Os riscos de perdermos um bom censo pela falta de bom senso – novas reflexões

Os riscos de perdermos um bom censo pela falta de bom senso – novas reflexões

REDAÇÃO

20 de maio de 2019 | 18h14

Eduardo de Rezende Francisco é professor de Data Science, GeoAnalytics  e Big Data da FGV EAESP e fundador do grupo de estudos GisBI.

Rubens de Almeida é engenheiro e jornalista, dedicado a temas urbanos e  organização de dados sobre mapas digitais. Fundador do grupo de estudos GisBI.

Há algumas semanas, escrevíamos no Blog Gestão, Política & Sociedade, (https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/falta-bom-senso-para-um-bom-censo/) organizado pela FGV-SP aqui na plataforma Estadão, que estava faltando bom senso para que tivéssemos um “bom censo” em 2020 (“Falta bom senso para um bom censo”, de 14 de março de 2019). Comentávamos algumas declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes – dadas em evento interno do IBGE, sobre um suposto desperdício de recursos do órgão, por planejar um Censo 2020 “com perguntas demais” (…) ou que “o IBGE deveria vender prédios para pagar o custo da pesquisa”, estimado em algo próximo a 3,4 Bilhões de Reais.

 

O clima dentro do IBGE azedou um pouco mais, dias depois. Apesar da atual presidente do instituto, a economista Susana Cordeiro Guerra, mostrar um currículo exemplar para enfrentar o desafio do Censo 2010 – antes da nomeação, trabalhava no Banco Mundial em Washington (EUA), é PhD em Ciência Política pelo MIT, tem mestrado por Harvard, foi pesquisadora visitante no Ipea, FGV e PUC-RJ – isso não impediu de decidir, no início de maio, pela exoneração de dois dos principais diretores da instituição, o diretor de Pesquisas, Cláudio Dutra Crespo, e de Informática, José Santana Bevilácqua.

 

Depois de anunciar um corte de 25% nas despesas previstas para o Censo 2020 e, assim, sinalizar aos pesquisadores de todo o Brasil que haveria algum tipo de simplificação na coleta de dados, Susana designou ao economista Ricardo Paes de Barros, atualmente professor do Insper e integrante da Comissão Consultiva do Censo Demográfico instituída em maio do ano passado, a tarefa de cortar o questionário.

 

É evidente que a decisão pela redução dos custos da pesquisa desagradou outros membros da Comissão Consultiva do Censo e certamente os quadros técnicos do IBGE, mas o que mais incomoda não é o desacordo entre os especialistas, mas a falta de informações sobre quais critérios teriam subsidiado a decisão do corte de 25% do orçamento.

 

Em vista da falta de informações mais objetivas sobre o tema, o momento é de especulações. Os mais otimistas, alinhados com o ministro, acham que a economia no Censo 2020 será alcançada se houver uma redução significativa das perguntas, diminuindo o tempo das entrevistas dos recenseadores com a população. Uma hipótese improvável, já que o trabalho de levantar os dados de casa em casa é absolutamente insubstituível e o chamado “questionário simples” – aplicado a todos os domicílios do país – não oferece muitas chances de redução.

 

Outros apostam que para reduzir um quarto das despesas, somente se forem totalmente eliminados ou reduzidos a uma amostra mínima os chamados “questionários completos”, aplicados apenas a alguns domicílios e que geram os principais dados estatísticos da sociedade brasileira. Tradicionalmente, informações cruzadas em nível domiciliar, que permitem estudos mais detalhados com renda individual, escolaridade detalhada, posse de bens e produtos e origem da renda são feitas a partir dos micro-dados identificados por amostragem.

 

Em 2010 foram introduzidos, também, dados de observações do recenseador. Informações sobre as moradias, as condições urbanas do entorno ou dificuldades de acesso às casas, preenchidas com algum capricho pelos recenseadores ao chegarem a um domicílio. Uma série de informações interessantes que podem ajudar a entender (e como evoluem) as condições de vida e como convivem os brasileiros nas diversas cidades do país: se a moradia é digna, se há iluminação na rua, lixo acumulado, água encanada, esgoto, placas com nomes de logradouro, rampas para deficientes nas calçadas e um olhar sobre as condições do pavimento da rua, do passeio público e de mobilidade urbana em aglomerados subnormais. Esse levantamento também aponta se há arborização e áreas verdes próximas aos domicílios.

 

Pode haver a hipótese, também, de se ganhar produtividade no processo de registro e transmissão das informações. Parece ser esta a explicação escolhida como oficial pela presidente do IBGE. Mas se a solução de preenchimento de questionários diretamente nos tablets e a integração delas aos servidores já está incorporada à rotina do IBGE, não é plausível que haverá grandes oportunidades de economias no processo.

 

Ou seja, é quase certo que a economia prometida, de 25%, provavelmente vai afetar os dados estatísticos recolhidos por amostragem, se é que eles ainda serão coletados. Ou advirão da redução do tempo dos recenseadores na rua, pela eliminação da necessidade de serem agregadas as suas observações sobre os logradouros.

 

Em ambos os casos, a perda poderá ser irrecuperável para o acompanhamento da série histórica de dados estatísticos secundários do país, hoje intensamente utilizados tanto pelo poder público quanto pelo setor privado, em tarefas tão diferentes como processos de planejamento e gestão de desempenho da administração pública ou verificação dos potenciais de consumo e absorção de produtos oferecidos aos mercados.

 

Se perdermos o levantamento de dados das condições urbanas e rurais dos domicílios pelos recenseadores, as prefeituras do país voltarão ao vazio de informações no momento em que definem seus investimentos. E as empresas privadas perderão a oportunidade de apontar e acompanhar as necessidades de melhor acomodar no espaço público os seus projetos, de modo a favorecer a organização, o bem estar e a evolução do padrão de consumo da sociedade.

 

A menos que as prefeituras assumam essa tarefa de levantamento das reais condições de vida da população, isolando-a das perspectivas dos políticos de plantão para não serem contaminadas por visões interesseiras ou mentirosas, o país deixará de enxergar em detalhes e de maneira independente, como vivem, moram, se deslocam, trabalham e se divertem os brasileiros.

 

Tais perdas de qualidade no levantamento decenal do IBGE seriam absolutamente lamentáveis, concordam todos que participam da comunidade científica nacional e usam os dados do instituto para iniciar, embasar e estender as conclusões de suas pesquisas. Todos os órgãos e entidades dedicados às questões de sustentabilidade, acompanhamento da qualidade de vida e do controle ambiental, assim como o poder público em todos os níveis da administração da sociedade, perderão, também, suas referências para qualificar e justificar investimentos.

Os departamentos de marketing das empresas privadas perderiam seus referenciais para fazerem estimativas evolutivas de seus mercados. E o sonho de termos cidades-inteligentes tornar-se-ia ainda mais distante sem quaisquer dados sobre suas reais condições, condenado a voltar ao Século XX em termos de planejamento e tecnologia embarcada no ambiente urbano.

Ou seja, será que vale a pena correr o risco de fazer o levantamento do Censo decenal, – tão importante para o país – apenas parcialmente, em função de um problema momentâneo de caixa de governo? Ou seria mais racional adiá-lo por um ano, realizando-o em 2021, quando se espera um quadro mais positivo para a economia?

As consequências de levantamento inadequado (por completude ou representação) são invisíveis no curto prazo e desastrosas no longo prazo. Vale a pena correr o risco de fazer um Censo meia-boca e sem bom senso?

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