Paraná: cinco meses de pandemia

Paraná: cinco meses de pandemia

REDAÇÃO

25 de agosto de 2020 | 16h10

Luiz Fernando Vasconcellos de Miranda – Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da Transparência Brasil. É professor visitante da Universidade Federal da Integração Latino-americana (UNILA) onde atua nos cursos de Administração Pública e Políticas Públicas e no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Desenvolvimento. Contato: lfmiranda2005@yahoo.com.br

 Rodrigo Rossi Horochovski – Doutor em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde atua no curso de Administração Pública e nos Programas de Pós-Graduação em Ciência Política e em Desenvolvimento Territorial Sustentável. Está vinculado ao Laboratório de Análise de Redes (LAR-UFPR) e ao Laboratório de Análise do Campo Científico (LaCC-UFPR), do qual é coordenador. Contato: rodrigoh33@gmail.com

 Maiane Bittencourt – mestranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). É pesquisadora vinculada ao Laboratório de Análise do Campo Científico (LaCC-UFPR) e ao Observatório de Elites Políticas da Universidade Federal do Paraná. Contato: maiane.ctba@gmail.com

 

O estado do Paraná foi um dos últimos a ver o crescimento de casos e óbitos por Covid-19 se acelerar. Quando se observam as curvas de casos e óbitos nota-se que, a partir do dia 5 de abril, há um crescimento acentuado da curva até cerca do dia 15 do mesmo mês, quando ela perde força. Esses dias não foram suficientes para fazer o número absoluto de casos crescer significativamente no período. A partir daquele momento, o Paraná passa a ter uma curva mais suavizada, que vem crescendo em escala logarítmica com tendência a suavização paulatina. Ate o dia 21 de agosto o Paraná computava 122.245 casos confirmados e 2.891 óbitos. Quando olhamos os dados ponderados por cem mil habitantes temos 982 casos computados e 25,28 óbitos por cem mil.

A reação inicial do governo do estado frente à Pandemia foi quase de todo positiva. Pôde-se ver o governo emitir uma série de decretos para regular o isolamento social, bem como ele se utilizou de algumas de suas empresas estatais – por exemplo, de saneamento (Sanepar), a de energia (Copel) e a de habitação (Cohapar) para oferecer tarifas sociais e até suspensão de cobranças de financiamento. Ratinho Junior (PSD) também se esforçou para aumentar o número de leitos de enfermaria e de UTIs, uma das necessidades urgentes de combate à covid daquele momento. Vimos, portanto, um aumento da infraestrutura hospitalar do estado.

É também naquele momento que surgem as pressões empresariais para a diminuição das regras de isolamento, ou mesmo sua suspensão. A reação do Palácio Iguaçu foi a de sentar para negociar com os vários ramos empresariais e ofertar compensações com perdas de arrecadação, suspensão de dívidas e prorrogações de prazos de precatórios. Esta disputa por interesses divergentes, a qual ainda tem embates atualmente, teve como desfecho parcial, em abril, a decisão do governador Ratinho Junior de delegar a palavra final sobre o isolamento social às prefeituras, essas muito mais sensíveis a pressões empresariais locais e regionais.

No mês de maio ainda encontramos o estado numa situação de relativo controle sobre a doença. O número de casos e óbitos vinha subindo, mas o Paraná era um dos estados menos afetados pela covid. Até o dia 16 de maio havia uma tendência de achatamento ligeiro da curva, e, depois um ritmo de crescimento um pouco alto, mas o estado ainda apresentava números absolutos pequenos (pouco mais de dois mil casos e 200 mortes registradas). Um dado que poderia estar camuflando esse cenário seria a baixa testagem entre a população. Não somente o estado do Paraná, o Brasil como um todo, carecia de verificação do nível de contágio entre a população. A ideia de uma testagem em massa vem com o princípio sanitário que, conjugado com o isolamento social, permitiria identificar mais precisamente os infectados para, num segundo momento, rastrear os contatos destas pessoas e isolar os outros infectados. Assim, se conseguiria fazer uma reabertura segura e a economia e a vida social poderiam se restabelecer sob um nível controlado. Isto foi exatamente o que não fizemos. A testagem continua baixa no Paraná e nos outros estados brasileiros. O que podemos afirmar sobre esse período é que o Paraná provavelmente se beneficiou dos decretos sanitários assinados pelo governador até meados de abril. O que começa a acontecer, naquele momento, mas que só se verá com mais força no mês de julho é um turning point. Se o estado vinha se beneficiando de medidas sanitárias adequadas, com o fim de uma política um pouco mais austera de controle do isolamento social e as reaberturas precoces de alguns dos municípios, o jogo da pandemia, que o estado parecia estar ganhando, vira contra o próprio estado.

O mês de junho consolida a tendência de crescimento de casos e óbitos no estado do Paraná, tendência observada em todos os estados da Região Sul e em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, na região centro-oeste. A impressão que se tem é a de que, em se tratando exclusivamente do Paraná, a força para manter as medidas sanitárias corretas se esgotou e o que passamos a ver é um cenário onde as recomendações da OMS não são cumpridas[i]. Abaixo encontram-se os mapas dos casos e óbitos confirmados por Covid-19, no dia 24 de julho. Eles começam a retratar parte dessa reversão de cenário.

 

Mapa 1 – Casos Confirmados de Covid-19 no Paraná em 24/07/20

 

 

Mapa 2 – Óbitos Confirmados por Covid-19 no Paraná em 24/07/20

 

 

O que já é possível verificar, numa análise inicial dos mapas, é que a pandemia já havia se espalhado por boa parte dos municípios do estado, mas se concentrava, principalmente, na região litorânea, metropolitana, norte e oeste. Estes dados parecem corroborar, por sua vez, o mapa sobre ‘Vetores Rodoviários da Covid-19 no estado do Paraná’, que mostra como os eixos rodoviários são fortes fatores explicativos para a propagação do vírus[ii]. Se seguirmos nossa análise e compararmos o Paraná com os outros estados da federação veremos, entretanto, que o número absoluto de casos e óbitos, e números proporcionais por cem mil, continua relativamente baixo.

 

Gráfico 1 – Número absoluto de Casos e Óbitos por UF (21/08/20)

 

 

Gráfico 2 – Número de casos e óbitos por cem mil habitantes (21/08/20)

 

 

Malgrado não temos ainda uma resposta de por que o Paraná, mesmo tendo alavancado o número de casos e óbitos, não tem curvas tão acentuadas quanto a de outros estados, sabemos que as medidas sanitárias previamente tomadas provavelmente retardaram a subida das curvas. E, uma vez que os casos e óbitos permaneçam crescendo em escala logarítmica, faz-se necessário dar atenção redobrada ao problema. O que nos cabe perguntar, neste momento, ainda que só tenhamos algumas pistas, é por que os agentes políticos, nomeadamente governador e prefeitos, sabedores da necessidade de um isolamento social mais rígido, cederam às pressões econômicas. Dito isto, podemos apresentar as curvas atualizadas de casos e óbitos, em escala logarítmica, no estado do Paraná.

 

Gráfico 3Crescimento dos casos e óbitos no Paraná (27/03/20 a 21/08/20)

 

 

Apesar de vermos pequenas oscilações de crescimento, ora com maior angulação, ora com menor, o momento da pandemia no estado não permite afirmar se seguiremos crescendo em casos e óbitos ou se a quantidade de pessoas contaminadas que desenvolveram anticorpos, somada a uma parcela da população que é naturalmente imune à doença, já teria construído uma barreira natural de imunidade.

O que nos parece preocupante é o fato da descoordenação política entre governo federal, governo do Paraná e prefeituras resultar numa cessão aos interesses econômicos sobre os interesses de saúde coletiva. Ao contrário, não nos parece que interesses econômicos e interesses sanitários sejam, de fato, divergentes. Análises preliminares indicam que a arrecadação estadual está negativamente associada ao número de casos[iii]. Este dado empírico tem respaldo num raciocínio econômico pelo qual se deduz que o aumento de casos conduz a um desaquecimento do mercado de trabalho, da produção e da renda, e que pode conduzir a uma recessão econômica caso a pandemia não seja contida.

Uma vez que política e economia, na prática, são indissociáveis, resta-nos olhar para a questão do momento: a reabertura das escolas. Já que pais e mães de alunos precisam retornar aos seus trabalhos, ou simplesmente ter um espaço para trabalhar e que as escolas privadas se veem em risco de fecharem suas portas por abandono de seus alunos, começamos a ver um movimento de articulação que visa ao retorno das aulas presenciais. É claro que a economia não pode ficar indefinidamente estacionada e que quanto mais parada maior a chance de uma grande recessão. Isto é um fato inegável. Com esta justificativa não se deve, entretanto, fazer movimentos de reabertura sem amparo científico. O que vemos, na prática, é que a ansiedade do governo federal, de setores econômicos e de uma parcela da população para voltar a uma normalidade, inviável diga-se de passagem, tem-nos imposto uma pandemia mais alongada do que se tivéssemos imprimido uma quarentena mais dura de dois meses quando o cononavírus aterrissou no Brasil.

 

 

*O artigo faz parte do projeto ‘Os governos estaduais e as ações de enfrentamento à pandemia de covid19 no Brasil’ em parceria com a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP). O projeto tem a coordenação da professora Luciana Santana da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).  Esta é uma versão elaborada a partir de texto publicado no site da ABCP em 24 de agosto de 2020 no seguinte link:

 

[i] Maiores detalhes em: PATHERICK, Anna; GOLDSZMIDT, Rafael; KIRA, Beatriz; BARBERIA, Lorena (2020). ‘As medidas governamentais adotadas em resposta ao Covid-19 no Brasil atendem aos critérios da OMS para flexibilização de restrições?’ BSG Working Papper Series.

[ii] Maiores detalhes em: MONTEIRO, Ricardo; ANGELOTTI, Rangel; LAUTERT, Luiz Fernando; ANGELIN, Paulo Eduardo e PORTES, João (2020). “Rodovírus” ou “Caronavírus”? Mapas da Distribuição do Covid-19 na Região Sul do Brasil: Indícios da contaminação por rodovias. Confins. Revue franco-brésilienne de géographie/Revista franco-brasilera de geografia, (45). Disponível em: https://journals.openedition.org/confins/28246>. Acesso em 22/08/2020.

[iii] Maiores detalhes em: FERNANDEZ, Michelle; BERTHOLINI, Frederico; SANTANA, Luciana; PEDROZA, Marcos, PEREIRA, Letícia (2020). “Estados diante da pandemia de covid-19: uma dioscussão sobre distanciamento social e baixa arrecadação”. Jota, 19 de agosto. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/estados-diante-da-pandemia-de-covid-19-19082020?fbclid=IwAR2DdAqbQVDK-ymbPHinxRGsVqZvFgOlA6Fpzn0vgFnK0JE7Iu0PfzJTZEs>.  Acesso em 22/08/20.

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