Precisamos realmente de lockdown?

Precisamos realmente de lockdown?

REDAÇÃO

22 de março de 2021 | 16h34

Fabiano Maury Raupp, Doutor em Administração (UFBA). Professor Associado do Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas (Esag) da Udesc. Membro do Observatório de Finanças Públicas (OFIP)

Ana Rita Silva Sacramento, Doutora em Administração (UFBA). Professora Adjunta da Escola de Administração (Ea) da UFBA. Membro do Observatório de Finanças Públicas (OFIP)

Denise Ribeiro de Almeida, Doutora em Administração (UFBA). Professora Associada da Escola de Administração (Ea) da UFBA. Membro do Observatório de Finanças Públicas (OFIP)

A pandemia chegou, dominou nossas  vidas e parece sem pressa de ir embora. Já se passou mais de um ano e a situação não alivia, ao contrário, só parece piorar. No início achávamos que era questão de meses, agora já temos a certeza de que será questão de anos. Nem mesmo o desenvolvimento recorde de diferentes vacinas para a Covid-19 foi suficiente para amenizar de forma sensível o problema no Brasil. Mas, afinal, onde estamos errando? Tomando por base dados disponibilizados no Painel John Hopkins (https://coronavirus.jhu.edu/region/brazil) de 22 de março de 2022, o que estamos fazendo ou deixando de fazer para apresentarmos resultados tão altos quanto ao número de óbitos de 294 mil, associados a uma cobertura vacinal tão pequena, representando apenas 1,62% da nossa população?

É preciso deixar bem claro que estamos diante de uma situação de extrema complexidade e que qualquer decisão, ou mesmo a falta delas, pode trazer diversas consequências. Quando se trata de decisões relacionadas à saúde, os resultados podem ser desastrosos. Uma grande discussão que emerge nesse ambiente se refere à necessidade ou não de lockdown. O lockdown é uma proibição mais severa de circulação de pessoas. Esta situação normalmente é antecedida por medidas de isolamento social. Enquanto o primeiro é uma proibição, o segundo é uma medida mais branda sob a forma de recomendação para que a circulação de pessoas seja reduzida sensivelmente.

Desde o início da pandemia, algumas medidas de lockdown foram adotadas mundo afora, e diríamos que de certa forma foram fáceis de serem implementadas. Agora, entretanto, quando a situação se encontra mais grave, as pressões sobre os chefes de Estado são grandes e a possibilidade de lockdown parece mais difícil de se efetivar com alguma tranquilidade. Prova disso são os últimos protestos que eclodiram em países europeus contra as medidas de prevenção à Covid-19 e, pasmem, até contra a vacinação! Informações contidas no portal G1 (encurtador.com.br/movR7) noticiam que manifestações foram observadas em Londres, no Reino Unido; em Viena, na Áustria; em Kassel, na Alemanha; em Belgrado, na Sérvia; em Bucareste, na Romênia; em Helsinque na Finlândia e em Basel, na Suécia.

Já no Brasil, esse processo tem sido bastante traumático desde o início. A escancarada falta de coesão entre o governo central e as unidades subnacionais, influenciada em algumas situações pelo posicionamento ideológico de cada “inquilino” do ente envolvido, contribui para deixar a população cada vez mais atônita e insegura até quanto à própria sobrevivência. Ou seja, muitas informações nos colocam, por razões diversas, frente à algumas polaridades que nem sempre são totalmente verdadeiras. Como exemplo, podemos considerar a distinção difundida por empresários,  governo federal e alguns governos estaduais, entre preservar vidas ou preservar empregos, distinção que nos parece equivocada por tratar os dois aspectos como mutuamente excludentes, quando são de natureza complementar.

Tomando como premissa que não podemos ser insensíveis ao fato de que o lockdown afeta de maneira e com intensidade distinta os diferentes setores da sociedade, sob pena de não ser possível uma discussão que aborde esse contexto social mais amplo, o que propomos aqui é uma reflexão sobre a necessidade do lockdown sob um ponto de vista, o do esgotamento ou não do sistema hospitalar a partir da realidade de dois estados brasileiros – Santa Catarina e Bahia. Pressupõe-se que tal cenário esteja presente na maioria dos Estados da federação.

A escolha desse ponto de vista não se deu ao acaso e foi motivada pelo fato de que não há vagas para todos os infectados em situação grave. Tal circunstância, inclusive, parece já ter atingido os Estados brasileiros de maneira intensa conforme informações disponíveis digitalmente na grande mídia e em dados das secretarias de saúde nacionais. Os dados foram coletados nos  Boletins Epidemiológicos Coronavírus do Governo de Santa Catarina (www.coronavirus.sc.gov.br) e do Governo da Bahia (http://www.saude.ba.gov.br/wp-content), de 19 de março de 2021.

No caso de Santa Catarina a taxa de ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adultos – SUS por Covid-19 é de 70,8% em relação ao total geral de leitos, que pode aparentar uma certa tranquilidade. No entanto a taxa de ocupação geral é de 98,4%. Por sua vez a Bahia apresenta uma taxa de 85,0% para adultos nos leitos específicos para Covid-19. Não sendo encontrada no boletim analisado a taxa de ocupação geral.

Tabela 1. Ocupação de leitos de UTI

Fonte: Boletins epidemiológicos em 19 de março de 2021 (www.coronavirus.sc.gov.br; http://www.saude.ba.gov.br/wp-content).

* Em relação ao total de leitos de UTI

** Em relação ao total de leitos de UTI Covid-19

Olhando os dados acima, de forma específica os percentuais, poderíamos até pensar que ainda não atingimos 100,00% de ocupação nos dois Estados. Isso pode apenas representar uma falsa ilusão, a ser esclarecida com os dados de regulação para UTI por região de saúde a seguir trazidos.

Tabela 2. Solicitações de transferências para leitos de UTI

Fonte: Boletins epidemiológicos em 19 de março de 2021 (www.coronavirus.sc.gov.br; http://www.saude.ba.gov.br/wp-content).

Não há vagas nos hospitais, na verdade há as já conhecidas filas de espera. Segundo dados da Tabela 2, Santa Catarina possui 414 pacientes em espera por leito de UTI. Esses dados se mantiveram altos nos últimos dias, 387 em 15/03, 442 em 16/03, 457 em 17/03 e 456 em 18/03, conforme boletins diários. Em tese estas filas seriam difíceis de serem reduzidas visto que o tempo de permanência médio na UTI (pacientes com Covid-19) é de 14,2 dias conforme informações dos boletins dos últimos cinco dias.

Na Bahia, semelhante ao ocorrido em Santa Catarina, apesar da abertura de 102 novos leitos (30 de UTI e os demais em enfermaria) pelo governo estadual  (encurtador.com.br/rGO26), o número de pacientes aguardando regulação têm se mantido alto nos últimos dias, ainda que com uma tendência de queda, talvez como um reflexo inicial das três semanas de lockdown parcial em muitos municípios baianos, notadamente naqueles que compõem a Região Metropolitana de Salvador. Este cenário é demonstrado nos boletins diários que apontam para o quantitativo de pacientes aguardando regulação de 474 em 15/03, 472 em 16/03, 484 em 17/03, 433 em 18/03 e 360 em 19/03.

Outra questão que alerta para a gravidade e iminência de um sistema colapsado é a possibilidade de falta de insumos. Segundo matéria de Caroline Borges, Jean Laurindo e Leonardo Thomé, no portal G1 SC em 19 de março de 2021, uma “Associação que administra três hospitais na região Oeste informou que o problema atinge remédios do ‘kit intubação’. O governo do Estado afirmou que vivencia risco de desabastecimento de itens importantes por conta da demanda nacional”. Esse esgotamento também é uma realidade na Bahia, como verificamos em matéria do G1, de 18 de março (encurtador.com.br/dquJM), onde o prefeito de Feira de Santana, segundo município em população do Estado, afirma que caso não haja reposição em poucos dias não haverá como seguir com os procedimentos de intubação.

Não tivemos a pretensão de esgotar os argumentos, nem mesmo aqueles direcionados ao setor de saúde. Tampouco negar os esforços do Governo de SC e da BA na criação de novos leitos, compras de vacinas etc. Todavia, parece inegável que do ponto de vista da saúde que guiou essa reflexão, o lockdown é a vaga de UTI necessária para que o sistema hospitalar possa respirar.

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