Porque o monitoramento epidêmico não ganhou adeptos no Brasil

Porque o monitoramento epidêmico não ganhou adeptos no Brasil

REDAÇÃO

27 de maio de 2020 | 14h35

Eduardo H. Diniz, Engenheiro e professor da FGV EAESP, onde também é pesquisador do Centro de Microfinanças e Inclusão Financeira (FGVcemif) e chefia o departamento de Tecnologia e Ciência de Dados (TDS).

 

Enquanto a OMS apregoa que precisamos testar e monitorar a população[i] para conseguiremos ter um controle efetivo da pandemia, inclusive na organização de uma recuperação econômica, está claro que não estamos fazendo no país todos os esforços necessários para cumprir esta receita que tem dado resultados efetivos em diversos outros países. Mais curioso ainda é perceber que, se nossos governos e instituições científicas tem feito algum esforço para ampliar o acesso aos testes[ii], pouco ou quase nada se diz a respeito do monitoramento epidemiológico.

Não vamos aqui discutir a importância dos testes, principalmente porque não há dúvida na comunidade científica que a massificação da testagem é crítica para qualquer avaliação sobre as medidas a serem tomadas. Entretanto queremos chamar a atenção para o baixo interesse pela segunda variável da equação da OMS, a pouca preocupação das autoridades com as possibilidades de se estabelecer um monitoramento seguro e respeitando os direitos à privacidade dos cidadãos.

Enquanto nas grandes cidades do país tem se usado uma certa categoria de monitoramento para avaliar o índice de isolamento social, um indicador até então desconhecido para todos nós, quase nada se fala do monitoramento dos infectados ou expostos aos riscos de infecção, ainda que se reconheça a existência de uma enorme subnotificação da doença entre nós. Importante destacar que esta estratégia de monitoramento epidemiológico, internacionalmente conhecida como “contact tracing”, tem sido considerada como crítica para o controle do Covid-19 em diversos países onde já está se vivendo o início da recuperação. E mais ainda quando se inicia o planejamento da volta organizada, de forma a evitar novos fechamentos após os primeiros episódios de abertura.

Ainda em março, pelo menos duas iniciativas se apresentaram como alternativa de mapear o contágio no país: o Brasil Sem Corona (https://www.brasilsemcorona.com.br) e o Desviralize (https://desviralize.org/). Ambas desenvolvidas por startups com foco na inovação tecnológica para solução de problemas sociais, apesar de disponibilizadas gratuitamente para uso de governos e organizações sociais e dispondo de questionários simples e com imediato posicionamento geográfico, não conseguiram a adesão suficiente de respondentes que pudesse servir de utilidade tanto para orientação de políticas públicas quanto de estudos epidemiológicos.

Embora muito diferentes na sua concepção original e na tecnologia utilizada, a baixa adoção dessas iniciativas brasileiras de “contact tracing” representam o desinteresse geral das autoridades, da imprensa e da população em geral em promover a segunda parte da estratégia indicada pela OMS como necessárias para organizarmos o retorno ao “novo normal”. Queremos aqui levantar alguns motivos que expliquem porque o monitoramento epidemiológico “não pegou” no Brasil.

A primeira explicação talvez esteja relacionada a fatores culturais. De fato, o “contact tracing” foi adotado mais amplamente em países asiáticos, enquanto não fez parte do portfolio de estratégias ocidentais de combate à pandemia. Enquanto Taiwan, Coreia, Singapura e China, embora usando estratégias e tecnologias muito diferentes entre si, são consideradas como casos de sucesso de “contact tracing”, não se tem notícia de que países como Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália tenham adotado instrumentos semelhantes em larga escala, ainda que tenham aparecido iniciativas com essas características nesses países. Nos EUA, a discussão esquentou e até ajudou a promover a improvável união entre Google e Apple[iii], donos de quase todo o universo de sistemas operacionais de celulares, no desenvolvimento de protocolos comuns para facilitar a interoperabilidade em seus sistemas e permitir coletas de informação por mecanismos de monitoramento, neste caso, para atender às necessidades do governo americano. Entretanto, também nos EUA o “contact tracing” não foi amplamente adotado, apesar de diversas iniciativas existentes. Como nos posicionamos no lado ocidental do planeta, esse tema de monitoramento da contaminação pareceu mais uma “coisa de orientais”, tradicionalmente tidos como mais disciplinados e respeitadores de regramentos coletivos que nós ocidentais.

Um segundo motivo a ser considerado é o tradicional medo dos cidadãos de que as autoridades pudessem ter algum grau de controle sobre suas vidas, ainda mais num ambiente onde as liberdades individuais já estão bastante afetadas. Considerando o momento político em que estamos vivendo, este medo não é apenas do controle do estado, mas também do comportamento miliciano que poderia incentivar criação de “brigadas de vigilantes” que poderiam atuar para intimidar possíveis infectados. Embora esses medos tenham bastante fundamento, várias das iniciativas de “contact tracing” usam tecnologias que garantem anonimização dos respondentes, ou seja, fazendo com que o foco da aplicação seja no conjunto agregado das respostas, e garantindo que ninguém fique sabendo exatamente quem é que foi que respondeu o quê, ainda que permitindo o acesso ao quadro epidêmico geral na sociedade.

Um terceiro motivo a ser considerado no insucesso das ferramentas de monitoramento epidêmico no Brasil seria a desconfiança sobre o grau de fidedignidade das informações prestadas pelos próprios usuários, fontes usadas nessas aplicações. Acostumados a ter a nossa condição definida por uma autoridade competente, seja um médico ou uma outra autoridade qualquer, fica a dúvida se seríamos honestos ou teríamos o conhecimento suficiente para designarmos a nossa própria condição. Ainda que boa parte das aplicações de “contact tracing” pudessem ser combinadas com processos de validação combinada com medidas efetivas, paira sobre elas a dúvida se a informação coletada não viria de um respondente mentiroso ou mesmo de quem saberia responder corretamente ao simples questionamento sobre se está com febre ou não. A desconfiança da fidedignidade das informações fica explícita quando se confia mais em testes amostrais controlados por especialistas do que em dados coletados de todo o universo de pesquisa, porém com base nas afirmações dos próprios “objetos de pesquisa”.

Enfim, embora a necessidade de monitoramento persista[iv], como forma de combater a subnotificação ou para organizar o retorno às nossas atividades sociais, a combinação dos motivos apresentados acima impediu que emergisse, até aqui, uma experiência que abriria novas possibilidades de avaliar comportamentos sociais com base na utilização de ferramentas confiáveis, seguras e garantindo a proteção dos dados de usuários. Dada a conjuntura ambiental e de exposição epidemiológica que vamos continuar vivendo nas próximas décadas, esta não será a última oportunidade de voltarmos a esse tema. O “contact tracing” entrou definitivamente na agenda e, em particular para nós pesquisadores, em situações mais restritas, essas ferramentas poderiam ser adotadas em um sem número de estudos úteis sobre diversos temas, abrindo oportunidade para desenvolvimento de novas abordagens metodológicas.

[i] COVID-19: OMS informa que é necessário testar, rastrear e avaliar quando retirar as restrições. Em: https://nacoesunidas.org/covid-19-oms-informa-que-e-necessario-testar-rastrear-e-avaliar-quando-retirar-as-restricoes/

[ii] Einstein cria teste de coronavírus que permite analisar 16 vezes mais amostras por vez. Em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,einstein-cria-teste-de-coronavirus-que-permite-analisar-16-vezes-mais-amostras-por-vez,70003310339

[iii] Apple e Google lançam tecnologia para criação de apps que alertam sobre exposição à Covid-19. Em: https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/05/20/apple-e-google-lancam-tecnologia-para-criacao-de-apps-de-alerta-de-contagio-da-covid-19.ghtml

[iv] Contra subnotificação, favela do Rio recorre ao WhatsApp para registrar casos. Em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/05/contra-subnotificacao-favela-do-rio-recorre-ao-whatsapp-para-registrar-casos.shtml

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