Percepção sobre as eleições presidenciais americanas

Percepção sobre as eleições presidenciais americanas

REDAÇÃO

03 de novembro de 2016 | 07h56

Daniel Greco Aith, é aluno do 6º semestre de Administração Pública na FGV. Assim como Eliana Lins e Renata Leal, que já escreveram sobre o tema, Aith está participando do programa de intercâmbio do The Washington Center, em Washington DC, onde cursa gestão de organizações do terceiro setor e desenvolve Estagiário em pesquisa na “Lobbyit.com”, empresa de relações governamentais focada em pequenas empresas, terceiro setor e municípios. Atualmente trabalha na criação de uma coalização de cidades costeiras dos Estados Unidos da América.

 

 

Nas eleições para a presidência dos Estados Unidos assiste-se a um embate entre o candidato republicano Donald Trump, um empresário outsider do mundo da política, e a candidata democrata Hillary Clinton, envolvida com o ambiente politico desde os anos 1980, e que vem se preparando para disputar a presidência desde as eleições de 2008.

Chama atenção, algo que também já foi citado pelas colegas Renata Leal e Eliana Lins, a altíssima rejeição dos dois candidatos. Uma pesquisa encomendada pelo jornal Washington Post no final de agosto revelou que 56% dos americanos veem Hillary de maneira negativa, enquanto 63% enxergam Trump do mesmo modo. O descontentamento com os candidatos permite levantar uma questão: por que não existe uma terceira via? A resposta pode esta no modo em que o sistema eleitoral americano está organizado e que torna muito difícil o surgimento de mais de dois candidatos fortes para o pleito, além do fato de a legislação eleitoral americana ficar a cargo dos Estados.

Para que se concorra com chances reais de êxito seria preciso cumprir os requisitos mínimos de cada um dos 50 estados do país, algo difícil quando não se conta com a estrutura partidária dos democratas ou dos republicanos. Apesar disso, existem duas candidaturas alternativas: a de Gary Johnson, ex-governador do Novo México e candidato pelo Partido Libertário, e a de Jill Stein, do Partido Verde. Ambos são populares com o eleitorado mais jovem e mobilizam o voto ideológico. Mas suas chances esbarram na falta de visibilidade pública. Para um candidato participar dos debates é preciso atingir 15% das intenções de votos em pelo menos cinco pesquisas diferentes. Dessa exigência decorre um ciclo vicioso: se o candidato não é conhecido do grande público, ele também não terá meios para ampliar sua popularidade e, assim, sua candidatura estará de antemão fadada ao fracasso. São raros os casos em que um candidato alternativo influenciou o resultado final, como nas eleições de 2000 quando Ralph Nader do partido verde absorveu parte dos votos de Al Gore na Florida, o que contribuiu para a derrota do democrata.

Em relação ao debate eleitoral, chama muita atenção o papel que a política externa tem tido nas discussões. Um tema muito relevante, e já esperado, dada a profunda inserção americana no mundo e a predominância de seu papel geopolítico. É interessante ver a atuação do país na Síria, sudeste asiático e em trade agreements tomargrande parte do noticiário e das discussões nas plataformas eleitorais. No Brasil, ao contrário, é difícil imaginar que a visão de um candidato sobre a Venezuela ou acerca do Mercosul possa ser decisiva para a formação do voto. Outro fator interessante de se observar é como a Suprema Corte está aparecendo na agenda dos debates. O próximo presidente americano será responsável por indicar até quatro juízes. Caso Hillary venha a ser eleita é muito provável que a maior parte da Corte seja composta por membros com inclinações liberais, algo que não ocorre há algumas décadas. Por exemplo, o problema do aborto, questão que será tratada mais a frente pela Suprema Corte Americana, poderá sofrer uma mudança de rumo com a alteração da composição do Órgão. Esse é um dos motivos pelos quais o Partido Republicano e grupos conservadores não abandonaram por completo a candidatura de Trump.

Como já ressaltado antes pelas minhas colegas Renata Leal e Eliana Lins, Washington é uma cidade predominantemente democrata, então é interessante observar como os ânimos da cidade e dos americanos foram mudando desde agosto. Antes todos davam a vitória da Hillary como certa e não levavam Trump muito a sério. Todavia, com o desenrolar da campanha sua candidatura foi se consolidando em meio a escândalos relacionados ao seu passado. As polêmicas em torno dos áudios vazados em outubro deram a impressão de que a eleição estaria garantida para a candidata democrata. Mas algumas semanas depois Trump voltou a crescer. O fato de o FBI ter retomado as investigações sobre os e-mails trouxe mais instabilidade e tornou o resultado dessa eleição ainda mais imprevisível.

 

 

 

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