Peronismo à moda de Brasília

Peronismo à moda de Brasília

REDAÇÃO

28 de outubro de 2020 | 15h14

Ruben Cesar Keinert, é professor Titular aposentado da FGV/EAESP

 

“Triste [Brasil], oh, quão dessemelhante

Estás e estou do nosso antigo estado”

Caetano Velloso, Triste Bahia

 

 

Tenho usado a expressão do título para caracterizar os rumos presumíveis do governo Bolsonaro. O recurso ao regime peronista, penso, ajuda a entender a situação política brasileira atual de modo mais fino do que grandes cortes como fascismo ou protofascismo. Como poucos lembram ou leram a respeito de Perón – a bibliografia é escassa – vou expor alguns traços do seu governo e depois fazer a relação com o que se passa entre nós.

Juan Domingo Perón, coronel do Exército, aproximou-se da política nos anos de 1940 na onda dos governos militares que se sucederam, na Argentina, desde 1930. Oscilando entre os Aliados e o Eixo no início da II Guerra Mundial, o governo daquele momento preferiu ficar neutro. Em 1943, o GOU, Grupo de Oficiais Unidos, de inclinações conservadoras, católicas e nazifascistas, tomou o poder com intenção de aproximar-se de Alemanha e Itália. Perón foi nomeado ministro do Trabalho e Previdência e, nesta condição, foi estabelecendo bom relacionamento com os novos trabalhadores vindos dos arredores de Buenos Aires e das províncias e engajados na indústria de bens leves de consumo que estava se expandindo durante a guerra. Esses operários eram discriminados socialmente pela elite da capital e passaram a se sentir acolhidos pelas medidas simpáticas tomadas por Perón.

Ao final do conflito bélico, o governo argentino foi pressionado a aderir aos Aliados. Com sua liderança em crescimento, Perón foi designado ministro da Guerra e Vice-Presidente. Essa sua projeção, porém, causou descontentamento nos círculos mais conservadores e custou-lhe a demissão e prisão pela desconfiança, em relação às suas pretensões, do então presidente Farrel, que já o considerava mais um competidor do que aliado. Foi quando a CGT, Confederação Geral dos Trabalhadores, organizou uma manifestação-monstro na Plaza de Mayo em prol da sua libertação e teve início uma forte conexão entre Perón e os sindicatos organizados. Na sequência, libertado e em triunfo, Perón candidatou-se e foi eleito Presidente, com forte mobilização popular. A entrada da Argentina na Guerra ao lado dos Aliados e a previsível derrocada do Eixo enfraqueceram o poder do Grupo de Oficiais Unidos.

Na presidência, deu sequência à criação de uma ampla legislação de proteção trabalhista e previdenciária, beneficiou-se de uma espécie de bolha econômica propiciada pelo surto industrial que ainda perdurou por alguns anos, elegeu como inimigos a oligarquia rural e o capital estrangeiro (dando início a uma série de nacionalizações de empresas) e ofereceu-se para ser o Grande Líder que conseguiria unir a Argentina. Em tudo isso, contou com o apoio de sua carismática esposa Eva Duarte de Perón, que desenvolveu – enquanto vivia – uma grande fundação voltada para assistência social e, talvez mais do que isso, uma mobilização muito grande em prol da filantropia.  Além disso, chegou a fundar um partido peronista feminino, que foi significativo para a reeleição do marido em 1951.

Estes elementos levaram a que o peronismo fosse em muitos casos aproximado do varguismo brasileiro, o que não é descabido dado que os dois regimes, cada um a seu tempo, conviveram e flertaram com o fascismo real e o que sobreviveu dele no imaginário político dos anos quarenta e cinquenta do século XX. Havia, entretanto, dessemelhanças. A primeira diferença entre os dois está em que Vargas tinha um grande projeto de nação e consolidou o Brasil urbano-industrial, enquanto Perón não foi além de buscar confirmar a sua liderança pessoal por meio de uma mudança cosmética que mais conservou a Argentina profunda nos mesmos termos de antes do que a alterou.

O segundo traço distintivo entre ambos os regimes está em que Perón conseguiu uma ampla mobilização a seu favor e que se enraizou no sistema político-partidário local. As manifestações constantes dos trabalhadores, pensionistas e das mulheres transformaram-se em força de apoio considerável ao peronismo. Para complementar, tirando vantagem do avançado aparato de comunicações e educacional argentino, Perón estimulou o “culto à personalidade” de Evita, como passou a ser conhecida sua esposa e a si mesmo, que alcançou o cinema, o rádio, a imprensa, as escolas, o esporte e que enfrentou dificuldades para ser implantado na Universidade e na literatura.

Os elementos distintivos entre o peronismo e o varguismo são os que mais se assemelham ou inspiram o bolsonarismo. Basicamente são, eles, o relativo abandono da cena internacional e o enfoque principal na consolidação do poder interno consubstanciado na reeleição.

O Brasil nunca foi um protagonista nas relações internacionais, como é sabido, porém foi ganhando destaque, ao longo do tempo, pelo seu “soft power”. Este poder brando, por assim dizer, teria sido conseguido pela defesa consistente de princípios considerados relevantes para a independência e a autonomia das nações, para a manutenção da paz e dos direitos humanos, para a resolução de conflitos e para a defesa do multilateralismo e dos próprios organismos internacionais. Enfim, o Brasil era um “player” de segunda ordem – porém um “player” – reconhecido pela habilidade de negociação e pelas posições equidistantes das grandes potências, cultivadas por sua diplomacia. Em 2019, essa posição foi trocada pela de coadjuvante, com a pretensão de tornar-se protagonista por monitorar e pastorear as ovelhas da nova direita internacional, como se Hungria, Polônia, India, Israel, Chile, Paraguai, Uruguai e Argentina, ainda na gestão Macri, desejassem fazer parte do seu rebanho. Dado o fracasso de tal empreitada, em 2020 o Brasil preferiu “despontar” para mero figurante, com risco de tornar-se pária internacional, o que acaba de ser cogitado pelo seu ministro de Relações Exteriores.

Na frente interna, vale a pena fazer uma pequena ressalva, antes de prosseguir. Como se viu nas experiências totalitárias do século XX, quando as nações abandonam a perspectiva liberal-democrática necessitam encontrar um sucedâneo para o conjunto de valores, crenças e atitudes presentes naquela orientação para oferecer aos cidadãos. Este conjunto tem sido criticado porque mascararia a realidade das relações sócio-econômicas desfavoráveis aos trabalhadores, conteria muita manipulação política e manteria forte desigualdade. Porém não se pode deixar de reconhecer que o que move as sociedades democráticas (e capitalistas) são os princípios de liberdade, igualdade, fraternidade, justiça e defesa da propriedade privada e da liberdade de iniciativa, para não entrar em detalhes. Nos impérios, pasme-se, prevalece a ideia de que o importante é a grandeza da família governante, que se confunde com a grandeza do Império. E o que o imperador decide, como numa grande família, é considerado justo, fraterno e igualitário, mesmo que não o seja.

Quando os governantes (e movimentos políticos) afastaram-se do ideário democrático-liberal, no século XX, buscaram como temas de mobilização, em substituição aos mencionados, a criação do homem novo e da nova sociedade. Isso aconteceu no nazismo, no fascismo e no regime soviético. A ideia geral era que a verdadeira emancipação do homem estava na sua participação ativa na nova sociedade a ser criada. Assim surgiriam o homem superior na sociedade nazista, o homem combatente na sociedade fascista e o operário na sociedade soviética.

Perón propunha um simulacro da dialética homem novo/sociedade nova, uma grande bolha isolada da comunidade externa, com os trabalhadores sendo protegidos pelo Estado paternalista argentino e com os pobres protegidos pelas obras sociais de Evita. De início, essa mensagem foi passada em um invólucro de grande produção de Hollywood, com a Primeira Dama ricamente vestida e Perón devidamente paramentado em trajes e uniformes de gala em solenidades e recepções na Casa Rosada e no Palácio de Olivos. Gradativamente, esse décor foi sendo substituído por cenas de fervor religioso e de devoção aos doentes e necessitados para onde foi se dirigindo Evita, com a evolução de sua enfermidade. Ou seja, criou-se um ambiente propício para se acreditar que estava estabelecida uma nova sociedade para o homem e a mulher peronistas.

Feitas as adequações de tempo e espaço, encontram-se as semelhanças com o que se passa e se busca no Brasil no governo Bolsonaro. Na bolha brasileira, o culto à personalidade é uma obviedade, embora com sinais diferentes. O presidente quer passar a imagem de um homem comum despojado de hábitos aristocráticos. Ao mesmo tempo, afirma-se como alguém que não se subordina às instituições, à opinião da mídia, às determinações da ciência e aos princípios dos organismos internacionais e multilaterais, sobretudo no que diz respeito a direitos humanos e meio-ambiente. Não tem pretensões aristocráticas, mas cavalga pelas praças, caatinga, florestas, pelo Pampa e pelos manguezais e restingas brasileiras com a mesma desenvoltura que um cowboy do velho Oeste americano o fazia pelas pradarias e pelas terras áridas da região. O mundo que se dane, ele é Herói aqui no Brasil.

Falta-lhe uma Evita de carne e osso, mas tem a ministra/pastora regressista Damares, o incendiário ministro Salles abrindo espaço para a devastação ecumênica da Amazônia, o ministro solipsista Eduardo Araujo e outros tantos que fazem piedosamente o que a senhora Perón fazia sozinha. Por via das dúvidas, conta com a chancela do 5º. Regimento de Cavalaria Montada e xerifes locais espalhados pelo Brasil. Bolsonaro não sabe que repete Perón, prefere imaginar-se nos Estados Unidos do século XIX. Dispõe, ainda, para o culto à sua personalidade das hostes pentecostais e neopentecostais que ocupam as periferias das grandes cidades e as pequenas comunidades do interior e dominam fatia importante dos canais de comunicação de massa. É um contingente de pessoas preparadas para obedecer às palavras dos seus pastores como se fossem as de um deus. Não é difícil transpor essa obediência para um líder político abençoado pelos pastores.

Tal como na Argentina de Perón, a interferência no sistema educacional enfrenta problemas, no entanto. As infelizes escolhas de ministros neste campo têm prejudicado a intenção de converter a Escola em um reduto pré-moderno. A observar, também, que o país dispõe de excelente massa crítica no pensamento educacional, técnicos e professores muito qualificados neste campo, apesar dos percalços que enfrenta.

Finalmente, para manter a sua bolha e a crença de que o Brasil pode viver apartado do mundo e ser feliz, o presidente conta com o aumento da sua influência no Congresso e com a possível interferência direta no Judiciário, com nomeações de novos integrantes e de escolhas preferenciais para o Ministério Público.

Em resumo, afastando-se da comunidade internacional e inflando uma bolha que, sob o culto à personalidade do Líder, permite uma maioria forte imaginar que encontrou o caminho reto e probo numa coletividade que almeja ganhar uns trocados terrenos e a salvação eterna seguindo palavras e motes que lhes dá segurança psicológica, o regime brasileiro vai se aproximando à sua maneira da experiência peronista dos anos cinquenta do século passado.

 

 

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