Presidente off-line.

Presidente off-line.

REDAÇÃO

10 de novembro de 2020 | 15h06

José Antonio G. de Pinho – Professor Titular Aposentado Escola de Administração UFBA; Pesquisador FGV-EAESP.

 

Na história recente do Brasil (pós 1945) e em períodos democráticos, já tivemos presidentes histriônicos, tíbios, folclóricos, outros que não cabem em uma única definição. Um deles, possivelmente o melhor de todos, foi imortalizado como o Presidente bossa nova por conhecido humorista. O atual, que usa as novas tecnologias de forma intensa, apresenta várias facetas, resultando difícil recorrer a um só termo para classificá-lo. Certamente, um pouco de cada um desses, com algo a mais, porém, muito a mais ou a menos a depender do aspecto que se observe, o que se procura fazer neste texto.

Merece reflexão também o fato de que uma coisa é o sujeito candidato e outra o sujeito presidente.  Posta esta base podemos passar para a tentativa de definir e entender o presidente Bolsonaro. A colocação clássica de que o poder é um instrumento que se conquista com a mão esquerda, mas se toca com a direita, deve ser ajustada ao caso do atual governante. Podemos pensar que o vitorioso conquistou o poder com a “mão” extrema direita achando que iria governar com esta. Tal pretensão não tem logrado êxito, e as metas antidemocráticas que foram atingidas tem se dado por ações insidiosas nas brechas que o regime democrático permite. Também lembrando outra máxima, consagrada no período de triste memória da segunda guerra mundial, o poder se ganha dentro dos parâmetros da democracia e se faz uso dela para destruí-la.

O filósofo inglês Thomas Hobbes um dos relevantes teóricos da construção do Estado moderno, em meados do século XVII, partia das características psicológicas do homem para então tratar da esfera da Política.  Este homem era visto como bruto, agressivo, violento, o que demandava, em sua visão, um Estado forte para controlar esses instintos e colocar ordem e disciplina na emergente sociedade capitalista. No caso brasileiro, à parte as dominações autoritárias e com exceção da experiência do homem da vassoura, por sua breve duração, o homem da arminha parece se enquadrar em certos aspectos da construção hobbesiana. Na verdade, o atual mandatário também se dizia filiar ao combate feroz à corrupção, alvo da vassoura, mas se verificou com pouco tempo de mandato que sua vassoura não tinha cerdas ou só estaria direcionada para varrer a corrupção alheia, e não atuar de forma impessoal.

Aliás, este é um aspecto crucial para entender o comportamento de Jair Bolsonaro. Seu governo se volta para atender fundamentalmente seus interesses, de seu entorno familiar e dos segmentos que o apoiam, sendo mais pertinente o lema: “Bolsonaro acima de tudo”. Mas isto não ocorre de forma linear, dado o abandono que pratica em relação a antigos e recentes aliados e apoiadores, o que inclui, surpreendentemente, até estrelados da caserna, companheiros de sua rápida e tumultuada passagem na vida militar.  A propósito, reformado aos 33 anos de idade, deve se constituir um dos aposentados com mais tenra idade, exceto casos de invalidez ou acidentes de trabalho.

E em tempos de pandemia, alguns traços do comportamento político bolsonarista se acentuaram de forma demasiada, o principal deles, o de negação da realidade. Em sua tour pelo Brasil, usa e abusa da negação do vírus, chegando ao ponto de se transformar em garoto propaganda de remédios sem comprovação científica, um acinte à inteligência, ao conhecimento científico, e à saúde e segurança do povo brasileiro. Esse comportamento irresponsável ocorre também na questão do desmatamento e queimadas na Amazônia e no Pantanal. O presidente busca sempre um inimigo externo para atribuir esses fatos, que, no seu âmago, se ajustam ao destino que quer dar ao meio ambiente, em consonância com seu ministro, dito do meio ambiente. Este posicionamento de lavra schmittiana, não à toa de influência hobbesiana, defende encontrar um inimigo ainda que ele não exista ou não tenha a dimensão que lhe é imputada para manter coeso seu segmento apoiador contra este suposto inimigo. Ou ainda, caso esses dois requerimentos não se cumpram, um inimigo tem que ser criado, inventado.

Isso tudo, e tanto mais, nos faz atribuir o epíteto de off-line ao presidente, um presidente que não preside, um governante que não governa, um líder (que deveria ser) que não lidera, que pensa fundamentalmente na sua reeleição e na proteção do seu encalacrado clã.  Um presidente que não está ligado nas verdadeiras necessidades do país, que mobiliza seu tempo para uma precoce campanha, onde mira potenciais candidatos adversários para afastá-los do teatro político, como no caso agora do combate à vacina apoiada pelo governo do Estado de São Paulo, o que só explicita seu obscurantismo. Este alheamento da realidade faz muitos analistas entenderem que o ocupante da cadeira do Palácio do Planalto aposta no caos. Sendo mais específico, isto seria concretizado em uma crise por conta do desemprego resultante do Covid que tornaria a situação insustentável, o que, em seu pensamento, justificaria um estado de exceção. Lembrar sua citação que o Brasil não viraria um Chile. Tal não se realizou, mas isto pode ter sido apenas adiado.

O presidente mostra-se, assim, on-line, conectado, ligado ao que atende aos seus propósitos pessoais e de segmentos vitais para sua sobrevivência política, nestes últimos meses, corporificado no Centrão e setores militares, ficando off-line para as necessidades reais da Nação e do povo. Mantém-se alheio ao que acontece com os milhares de vítimas do Covid 19, com as mortes de povos indígenas, com as vítimas das queimadas, humanas, da fauna e flora. Por quanto tempo, a Nação aceitará esse comportamento off-line nada republicano de seu presidente, bem como dos segmentos circundantes do poder? Cabe lembrar que deverão ser encontrados e responsabilizados os responsáveis por essa conta econômica, social, política e ética. E, agora, outra manifestação de sua desconexão com a realidade, a que não lhe interessa, ao não reconhecer a vitória de Joe Biden na eleição americana, mais uma ação off-line na sua lista.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.