Os riscos do consenso automático

Os riscos do consenso automático

REDAÇÃO

02 de abril de 2020 | 22h45

Antonio Gelis Filho, Professor da FGV-EAESP, é Doutor em Administração (FGV-SP), Especialista em Direito Sanitário (FSP-USP), Advogado (USP) e Médico (USP).

 

Devemos seguir as instruções das autoridades sanitárias e manter o isolamento social até segunda ordem. Essa é postura cidadã neste momento. Mas é essencial que não nos esqueçamos de que o mecanismo de isolamento social é baseado em consenso científico, não sendo portanto dogmático ou ideológico. Seguirá sendo utilizado enquanto, e apenas enquanto, as evidências científicas embasarem sua eficácia. A ciência é o reino da dúvida e das verdades temporárias. Por isso avança. O reino das verdades absolutas é o fundamentalismo, religioso ou político. Um cientista deve estar sempre preparado para descobrir amanhã que as verdades que sustentam suas convicções de hoje são parcial ou totalmente falsas.

Infelizmente, há uma ideologização da questão “isolamento social” neste momento e esse fato foi esquecido, devendo ser lembrado. Em português claro e direto: por um lado, é possível sim seguir as instruções sobre isolamento social sem ser “de esquerda” ou “histérico”. E é possível sim seguir as medidas de isolamento e buscar alternativas menos danosas à sociedade ao mesmo tempo, sem com isso se tornar bolsonarista ou “negacionista”.

Essa situação de polarização intelectual não científica favorece o surgimento do mecanismo de consenso automático, seja na sociedade como um todo, seja em pequenos grupos. Não é um mecanismo positivo. Acontece em situações de tomada de decisões de alto impacto, e consiste em um processo no qual qualquer questionamento ao consenso é entendido como traição e é reprimido. Agrava-se quando há uma tensão não usual cercando a decisão. Como agora.  Ao longo da história, isso levou a algumas das piores decisões já registradas. Não podemos, particularmente neste momento, deslizar como sociedade para esse perigoso mecanismo.

Em seu livro “ The Brilliant Disaster, Jim Rasenberger analisou como um verdadeiro “time dos sonhos”, incluindo John Kennedy, Arthur Schlesinger Jr e Robert McNamara, entrou em um regime de consenso automático que os levou a apoiar a atrapalhada e eventualmente fracassada tentativa de invasão de Cuba por paramilitares na Baía dos Porcos em 1961. É um alerta a pessoas que devem tomar decisões de alto impacto em regime de alta pressão. E trata-se de um conceito extremamente prático para todas as pessoas que tomam decisões em organizações.

Como sabemos se um grupo de tomada de decisão entrou em regime de “consenso automático?

Algumas características servem de alerta. A primeira é exatamente a incapacidade de conviver com a falta de consenso. Os que divergem de uma decisão são pressionados até que se curvem à opinião da maioria. Isso pode ocorrer por pressão direta ou por meio do sarcasmo e da ironia. Em segundo lugar, o silêncio passa a ser entendido como aprovação. Se a pessoa que conduz o processo de tomada de decisão não proteger a expressão de cada membro do grupo, o silêncio será a reação natural da maioria do dissidentes. Em terceiro lugar, os “incorrigíveis”, os que insistem em manifestar sua opinião divergente, ainda que seguindo as instruções em suas ações, são afastados. Finalmente, um processo de cognição seletiva é colocado em prática: apenas informações que confirmem a opinião do grupo são valorizadas. Quando isso ocorre, o potencial para o desastre é muito alto.

Como dito, certa feita, por empresário muito bem-sucedido durante a maior parte de sua carreira, mas que a encerrou com uma enorme falência: “minha empresa faliu porque em meu board havia apenas pessoas que concordavam comigo”.

Há um remédio, entretanto, para o consenso automático.

O remédio para o “consenso automático”  é a tolerância e até o estímulo ao dissenso responsável e embasado. Se caminharmos como sociedade para uma situação onde qualquer pesquisa sobre a eficácia do isolamento, onde qualquer questionamento em relação à correção das medidas, ainda que dentro de um comportamento de respeito a elas, for considerado “negacionismo”, caminharemos para uma situação de altíssimo risco coletivo. Não apenas pelo momento que vivemos, mas também pela perspectiva que será lançada ao futuro. Bem faria o Ministro Mandetta – e talvez já o faça – se em sua equipe mais próxima estivesse incluído alguém com a missão de ser “questionador oficial de plantão”, sempre oferecendo um contraponto quando decisões estivessem sendo tomadas de forma automaticamente consensual. Aliás, dadas as peculiaridades do momento, nenhuma decisão deveria ser tomada sem que a voz do dissenso responsável fosse ouvida. A mesma receita serve para outros grupos tomando decisões de alto impacto em organizações públicas ou privadas, qualquer que seja o setor.

Exatamente por conta da gravidade do momento, devemos questionar de forma respeitosa e responsável, no melhor de nossas capacidades, as decisões tomadas pelas autoridades. Devemos pesquisar, sem vieses políticos, a eficácia do isolamento social no Brasil, maneiras para torná-lo mais eficaz e se existem alternativas menos danosas à sociedade. Enquanto fazemos isso, porém, devemos seguir à risca as instruções das autoridades sanitárias. Boa sorte a todos nós. Sem consenso automático e com responsabilidade, individual e coletiva.

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