Precisa-se de culpados, com urgência!

Precisa-se de culpados, com urgência!

REDAÇÃO

24 de junho de 2022 | 17h01

José Antonio G. de Pinho, Professor Titular Aposentado – Escola de Administração UFBA. Pesquisador – FGV- EAESP

Estamos a cem dias das eleições, o tempo conspira contra o candidato Bolsonaro. Aliás, o maior conspirador contra Bolsonaro é ele próprio. Capricha produzindo provas contra si. O imbróglio que criou com a Petrobras é mostra irrefutável disto. Enquanto deveria estar governando, presidindo a nação fica motociatando, fazendo campanha muito tempo antes do permitido, sempre exultante de alegria seguido pelo seu séquito. Não podia alegar desconhecimento do modo como funciona a maior estatal do País, nem isso seria esperado de um presidente, mas sendo Bolsonaro tudo pode acontecer. Enquanto deveria estar se reunindo com sua equipe para encontrar saídas para os graves problemas nacionais, estava por aí flanando, em férias recorrentes.

E como acontece nesse infausto governo, tem-se um mandatário ausente, preocupado em sua reeleição desde o início do mandato. Ao constatar que o preço dos combustíveis tem papel chave na inflação, no custo de vida e destrutivo do ponto de vista eleitoral, corre atrás de um bode expiatório. Já arranjou três, os três presidentes da Petrobras indicados por ele. Agora busca um outro para responsabilizar considerando sua estratégia de terceirizar responsabilidades, eximindo-se das que fazem parte do cargo.

Como só isso não basta, busca também um plano estapafúrdio para controlar os preços em conjunto com o Centrão, que mergulhou de corpo, alma e emendas parlamentares, secretas ou não, na candidatura Bolsonaro. Dois fatores parecem indicar que estas forças não lograrão êxito em seus intentos: i) o tempo é curto para uma virada em uma situação já cristalizada, de difícil reversão; ii) qualquer caminho proposto será mais um remendo do que uma efetiva solução, pois o alcance da medida será mero paliativo para uma situação de sangramento. As soluções propostas são do tipo ‘dar um tiro de canhão para matar um passarinho’.

Quanto ao eleitorado este terá que ser muito devoto para acreditar nas desculpas esfarrapadas que Jair Bolsonaro oferecerá a ele. O eleitorado dificilmente será convencido que existe um culpado que não seja ele. O mercado internacional dos preços dos combustíveis ou a guerra da Rússia contra a Ucrânia, ainda que respondam por parte da situação não explicam ou respondem pelo caos no Brasil.

Aproximando-se as eleições, Bolsonaro está entregando um País muito pior do que recebeu. A situação econômica completamente deteriorada, níveis de desemprego alarmantes e resistentes, por conta da inércia e da incompetência governamental, níveis de pobreza nunca vistos desfazendo a imagem do país do futuro, tornando-se um país de um passado muito distante. Tudo isso conseguiu Bolsonaro.

É chocante como alguém com esse portfólio ouse ser candidato. Obviamente, a manutenção do poder é o grande estimulante, além da existência de um foro privilegiado, um escudo para livrá-lo do que tem que responder. Uma possível fonte de fé seja pensar que a conjugação que ocorreu em 2018 vá se repetir agora em 2022.  Ledo engano. Frente à sua ficha governamental de realizações a candidatura Bolsonaro parece um bilhete corrido. No entanto, como ainda mantém uns 25/30% de adeptos à sua postulação, não pode ser desprezado, tomado como carta fora do baralho.

Mas, vale a pena esmiuçar um pouco mais essa carteira de realizações do governo Bolsonaro. No plano ambiental é uma catástrofe a olhos vistos, com a destruição principalmente do Cerrado e da Amazônia.  A devastação desta, o que se constitui em um projeto governamental, vem acompanhada de outros projetos no mesmo pacote, tais como a ataque às populações indígenas e seus defensores, atestado pelos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips. Evidentemente, esse não foi um evento fortuito, pois a obra bolsonariana já contemplava a destruição da FUNAI, do IBAMA, do INPE e outras instituições seguindo o modelo de construção contemporânea das autocracias, ou seja, as instituições são mantidas pro forma, mas são subtraídas delas as condições, físicas, de pessoal e financeiras, para sua efetiva operação.

Convém também recordar a questão da inação e combate a vacinação no Covid-19, onde jogou a culpa da queda da econômica nos braços dos governadores que fecharam atividades econômicas, ainda que por períodos curtos. Também não pode passar despercebido o ataque às Universidades, Centros de Pesquisa e a Educação em geral. E agora quase no apagar das luzes deste governo, que de Luzes não tem nada, aparece ao grande público o escândalo do MEC, já detectado meses atrás, mas que assume agora outra configuração com a prisão do ex-Ministro Pastor Milton Oliveira. Esse governo parece remontar a tempos bíblicos, pois tem os que aram e os que pastoreiam.

O escândalo em si já tinha robustez suficiente para revoltar o estômago da nação dada a profusão de bíblias com propaganda, barras de ouro (parece que sempre um investimento seguro, livre de comprovação de contas bancárias para depósito), acesso privilegiado por certos pregadores as polpudas somas do FNDE. O Presidente sai do episódio com a cara queimada, mas as queimaduras podem atingir sua candidatura. Ainda é muito cedo para avaliar os estragos que uma CPI MEC pode causar, estamos ainda nos primeiros movimentos.

Uma CPI no calor de uma campanha pode elevar a temperatura a níveis insuportáveis. Bolsonaro em seu apetite para jogar a culpa nos outros, fez o que pode para viabilizar a CPI Petrobras, agora terá que fazer esforços dantescos para evitar a CPI MEC. Sempre poderá jogar a culpa no Pastor, mas seus nomes estão indissociavelmente ligados. Possivelmente o religioso não vai querer queimar sozinho neste inferno, irá confessar o que sabe. As outras igrejas podem querer apontar toda a conspurcação oliveiriana como um ato isolado e de responsabilidade da igreja do envolvido. O jogo, essencialmente competitivo, é complexo.

Fica claro que, no momento da campanha, o candidato do PL terá muito pouco a mostrar ao eleitorado nacional, só lhe restando mesmo o expediente do golpe. Sendo a personalidade de Bolsonaro não só histriônica como também rocambolesca, esse golpe não será soft, mas deverá vir revestido de elementos de violência pela defesa que faz da população armada. O alvo já está mais do que definido, as urnas eletrônicas e o guardião delas, o TSE e acima o STF.  Agora, aproximando-se as eleições, ocorre o embate final com o eleitorado brasileiro.  Espera-se que a Nação brasileira depois de ter que lutar pela vacina do covid 19, prepare uma vacina antigolpe e contra esse estado de coisas que vivemos. O Brasil deve um impeachment a Bolsonaro.  Será que ainda dá tempo?

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