Por que tantos policiais se candidatam?

Por que tantos policiais se candidatam?

REDAÇÃO

18 de novembro de 2020 | 11h19

Rafael Alcadipani é Professor Titular da FGV-EAESP e Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

 

Segundo reportagem do UOL, houve um aumento de 39% de membros das forças de segurança ocupando a posição de Prefeito nas cidades brasileiras na eleição de 2020 em relação a 2016. O número de vereadores da categoria cresceu menos, 1,7% deste ano em relação as eleições anteriores[1]. Além disso, de cada 10 candidatos das forças de segurança, um foi eleito segundo reportagem da Piauí[2]. A pergunta que fica, então, é qual os motivos de muitos membros das forças de segurança quererem se candidatar?

Pesquisas internacionais sobre a motivação da pessoa querer ser um policial mostram que muitos optam pela carreira com o intuito de fazer o bem, fazer justiça e melhorar o mundo. Ocorre, todavia, que durante o cotidiano do trabalho os policiais tendem a ter suas expectativas frustradas. Frustram-se com a lentidão, burocracia e decisões do sistema de justiça criminal, com a falta de reconhecimento da sociedade com a sua ocupação, com as críticas que recebem da imprensa, com as suas chefias, entre outros fatores. Isso faz com que eles notem que sua capacidade de fazer diferente é bastante limitada diante do sistema em que operam. É extremamente comum que policiais que querem ir para a política digam “eu cansei de ver tudo isso, quero fazer a diferença de verdade”.

Um segundo aspecto que ajuda a explicar o alto número de candidatos das forças de segurança é a falta de condições de trabalho. Problemas de baixa remuneração, falta de instrumentos adequados para o trabalho, altos índices de doenças ocupacionais são típicos da maioria das forças de segurança do Brasil.  O fato de os governos negligenciarem há anos estes problemas faz com que muitos membros das forças de segurança vejam o caminho da carreira política como forma de resolver os problemas que seus colegas enfrentam em seu dia a dia.

Um terceiro aspecto é que diferente de outros países e de outras carreiras públicas ligadas ao sistema de justiça criminal, a partir de um certo tempo em que o membro da força de segurança está na sua instituição, ela ou ele podem concorrer a eleição recebendo os seus salários e, caso derrotado, ela ou ele podem retornar a sua função logo após a eleição. Ou seja, candidatar-se para muitos membros das forças de segurança é risco zero. Além disso, o prazo para desincompatibilizar o policial para poder se candidatar é mais fluído do que em outras carreiras públicas. Ademais, em um cenário de graves problemas de segurança pública e corrupção, a população percebe o policial candidato como alguém que pode resolver estes graves problemas nacionais.

Se por um lado precisamos ter salva guardas que garantam a neutralidade e não contaminação das forças de segurança do país pela política partidária, por outro é preciso garantir que os seus membros tenham os seus direitos de participação política assegurados e não sejam tratados como cidadãos de segunda classe. Por exemplo, até antes da Constituição de 1988 militares eram proibidos de votar o que não faz sentido em nenhuma democracia.

O grande número de candidaturas de policiais são o resultado de problemas estruturais do Brasil que precisam ser resolvidos e também de um arranjo institucional mal organizado que pouco ajuda na construção de forças de segurança que sejam de Estado e pouco porosas a política partidária. São também o resultado de uma falta de atenção com as carreiras policiais. O Brasil precisa discutir de forma aprofundada todo o seu sistema de justiça criminal e as suas consequências, pois ele é a raiz de muitas distorções de nosso dia a dia.

 

[1] https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/11/18/eleicoes-2020-candiadatos-policais-prefeito-vereador.htm

[2] https://piaui.folha.uol.com.br/policiais-e-militares-elegeram-50-prefeitos-e-807-vereadores/

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