Para onde fica a saída para o Pacífico na nova ordem mundial?

Para onde fica a saída para o Pacífico na nova ordem mundial?

REDAÇÃO

12 de março de 2022 | 11h31

Cristovão Henrique, Doutor em Geografia Econômica pela UFGD, Pós-Doutor em Geoeconomia pela UFG, Geógrafo e Internacionalista, Professor do Curso de Geografia do CFCH da UFAC, Pesquisador Visitante no Ipea e Diretor Estratégico do GeoLAB –  geoeconomico.com.br

Depois de dois anos de pandemia de COVID-19, chegamos a 57% da população do planeta vacinada. O saldo de seis milhões de mortes ocasionadas pela doença, parece não ter sacudido o mundo suficiente, já que, depois desse período tão difícil para humanidade, quando parecia surgir uma luz no fim do túnel, com as vacinas, nos deparamos com a maior tensão militar na Europa, desde a Segunda Guerra Mundial.

O notíciário internacional parou para acompanhar a instabilidade no Leste Europeu, protagonizado pela Rússia, que invadiu o território ucraniano em resposta ao avanço geopolítico indiscriminado da OTAN – Organização Militar do Atlântico Norte. Desde então, os especialistas em virologia e pneumologia formados pelo WhatsApp, os quais no pico da pandemia faziam suas análises, agora, como num passe de mágica, são Internacionalistas, Geoeconomistas e Geopolíticos.

A escalada do conflito armado é notória e assustadora a julgar pela capacidade de destruição da máquina de guerra Russa, segunda maior potência militar do planeta, que, há mais de 15 dias, faz o mundo assistir a cada movimento diplomático, tanto de Washington quanto de Moscou. Antes de mais nada, para já derrubar qualquer dúvida da torcida que toma as redes sociais, o avanço russo é uma contra-resposta ao avanço histórico e irresponsável da OTAN, que desde 1997, dobrou de tamanho na Europa em direção ao Kremelin.

Mapa 1: Otan 1997

A Ucrânia, desde 2014, é palco de tensão civil e militar no espaço, que, teoricamente, é de influência geopolitica russa. Entretanto, como Henry Kissinger, Ex-Secretário de Estado Americano apontou – “a política externa é a arte de estabelecer prioridades”. Kissinger e qualquer outro que olhar o mapa de Expansão da OTAN, vai entender o grau de prioridade que a OTAN estabeleceu.

Então, para impedir o avanço russo, criaram-se vários tipos de guerra no tabuleiro internacional, para além das tradicionais, uma delas muito bem conhecida no Oriente Médio e, agora, a guerra de narrativas cibernética, econômica. Já podemos sentir o resultado disso no Brasil pelos  choques nos preços dos combustíveis, promovidos pela PETROBRAS, na casa dos 19%.

O jogo geopolítico e geoeconômico global é um desenho estratégico,  extremamente minucioso, e não há espaço para amadores. Prisioneiro da geografia, o agronegócio brasileiro deve começar a sentir o desabastecimento de fertilizantes em virtude das sanções econômicas implementadas pelo mundo e corporações contra a Rússia.

Vale lembrar que a Petrobrás começou a construir, em 2011, uma fábrica de fertilizantes, a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III – UFNIII, em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. A planta dessa obra, que ficou anos parada, com equipamentos a céu aberto enferrujando, foi ironicamente vendida aos russos para ser uma mera misturadora de fertilizantes, sem o valor estratégico que detinha no desenho inicial.

Ao observarmos o cenário geopolítico na Europa, percebemos que os acontecimentos lá ocorridos atingem de imediato o Brasil, que já tem sua economia combalida com inflação de dois dígitos. Ainda assim, há uma janela de oportunidades na América do Sul, e uma agenda de integração regional pode encontrar, na saída para o Oceano Pacífico, o escape de todas essas turbulência, conseguindo, assim, resguardar uma economia já duramente atingida por dois anos de pandemia.

Por tal razão, neste momento, a ideia é reforçar as redes bioceânicas do continente sul-americano como complementares e competitivas, com iniciativas coordenadas em um projeto de integração geoeconômica na América do Sul, resiliente em direção aos mercados asiáticos. Pois a Ásia, até o momento, ao menos do ponto de vista produtivo, sinaliza escapar também da instabilidade no velho continente.

Mapa 2:  América do Sul

Enfim, tudo o que queremos neste momento é paz! E, absurdamente, não conseguiremos, pois estamos divididos entre eles contra nós, ou nós contra eles. Este problema não será resolvido em curto prazo porque a guerra, a cada dia, escala graus que jamais vimos nesta geração.

Nessa equação, as fronteiras mediterrâneas nas Américas – entendidas aqui com esse potencial bioceânico, sobretudo, nos Arcos Norte e Central da América do Sul – podem ser complementares e forjarem regiões ou sub-regiões geoeconômicas com performances positivas no campo do desenvolvimento produtivo. As rotas bioceânicas que estão em Mato Grosso, Rondônia, Mato Grosso do Sul, Paraná, e, em especial no Acre, poderiam trazer um protagonismo ao Brasil nessa transição geoeconômica e mediterrânea, em meio à tensão gerada pelo maior conflito armado desde 1945.

E como fica a saída para o Oceano Pacífico na nova ordem mundial no tão esperado pós-guerra e pós-COVID-19? A resposta está nos Estados mediterrâneos, no interior do Brasil, que congrega inúmeros desafios, potencialidades e desigualdades que agora devem ser enfrentados com a seriedade que o país precisa, sobretudo, em tempos de incertezas. Neste novo cenário que se desenha, existe uma performance que pode ser desempenhada enquanto Moscou e Kiev tentam o armistício, uma vez que a China, de olho no lance, move as peças no tabuleiro montando uma nova ordem mundial. E sabemos que quem dará as cartas é Pequim.

Referências

Henry Kissinger: To settle the Ukraine crisis, start at the end – https://wapo.st/3J603ov

UFN3 – A cronologia de uma novela sem fim – https://bit.ly/3CD4nJf

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