Paris, 13 de novembro 2015: um relato entre a bárbarie, a incerteza e a esperança

Paris, 13 de novembro 2015: um relato entre a bárbarie, a incerteza e a esperança

REDAÇÃO

14 Novembro 2015 | 22h08

Zilma Borges, professora de Gestão Pública na FGVSP e pesquisadora em Ação Pública, Dinâmicas Territoriais e Desenvolvimento Urbano-Rural no centro de Estudos em Administração Pública e Governo(CEAPG-FGV). Realiza, atualmente, pós-doutorado na Université Paris-Dauphine e na École des Hautes Études en Sciences Sociales-Paris.

 

No período de um ano e alguns meses que estou morando em Paris, essa é a segunda vez que a cidade sofre ataques que desestabilizam a sociedade e que se mostram eficazes em gerar um sentimento de medo e terror.

O primeiro ocorreu ainda em janeiro com o objetivo de demonstrar, de forma destruidora, oposição ao tipo de jornalismo que o periódico Charlie Hebdo fazia contra o islamismo extremista. Daquela vez o povo francês foi às ruas na “Marche Républicaine”, manifestação que foi conclamada como uma chamada contra o terrorismo e pela defesa da liberdade de crítica, do direito à fala e à diferença. A população respondeu ao chamado, e mais de 1,5 milhão de pessoas caminhou entre a Place de la République e a Place de la Nation, sem palavras de ordem, sem cantos, com conversas à meio tom, em sentimento de luto e palmas que vinham aos poucos como uma onda, passavam e deixavam novamente o silêncio.

Nesse 13 de novembro, o ataque foi ao cidadão comum, ocorreu no cotidiano de uma sexta-feira à noite, como um atentado ao direito de ir e vir, à liberdade de circulação. Sem alvo específico, as mortes foram definidas pelos locais. Em casa de show e bares de bairros movimentados, perto da Place de la République, local que simboliza a organização das grandes manifestações populares em Paris, como a ocorrida após o atentado ao Charlie Hebdo.

Pelas análises de especialistas, o objetivo traçado pelo grupo jihadista Estado Islâmico, que reivindicou o ataque, não teria sido completamente alcançado, porque homens-bomba não conseguiram entrar no Stade de France, durante o jogo da França contra a Alemanha. Mas conseguiram mandar um forte recado de força e planejamento, diretamente para François Hollande, presente no estádio.

Paris ser atacada de novo representa uma fragilidade do Sistema Internacional e hoje o discurso do presidente era de que a França está em estado de guerra. Neste período no país, entre os dois atentados, pude perceber melhor o que a palavra guerra significa. A memória resgatada em placas nos locais onde soldados e cidadãos foram mortos, homenagens públicas constantes para que ninguém se esqueça da dor e das perdas, hábitos de consumo moderados no âmbito privado e no uso de bens públicos, são efeitos perceptíveis nas gerações dos filhos de quem viveu a guerra e sentiu a escassez.

No atual momento os problemas relacionados à imigração e à intolerância religiosa mostram uma realidade ainda longe de soluções que deem conta da complexidade social que foi posta em xeque. Os debates públicos sobre os erros das políticas colonialistas do passado, as regras de austeridade nas fronteiras, as constantes mortes de refugiados em fuga de seus países. Tudo isto faz sentir uma interconexão entre a Europa, o oriente-médio e Àfrica de uma forma muito visível. Interconexão que sempre esteve presente nas estratégias de crescimento econômico, nas relações internacionais e nos jogos de poder.

Mas há uma clara diferença agora: tudo isso é possível de se sentir nas ruas. As filas de controle para entrar nos museus, nas Universidades, em igrejas e monumentos, o número de policiais fortemente armados nos metrôs, a sensação de vigilância e controle no cotidiano. Desde janeiro 2015 isto foi reforçado e deixa uma ameaça no ar para franceses, turistas e quem esteja morando em Paris. Mas, até 13 de novembro, a cidade ainda guardava uma sensação de segurança nas ruas.

Hoje, dia 14, quando vi as fotos das filas de doação de sangue em hospitais franceses, uma resposta imediata de uma população que não se fechou em casa e enfrentou a insegurança, lembrei da demonstração coletiva que senti na passeata do Charlie Hebdo. Tenho visto maneiras solidárias de viver do povo francês, que me parecem tão preciosas para eles, como o interesse em discutir seriamente e argumentar sobre questões políticas, a vida em sociedade, e a economia.

As formas de viver o coletivo me chamam a atenção. Em razão do tipo de trabalho que realizo aqui, estive em contato com associações, empreendimentos populares, squats (moradias populares), as formas de sociabilidade na banlieue (periferia) parisiense. Participei de debates sobre inovação na forma de construir as políticas públicas e de diálogo entre sociedade e Governo. Todavia, junto a tudo isto, algo amedronta: o risco de propagação de visões nas quais o cidadão comum passe a ver o outro como ameaça, a personificar os problemas e culpabilizar o estrangeiro ou apenas quem pense diferente, como sendo a causa dos problemas e, além disto, passível de ser atacado.

Fica a constatação de que precisamos repensar a educação política e as formas de debate sobre a sociedade, para poder gerar projetos que incluam as controvérsias como parte da história, com toda a sua complexidade. Mas voltamos também, não só na França, ao reconhecimento de quanto é fundamental redirigir as questões sobre a responsabilidade dos Estados e o papel da sociedade na construção de soluções inclusivas e de outros modelos de desenvolvimento.