Os paralelos entre o Brasil e os Estados Unidos

Os paralelos entre o Brasil e os Estados Unidos

REDAÇÃO

28 de setembro de 2020 | 13h13

Thomas D. Rogers, é professor de História na Emory University em Atlanta.

Jeffrey T. Manuel, é professor de História na Southern Illinois University em Edwardsville. Estão escrevendo um livro sobre a história transnacional de biocombustíveis no Brasil e nos Estados Unidos.

 

Nos últimos meses os olhos do mundo estão voltados para o Covid-19, a violência policial e o populismo de direita. O Brasil e os Estados Unidos lideram em número de mortes por Coronavírus e assassinatos policiais, e ambos os países têm enfrentado dificuldades sob a liderança de presidentes populistas. Isso não é mera coincidência. O impacto corrosivo dos eventos de 2020 tem revelado conexões que, embora não fossem tão evidentes, já existiam há algum tempo. Conforme nos distanciamos historicamente do século XX—o chamado “século Americano”— Estados Unidos e Brasil emergem, no século XXI, como nações mais semelhantes do que diferentes. Ambos os países são “gigantes” do hemisfério ocidental, marcados por profundas e persistentes desigualdades raciais e econômicas e com setores agrícolas orientados à exploração de recursos para alimentar uma crescente classe média mundial.

Os dados de 25 de setembro revelam que os EUA têm quase 7 milhões de casos de Covid-19 e mais de 202,000 mortes. O Brasil fica em segundo lugar no número de óbitos, com aproximadamente 140,000, e é o terceiro em quantidade de casos, com 4.7 milhões. Quanto a assassinatos policiais, o Brasil é o líder mundial seguido pelos EUA, que ocupam o segundo lugar. Policiais no Brasil executaram 5,804 pessoas em 2019 e, nos EUA, o número de execuções foi de 1,536. Em ambos os países a porcentagem de vítimas de descendência Africana foi alta. Nos EUA, 27 por cento dos assassinados eram afrodescendentes, que constituem 13 por cento do total da população. No Rio de Janeiro, três quartos das pessoas mortas pelas forças policiais em 2019 eram pretas ou pardas, grupos que correspondem aproximadamente à metade da população.

Os dois países também compartilham do populismo de direita de seus presidentes. Jair Bolsonaro, seguindo Donald Trump no palco mundial, adotou vários de seus slogans, como “Make Brasil Great Again” e “Fake News.” Este ano, a relação entre Trump e Bolsonaro foi marcada pelo vírus. Em 7 de março, Trump hospedou Bolsonaro em Mar-a-Lago, seu clube na Flórida, em um evento que acabou sendo taxado de “Coronavírus hot zone,” já que vários membros da comitiva de Bolsonaro testaram positivo para o vírus nos dias seguintes. Posteriormente, Bolsonaro comemorou o dia da independência americana (4 de julho) com o embaixador Todd Chapman e, três dias depois, testou positivo para Covid-19. Tanto Trump como Bolsonaro incentivam o uso da cloroquina, um remédio para o tratamento da malária cuja eficácia contra o Coronavírus ainda não foi comprovada.

As semelhanças entre Brasil e Estados Unidos não são, porém, uma anomalia de 2020. Historicamente, o Brasil tem sido um dos países mais desiguais no mundo, enquanto os EUA têm caminhado por pelo menos duas gerações nesta mesma direção. Segundo a Oxfam, a renda de 5 por cento dos mais ricos no Brasil é equivalente à renda do restante da população. A desigualdade persiste apesar dos avanços dos anos 2000, quando 29 milhões de brasileiros entraram na classe média. A crise financeira global desfez muitas daquelas conquistas. A desigualdade nos Estados Unidos, entretanto, tem crescido ao longo dos últimos 50 anos. Desde 1971, o final de cada década foi marcado por uma porcentagem menor de americanos com renda média. Em suma, o país norte-americano está economicamente cada vez mais parecido com o Brasil. A transformação é evidente para observadores estrangeiros. Diane Francis, colunista do Financial Post no Canada, descreveu os Estados Unidos como “um ‘Brasil’ virtual, com cidadãos mais ricos morando atrás de portões, com segurança privada, ou em subúrbios, longe dos bairros pobres com grandes populações de baixa renda.”

Como pesquisadores de história agrária e ambiental, temos notado a convergência ao longo dos anos entre os setores de produção agrícola dos dois países. A modernização no campo colocou o Brasil e os EUA na liderança mundial em produção de soja, carne, milho, suco de laranja e algodão. Os setores agrícolas brasileiro e norte-americano estão intimamente ligados, com empresas de agronegócios sediadas nos EUA dominando o processamento da colheita no Brasil, e empresas brasileiras entrando no mercado estadunidense. A JBS, por exemplo, é a maior empresa de processamento de carne nos EUA (a corporação lidou com sérios problemas com Covid-19 nas suas instalações em ambos os países). Hoje, Brasil e EUA competem para se posicionar como provedores de alimentos para uma classe média Asiática em alta. O crescimento do poder econômico e político da Ásia propiciou ao Brasil um nicho lucrativo com a exportação de produtos agrícolas e minérios. É provável que os EUA sigam o mesmo trilho nas próximas décadas, deixando seu status recente de superpotência mundial para dar ênfase aos assuntos hemisféricos e controlar a exploração dos recursos naturais do continente.

As semelhanças estruturais entre os EUA e o Brasil apareceram primeiro na agricultura e ficaram cada vez mais evidentes devido à pandemia, aos assassinatos policiais e ao populismo de seus presidentes. Certamente estes não são os sinais do acaso, mas revelam o esboço de um sistema global do século XXI no qual tanto Brasil quanto Estados Unidos se encaixam como países ricos, mas desiguais, e ocupam papéis semelhantes como fornecedores de matéria prima para a Ásia.

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