Os Profissionais do SUS e o enfrentamento ao Covid-19

Os Profissionais do SUS e o enfrentamento ao Covid-19

REDAÇÃO

31 de março de 2020 | 13h51

Vanessa Elias de Oliveira, é professora da  UFABC
Gabriela Lotta, é professora da FGV EAESP

Muitos são os desafios de saúde pública que encaramos agora, no meio da crise do Covid-19, e muitos outros serão enfrentados ainda, no médio e longo prazo. No enfrentamento da pandemia, ganham destaque os trabalhadores da saúde que estão na linha de frente, atendendo os doentes e colocando suas próprias vidas em risco nessa missão. Em um momento de crise como o atual, é preciso dar visibilidade à atuação destes profissionais que muitas vezes parecem escondidos nas estruturas da administração pública. No mundo inteiro, manifestações sociais de apoio a esses profissionais têm acontecido, na forma de aplausos coletivos nas varandas e janelas, respeitando o isolamento, mas demonstrando a gratidão àqueles que possibilitam a convalescença de milhares.

Sem dúvida, esses profissionais são essenciais no combate à pandemia. São um exército de pessoas, em geral invisibilizadas, que dedicam sua vida diária aos cuidados da população. Nos estudos acadêmicos, eles são comumente denominados de “burocratas do nível da rua”, aqueles profissionais que estão na linha de frente dos serviços públicos, atendendo aos cidadãos que chegam aos postos de saúde e hospitais. Dados do Ministério da Saúde apontam que somente na atenção básica, tínhamos em 2019 cerca de 48 mil Equipes de Saúde da Família (ESF), 31 mil Equipes de Saúde Bucal (ESB) e quase 290 mil Agentes Comunitários de Saúde. São médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, dentistas e agentes comunitários de saúde – milhares de trabalhadores na linha de frente do SUS, atendendo cotidianamente a população. Na atual crise sanitária, estão todos mobilizados, recebendo cidadãs e cidadãos nos serviços de saúde e fazendo a triagem dos casos mais complexos, que requerem internação. Estão também mobilizados nas ruas, fazendo visitas domiciliares, levando informações sobre prevenção e cuidados e visitando casos críticos em casa. Também na média e alta complexidades, os serviços especializados, outro exército de profissionais está atuando, cuidando das vítimas em hospitais públicos, filantrópicos ou conveniados que prestam serviços ao SUS. Estão colocando em risco sua própria saúde e a saúde de seus familiares em prol dos cuidados da população. Não é preciso dizer o quanto esses profissionais, “burocratas do nível da rua”, são essenciais para a política pública de saúde acontecer, garantindo aos usuários do SUS não apenas o atendimento cotidiano, como também em momentos de crise como o atual, nos quais se tornam verdadeiros heróis do serviço público

Mas, não são apenas esses burocratas que possibilitam o atendimento público em saúde. Precisamos lembrar e reconhecer que esse só acontece porque há um enorme contingente de profissionais nas gestões dos serviços públicos, trabalhando na formulação e na implementação da política pública que chega aos cidadãos. São os denominados “burocratas de médio e alto escalão”, que coordenam os trabalhadores “da ponta”, dos hospitais e postos de saúde. Alguns são profissionais da saúde e conhecem as questões epidemiológicas envolvidas nas epidemias e pandemias; outros não são do campo da saúde, mas são igualmente essenciais: administradores públicos, sociólogos, advogados, especialistas em processos licitatórios e de importação, agentes de tecnologia da informação, economistas, dentre tantas outras funções necessárias para o andamento do dia a dia dos serviços públicos de saúde.

Os burocratas de médio escalão são aqueles que coordenam as equipes que estão em contato direto com os cidadãos, transformando as decisões do alto escalão em ações a serem realizadas na ponta. São os dirigentes de hospitais e postos de saúde, que coordenam suas equipes e fazem os serviços funcionarem. No caso do Covid-19, gerenciam fluxos de atendimento e encaminhamento; controlam o estoque de material dos serviços, apontando, por exemplo, a necessidade de mais equipamentos de proteção individual (EPIs) ou mais respiradores. Organizam o fluxo de trabalho dos profissionais da saúde, balanceando a necessidade de prestação de atendimento em horas-extras e a saúde física e mental desses profissionais. Garantem o atendimento de normas técnicas de controle de infecções hospitalares, coordenam os setores de limpeza, de nutrição, de enfermagem etc.

O alto escalão, por sua vez, não está em contato direto nem com os cidadãos, nem com os profissionais da saúde que atuam nos serviços. Eles trabalham na formulação da política, nas Secretarias Municipais e Estaduais ou no Ministério da Saúde, estabelecendo protocolos de atendimento, garantindo a compra de medicamentos e insumos, a importação de equipamentos, ou buscando alternativas em casos de desabastecimento. Em contato direto com o chefe das pastas – os Secretários Estaduais, Municipais, o Ministro e seus Secretários – o alto escalão planeja, encontra soluções, e até enfrenta demandas e atritos políticos para que a política aconteça dentro dos critérios epidemiológicos estabelecidos mundialmente.

Na atual crise sanitária, os profissionais da saúde são lembrados e o Ministro da Saúde ganhou destaque, em função do bom desempenho na condução da Pasta no momento da maior crise sanitária em décadas. Mas o médio e alto escalão, pouco mencionados, são igualmente essenciais para a política. O Ministro Mandetta reconhece isso, e sempre menciona nomes e dá voz a membros de sua equipe nas entrevistas coletivas que concedeu (agora sob cabresto). Na reunião do dia 28/3, no Palácio da Alvorada, disse claramente que desautorizaria Bolsonaro sempre que o mesmo declarasse posturas contrárias às defendidas pelos técnicos do Ministério da Saúde. Também governadores e prefeitos dialogam com seus burocratas de alto escalão, que dão suporte técnico às suas decisões políticas. Burocratas e políticos atuam juntos para o sucesso das políticas públicas. Os políticos de bom senso dão voz aos técnicos, sua burocracia de médio e alto escalão, e sabem que deles dependem para terem acesso à informação assertiva e tomarem decisões efetivas. Políticos de bom senso também valorizam a atuação de seus burocratas de nível de rua, sabendo que deles depende o acesso da população a tratamento. É preciso que a população também reconheça a importância desses profissionais, dos mais variados níveis da gestão do SUS. Sobretudo num contexto em que o chefe máximo da nação desconsidera a ciência e o conhecimento técnico, baseando-se apenas em achismos para a tomada de decisões. Sobretudo em um momento em que parte da sociedade chama servidores públicos de parasitas. Estamos, mais do que nunca, nas mãos dos profissionais do SUS, desde os atendentes dos postos de saúde até os técnicos do Ministério. São eles que, hoje, colocando em risco sua própria vida, nos asseguram parâmetros e protocolos confiáveis para o enfrentamento da Covid-19.

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