lógica subjacente às ações que se pode separar o joio do trigo, o compromisso com valores do oba-oba do discurso sustentável.

A esse respeito, um artigo[2] publicado há alguns anos discutia a dimensão ética do debate envolvendo os modelos de atuação e expansão das empresas de microfinanças, em particular, de microcrédito. Haveria uma oposição entre a ética da convicção, baseada em princípios, e a ética da responsabilidade, baseada nos resultados esperados. Em suma, o artigo concluía que princípios e a ética da convicção eram fundamentais para conciliar objetivos sociais e de lucro na medida em que, diante das inevitáveis tensões entre esses objetivos, princípios fundamentais deveriam nortear a decisão.

A morte de Freitas traz à tona uma questão emblemática envolvendo princípios éticos.  Seguindo uma lógica de redução de custos, empresas como o Carrefour terceirizam as atividades de segurança para empresas especializadas.  Parte da força de trabalho contratada pelas empresas vem das polícias e presta serviço de segurança como um bico, como lembrou Vinícius Torres Freire[3]. Sendo área crítica no Brasil e especialmente nevrálgica em empresas que lidam diretamente com o público, não seria o caso da segurança ser internalizada, a despeito dos custos? Assumir essa responsabilidade é uma forma de compromisso ético nas relações com a sociedade, além de representar uma resposta pragmática aos riscos de empregar uma força de segurança despreparada.

Claro que princípios éticos só têm efeitos práticos na presença de uma estrutura adequada de controle e governança. Em uma economia de mercado, há uma infinidade de preferências possíveis dentre os acionistas, inclusive aqueles que assumem publicamente compromissos ditos sustentáveis, ou seja, que vão além do lucro[4]. Para que os objetivos desses acionistas específicos sejam alcançados, é preciso haver um sistema de governança calcado em princípios explícitos que devem ser seguidos diante no embate entre a busca por resultado e outros objetivos. Vale lembrar ainda que a diversidade entre os acionistas pode também existir dentre os demais investidores, que puniriam/incentivariam as decisões das empresas através de maior/menor custo de financiamento.

Os acionistas do Carrefour têm de mostrar à sociedade, inclusive às demais empresas, exemplos concretos de mudanças, norteadas por princípios, que evidenciam o objetivo de servir à sociedade e não somente gerar lucro. O Brasil tem um longo legado de racismo e divisão social que se manifesta cotidianamente nas empresas. Repensar os vínculos trabalhistas da área de segurança, mesmo diante de um potencial aumento de custos, seria um pequeno passo na direção certa.

 

Referências

[1] https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/carrefour-assassinato-e-desengajamento-moral-corporativo/

[2] https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.2202/1944-2858.1020

[3] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2020/11/o-mimimi-das-empresas-que-matam-e-o-carrefour.shtml

[4]

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