Por que o desmonte da Escola SESC importa para o Brasil?

REDAÇÃO

Atualizamos nossa política de cookies

Ao utilizar nossos serviços, você aceita a política de monitoramento de cookies.

Ananda Marques, Mestra em Ciência Política pela UFPI

Daniel Castro, Mestre em Educação pela UFRJ

Se há um fenômeno matemático que quando ocorre propicia as maiores felicidades e as piores tristezas é o da exponencialidade. De grande fortuna é aquele que, mesmo começando com pouco, viu seu investimento crescer exponencialmente ao longo da vida. Mas infelizes de nós que há pouco menos de dois anos recebemos a notícia de uma única morte por um novo vírus e, hoje, ultrapassamos a marca dos cinco milhões que nos deixaram. Seja em um mar de alegrias ou de tristezas, é o tempo o fator mais importante do crescimento exponencial.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Talvez despercebido por quem passa pela Avenida Ayrton Senna, 5677, no Rio de Janeiro, que ali aconteça um dos fenômenos exponenciais mais potentes da humanidade: uma escola. Inaugurada em 2008 e nascida do sonho de levar aos mais diversos cantos do país profissionais com forte compromisso social e que buscam impactar suas realidades locais, a Escola Sesc de Ensino Médio é o lar de centenas de meninos e meninas. Provenientes de todas as unidades federativas,  saem de suas casas aos 15 anos com o sonho de mudar suas vidas através da educação, mas se formam com o compromisso de também melhorar o mundo em que vivem.

Engana-se quem pensa que, dado ao seu tamanho e impressionante estrutura, seja uma tradicional escola de elite do Rio de Janeiro. Na ESEM não há mensalidade, os alunos passam por processo seletivo em seus estados e o fator socioeconômico tem grande peso na aprovação. A filha da empregada doméstica de São Paulo tem acesso a um currículo humanístico, em tempo integral e com arquitetura pensada para o apoio pedagógico e interações sociais de qualidade. Ela compartilha o dormitório com mais duas, uma baiana filha de professora da educação básica e uma mineira filha de pais advogados.

É difícil de acreditar, mas em 131mil m² de escola está o país inteiro. Os sotaques e culturas regionais de norte a sul são uma verdadeira aula de brasilidade. Nos domingos de manhã não se joga apenas futebol no campo, os alunos batem um baba, chutam uma bola, disputam uma pelada. As músicas regionais percorrem o cotidiano escolar e sempre se ouve diálogos inusitados do tipo “eu não sei o que é pinhão, mas aposto que pequi é melhor”. A vivência é pedagógica, a aprendizagem é cotidiana, seja em sala de aula, no dormitório ou restaurante. A convivência constante com os professores, vários residentes na própria escola, propicia um trabalho aprofundado, desenvolve relação fraternal e cria admiração com o trabalho docente. Não por acaso, muitos estudantes concluem o ensino médio e seguem para os cursos de licenciatura.

A escola “que não reprova por notas” tem diversos louros. O desempenho em leitura, matemática e ciências da escola no PISA 2015, segundo a OCDE, está acima da média mundial, ultrapassando a média de países como Finlândia e Japão, feito raro para escolas brasileiras. Os resultados classificam-na como uma instituição que produz excelência com equidade, com desempenho muito além do esperado para o nível socioeconômico de seus estudantes. Anualmente a Escola Sesc de Ensino Médio figura entre os 2% de instituições com melhores notas no ENEM.

A aprovação na universidade é unânime, uma escola com formação humanística e que não foca na prática para o concurso invejaria os principais cursinhos pré-vestibulares do país. Em apenas 13 anos de existência possibilitou a formação de centenas de profissionais qualificados, com  enorme capital cultural e comprometidos com o impacto social. São médicos, professores,  engenheiros, advogados, artistas, empresários, cientistas e até mesmo políticos, muitos são considerados expoentes em suas áreas de atuação e nenhum tem sequer 30 anos de idade. O que não faltam são pais com lágrimas nos olhos ao ver seus filhos trazendo o primeiro diploma universitário para dentro de casa. Imaginem o impacto que esses jovens que se espalham pelo Brasil podem propiciar. É exponencial, mas precisa de tempo.

Lamentavelmente, um projeto educacional inovador que transformou a vida de milhares de brasileiros e é um farol para a educação do país, está em risco. A ESEM, depois de treze anos de funcionamento, onze turmas, mais de 2100 alunos de todos os estados e atualmente funcionando como Polo Educacional Escola SESC, pode deixar de existir como conhecemos. Mas, o leitor há de se perguntar: qual a importância desta escola em específico para o Brasil? E por que ela é motivo de tamanha mobilização?

A educação é um dos indicadores de desenvolvimento humano, mensurada por organismos internacionais através dos anos médios de estudo e os anos esperados de escolaridade, que possibilitam verificar como um país proporciona o acesso à educação a seus cidadãos. E por que a educação impacta no desenvolvimento humano? Amartya Sen, nobel da economia de 1998,  em “Desenvolvimento como Liberdade” define desenvolvimento como a expansão das liberdades substantivas dos seres humanos, ampliando a perspectiva que o vê como sinônimo de crescimento econômico. Sen explica que é preciso o acesso à educação para que efetivamente as pessoas escolham com liberdade e as nações se desenvolvam.

Foi apenas nos anos 2000 que universalizamos o acesso aos anos iniciais do Ensino Fundamental. Quase duas décadas se passaram e esse cenário, contudo, não chegou ao  Ensino Médio. Segundo o Observatório do PNE, apenas 75% dos jovens de 15 a 17 anos estão nessa etapa escolar no país e uma parte expressiva ainda continua no Ensino Fundamental após repetitivas reprovações. Infelizmente muitos, em especial os meninos negros e pobres, irão abandonar a escola antes mesmo de sonharem com o diploma de conclusão da Educação Básica.

Não concluir a Educação Básica com qualidade é garantir um ciclo de desigualdades e estratificação. Relatório recente do Banco Central indicou, a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), que entre 2012 e 2018 houve crescimento médio de 12% na renda dos brasileiros devido ao aumento dos anos de estudo. O que reforça a já conhecida correlação entre escolaridade e renda e seus impactos no desenvolvimento de um país. Mas, analisando para além das dimensões quantitativas, há uma questão de qualidade da educação, e, portanto, da trajetória histórica de uma nação.

No Brasil, este tem sido um tema antigo, mas historicamente relegado ao segundo plano nas campanhas eleitorais e programas de governo. Darcy Ribeiro tentou resumir essa história num aforismo que todo quinze de outubro ganha as redes sociais “A crise na educação brasileira não é uma crise, é um projeto”. E, apesar dos avanços das últimas décadas – entre 1992 e 2018, a média dos anos de estudo da população ocupada dobrou, ainda há uma longa estrada para que a educação seja um direito garantido a todos seus cidadãos, e principalmente, para que seja um motor do desenvolvimento.

A ESEM representa para o Brasil um laboratório de práticas educativas inovadoras, que possibilitam o desenvolvimento de capital humano através do acesso à educação de excelência, cultura, saúde e lazer numa perspectiva multidimensional. Uma única escola prova que a educação transforma e multiplica, e que educação feita com afeto ultrapassa qualquer barreira. Evidências de seu sucesso ao longo dos anos existem aos montes. Que ela mude com o tempo é razoável, mas, o que a mobilização em curso reivindica é por mais tempo, tempo para que o fenômeno da exponencialidade continue a acontecer e mais brasileiros tenham a oportunidade de crescer e transformar mundos através da educação.

Encontrou algum erro? Entre em contato