Os três tempos no presente

Os três tempos no presente

REDAÇÃO

22 de setembro de 2020 | 12h20

Amon Barros, é professor na University of Essex Business School e na FGV EAESP

 

Há uma relação estranha com o tempo entre algumas pessoas que expõem suas opiniões nos almoços de domingo e nas redes sociais. Uns, acham que é possível contar a história a partir da experiência pessoal. Outros, que o futuro é construído com a força da torcida a favor e intervenções mágicas, que até trazem chuva. Novamente, vê-se a importância da história e da memória nos debates públicos. Mas, também, da noção de passado, presente e futuro. Entender a temporalidade talvez permita considerar melhor o contexto. Assim, este texto oferece três tipos de pessoas no tempo, entre os vários que devem existir por aí.

Há alguns sujeitos que parecem viver na ideia do presente permanente, no qual não existem efeitos de longo prazo nem daquilo que passou (como as leis que criminalizavam a pobreza), nem daquilo que se faz hoje (como a destruição da natureza ou o permanente esgarçamento institucional imposto pelo atual governo). A atomização da vida, aprofundada em tempos de isolamento, encontra indivíduos que se deparam com as tragédias na saúde e no ambiente apenas se perguntando como isso os afeta e como poderiam se safar. A comunidade, se existe, parece se restringir a uma igreja fechada.

Outras pessoas vivem no passado e querem o governo do pretérito do futuro. Uma experiência nostálgica de um Brasil (que teria sido) Grande durante a ditadura militar. Do ponto de vista da experiência pessoal, talvez essas pessoas estejam certas. “Naquele tempo havia boas escolas públicas”. De fato, numa sociedade ainda mais restrita, os privilégios eram ainda mais concentrados e o Estado podia se dar ao luxo de só gastar com quem queria. Assim, se quem lembra do chicote estava do lado do cabo e não das correias, vai pensar que havia um mundo de oportunidades que ela aproveitou. Ignorando, por exemplo, os elevados níveis de analfabetismo, os assassinatos políticos, o etnocídio e a baixa cobertura de saúde (ou mesmo a epidemia de meningite escondida pelos militares nos anos 1970). Pior, há os que romantizam o Brasil Império, com pessoas escravizadas, latifúndios e sub-cidadania. Com tantos membros de família real na ativa, talvez o time dos Orléans-Bragança devesse tomar cuidado com o que desejam.

Por fim, os escatológicos. Depois de um primeiro carnaval falando de “golden shower” e reiteradas piadas de quinta série sobre fezes (“ir ao banheiro dia sim e dia não”), possivelmente outros já acharam, no governo de Jair Bolsonaro, um quê escatológico. Contudo, a forma de lidar com a pandemia e com os incêndios nos biomas brasileiros, sugere que a escatologia, aqui, pode ser mais profunda do que essa que se mostra à primeira vista.

Há uns meses, Rui Tavares em seu podcast “Agora, Agora e Mais Agora”, fala que a ideia da iminência do fim do mundo estruturava ações tomadas pelas pessoas que moravam no período das cruzadas – para onde querem nos levar algum dos assessores do governo. Um ethos parecido move parte das pessoas. A ideia de que o futuro importa pouco, já que o fim está próximo. Queime-se tudo, no além ninguém precisa respirar. Até acreditam nas consequências, mas também acham que não há nada a se fazer para detê-las.

Em parte, a relação peculiar com a reverberação do presente no futuro e de como se retoma o passado explica a primazia do capitalismo predatório entre os aliados mais vocais do governo. O padrão que o Ministro da Economia gostaria de impor agrada à boa parte do empresariado, assim como o governo do Capitão. Mas, nas bolhas financeiras, há também admiração pelo modus operandi impiedoso. Coisa de Gordon Gekko, personagem do filme Wall Street (Oliver Stone, 1987), famoso por dizer “a ganância é boa” (greed is good) – depois de várias operações que salvavam valor ao acionista, com pouco apreço pelos impactos nos trabalhadores. O filme é uma boa síntese da desindustrialização e financeirização dos EUA. Aliás, estudar os anos 1980, quando se passa o filme, parece cada vez mais premente. O aumento do custo do dinheiro para o governo e a desvalorização acentuada do real, parece que vai fazer com que a história, apesar de não se repetir, rime.

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