Os profissionais de saúde na terceira onda da pandemia da COVID-19 no Brasil

Os profissionais de saúde na terceira onda da pandemia da COVID-19 no Brasil

REDAÇÃO

02 de fevereiro de 2022 | 16h32

Michelle Fernandez, Doutora em Ciência Política (Universidade de Salamanca), Pesquisadora no Instituto de Ciência Política (UnB) e Pesquisadora colaboradora do Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz

Gabriela Lotta, Doutora em Ciência Política (USP), Professora de Administração Pública (FGV-EAESP) e Coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB)

Ao longo dos últimos dois anos, desde que a pandemia da COVID-19 chegou ao Brasil, os profissionais de saúde têm passado por uma experiência laboral desafiadora. Como 5 rodadas de surveys coordenadas pelo Núcleo de Estudos da Burocracia da Fundação Getulio Vargas demonstraram, conforme a pandemia avançava, esses profissionais enfrentam-se a escassez de equipamentos de proteção individual (EPI), falta de orientação e treinamento, problemas de saúde mental, medo, falta de apoio político e dificuldades para reorganização de seus serviços.

No início de 2022, em um contexto de aumento vertiginoso de casos de COVID-19 no Brasil, mais uma vez os profissionais de saúde são levados ao limite para que a população possa continuar sendo assistida. A pandemia avança diante de equipes de profissionais esgotados, fragilizados e que nutrem poucas esperanças com os rumos da pandemia. Além disso, o cenário atual coloca desafios concomitantes aos profissionais que precisam se desdobrar para atender os casos de COVID-19 ao mesmo tempo em que implementam a maior campanha nacional de vacinação da história do país e começam a voltar aos atendimentos de rotina suspensos e adiados ao longo da pandemia. Todas essas tarefas são acumuladas em um cenário de contínua escassez de insumos, de falta de orientação, treinamento e apoio político e de um aumento de casos de violência contra profissionais.

Mais uma vez, salientamos que é fundamental apoiar os profissionais de saúde para que eles possam exercer seu trabalho em momentos de crise. Esse apoio deve vir dos governos federal, estaduais e municipais e deve estar traduzido em medidas que ofereçam proteção a esses profissionais. É importante disponibilizar recursos adequados, entre eles EPI, insumos em geral e treinamento, para que os trabalhadores da linha de frente da saúde possam atuar. Além disso, gestores da saúde devem garantir comunicação adequada com a população para que neste momento de crise sanitária os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) possam saber qual é a real capacidade dos serviços de saúde e de seus trabalhadores. Um canal claro de comunicação com a comunidade e uma gestão estruturada dos serviços de saúde durante o pico desta nova onda da COVID-19 podem diminuir os casos de violência registrados contra profissionais de saúde.

As políticas de saúde são materializadas graças à atuação dos profissionais que estão atuando na implementação dos serviços públicos. É, portanto, por meio do trabalho dos profissionais de saúde que a população passa a ser assistida pelo Estado. Se temos profissionais fragilizados, como observamos no atual contexto da pandemia da COVID-19, teremos uma oferta deficitária dos serviços de saúde, não apenas agora mas também no futuro. Portanto, é fundamental apoiar e proteger os profissionais de saúde para garantir sua integridade e para viabilizar a entrega de serviços de saúde adequados à população. Sem profissionais de saúde não atravessamos uma pandemia nem as múltiplas consequências que ela nos gerará de demanda reprimida, condições de saúde não antecipadas e doenças não tratadas.

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