Pandemia, comunidade de destino e o declínio da guerra bolsonarista

Pandemia, comunidade de destino e o declínio da guerra bolsonarista

REDAÇÃO

20 de março de 2020 | 18h21

Daniel Pereira Andrade é professor de sociologia da FGV-EAESP

A pandemia traz consigo questões de saúde pública e econômicas que vem sendo amplamente abordadas na imprensa. Mas ela produz igualmente efeitos sociais e políticos, com consequências de curto e médio prazo. Interessa-me aqui entender como a forma de combate à pandemia desafia as estratégias de governo bolsonaristas, levando o presidente a escamotear a real gravidade da situação e os seus adeptos a desenvolverem teorias da conspiração sobre uma suposta armação chinesa para se beneficiar economicamente. Afinal, por que o bolsonarismo precisa atacar e desacreditar uma pandemia?

O conceito de “comunidade de destino” pode ajudar a jogar luz sobre a questão. Segundo Max Weber, determinados grupos como a “nação”, o “povo” e as “tribos” são constituídos por meio de um sentimento imaginário de comunidade. O que desperta esse sentimento podem ser várias coisas, como costumes compartilhados, laços de vizinhança ou uma mesma língua ou religião. Mas há outro componente constitutivo desse sentido de coletividade que é propriamente político. É a ideia de que um grupo possui um destino comum, ideia que se baseia tanto nas memórias de uma ação coletiva passada, como uma imigração ou uma conquista, quanto na percepção presente de uma ameaça externa, do dever de solidariedade com os membros desse grupo e da vontade de uma atuação política comum. A ideia de uma “comunidade de destino” é, portanto, um sentido subjetivo, uma “consciência tribal” que emerge do sentimento despertado por recordações e pela percepção de um futuro político compartilhado.

O corona vírus surge, hoje, exatamente como essa ameaça externa que faz emergir o imperativo da coletividade agir de maneira concertada, criando o dever de solidariedade entre um povo. A pandemia é algo que só pode ser superado coletivamente, promovendo o sentido de responsabilidade individual e com o próximo. Nesse sentido, o futuro só pode ser visualizado como uma construção comum, despertando o sentimento na população brasileira de pertencer a uma “comunidade de destino”. Quanto mais a ameaça avança, quanto mais os casos aumentam e as mortes se acumulam, maior é o sentimento de dever de solidariedade. Com isso, a reprovação moral àqueles que desdenham e se furtam às medidas de segurança pública tende a aumentar, chegando mesmo a legitimar medidas punitivas por parte do Estado.

Nesse contexto, soa no mínimo como inábil a atuação do presidente ao desdenhar da gravidade da situação e se expor e expor seus apoiadores ao risco de contágio. Igualmente soa irresponsável o filho do presidente ecoar teorias da conspiração que culpam o maior parceiro comercial do país, a China, pela difusão de uma falsa epidemia, ainda mais quando se avizinha uma das maiores crises econômicas da história. É possível questionar aqui se se trata de pura loucura ou se há método nessa loucura.

É novamente o conceito de “comunidade de destino” que nos ajuda a compreender a estratégia em curso. Na narrativa bolsonarista para governar o país, é preciso apresentar como verdadeira ameaça o “comunismo”, e não a pandemia. O discurso da extrema direita, seja na sua versão olavista ou seja na econômica, é que há uma guerra sendo travada no país contra uma esquerda que, simulando uma preocupação com a justiça social, na verdade encampa um projeto totalitário de poder, que busca destruir a família, os valores cristãos e a liberdade econômica. O período de redemocratização seria justamente o momento em que essas forças teriam conquistado o poder, sendo preciso, portanto, reverter o legado democrático e da Constituição de 1988 e retornar aos “anos dourados” do passado idealizado da Ditadura Militar. A narrativa não explica exatamente a razão dessa tara totalitária, conferindo antes uma suposta essência má aos setores progressistas. Com isso, e não por acaso, o discurso bolsonarista se mescla à ideia de uma luta divina do bem contra o mal, encontrando respaldo principalmente em setores mais radicais do neopentecostalismo e do catolicismo.

O discurso bolsonarista não é, portanto, o da solidariedade, mas o da guerra contra os inimigos internos que ameaçam a nação (sendo a nação identificada ao governo e o povo aos seus seguidores). Ele busca suscitar o sentimento de “comunidade de destino” com base nessa cisão radicalizada. Daí se tratar de uma estratégia especificamente emocional, que joga com a conversão dos sentimentos de frustração e ressentimento em ódio contra os “comunistas”. Essa nova onda “anticomunista” define de maneira absolutamente elástica seus inimigos, operando antes de tudo como um significante vazio que pode ser ocupado por qualquer opositor do governo.

O combate à pandemia, ao deslocar com suas práticas a ideia-sentimento de “comunidade de destino”, desarranja a estratégia bolsonarista e coloca contra a parede seu protagonista. Quanto mais Bolsonaro desfaz dos perigos para a saúde pública, quanto mais seu entorno alimenta teorias da conspiração irresponsáveis, quanto mais Paulo Guedes defende reformas austericidas e corta benefícios sociais, mais a indignação moral se volta contra ele e seus asseclas. O panelaço pode ser só o começo, pois a constituição de uma comunidade de destino, bem como da sua memória, costuma ter efeitos duradouros.

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